ago 152010
 
Por Rubens Ricciardi *

Muitos músicos solistas consagrados pela mídia infelizmente passam toda a carreira sem apresentar uma única obra inédita num concerto público. Sequer apresentam obras de compositores vivos e muito menos ainda se preocupam em divulgar a produção musical brasileira – seja ela mais antiga ou mais recente. Assim, atuam restritamente sob a segurança do repertório consagrado – os chamados “clássicos europeus” – e não ousam inovar. São intérpretes inúteis enquanto músicos brasileiros e prejudicam a sobrevivência da música de concerto, pois contribuem para aquela falsa imagem de que “música clássica” é sempre “coisa velha e de museu”.

Este, no entanto, está bem longe de ser o caso do violinista e maestro Cláudio Cruz, nosso regente titular da OSRP. Sua trajetória de solista (ele que é um dos maiores violinistas brasileiros de todos os tempos) e agora também de notável regente, contempla um espírito incansavelmente empreendedor e comprometido diretamente com a música brasileira.

Cláudio Cruz é um pesquisador nato, pois está sempre investigando novas obras que possam inovar seu repertório, efetuando resgates histórico-musicológicos ou mesmo estréias mundiais. Um profissional que não recusa desafios! Sua discografia de intérprete é uma das mais importantes da música brasileira. Lembramos aqui as dezenas de CDs dedicados à música brasileira, gravados com suas orquestras (Orquestra de Câmara Villa-Lobos, Orquestra BANESPA, Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas e agora também, para nossa sorte, frente à OSRP); grupos de câmara (Quarteto de Cordas Municipal de São Paulo, cujo apogeu se deu justamente à época em que Cláudio Cruz ali atuava, e o Quarteto Amazônia, talvez o melhor quarteto de cordas no Brasil em todos os tempos); como violinista solista ao lado do pianista Nahim Marun; e ainda, por fim, sua atuação como spalla da OSESP.

Cláudio Cruz interpretando Invierno Porteño, de Astor Piazolla, com a OSESP

Seja no repertório sinfônico ou de câmara, a atuação de Cláudio Cruz já é essencial e muitas vezes mesmo única na discografia de inúmeros compositores brasileiros, mesmo os mais importantes, como Carlos Gomes, Henrique Oswald, Alberto Nepomuceno, Alexandre Levy (com a memorável descoberta e edição crítica de seu “Quarteto de cordas”), Francisco Braga (e seus inconfundíveis solos na ópera “Jupyra”), Villa-Lobos, Lorenzo Fernandez, Cláudio Santoro, Edino Krieger (que já declarou em público diversas vezes que Cláudio Cruz é seu “melhor intérprete”) e Gilberto Mendes, entre outros tantos. Deste último, além de inúmeras apresentações em concertos das mais diversas obras, registramos também a gravação frente à OSRP da música para o filme “O dono do mar” – uma das melhores trilhas cinematográficas jamais produzidas no Brasil. Ainda recentemente, frente à OSRP, destaca-se a extraordinária gravação de clássicos consagrados (como a “Sinfonia nº40″ de Mozart e a “Sinfonia nº5″ de Beethoven) e do CD sinfônico dedicado aos 50 anos da Bossa Nova e à música de Tom Jobim.

Portanto, ao lado do repertório tradicional, no qual é igualmente insuperável, Cláudio Cruz jamais esquece seu comprometimento com a música brasileira de todos os tempos – e a ela dedica todo um carinho singular, tratando com a mesma seriedade tanto os compositores consagrados como os novos talentos.

Neste vídeo, o 2º movimento da  Segunda Sonata Fantasia de Villa-Lobos, com Cláudio Cruz e o pianista Cláudio Soares – uma peça raramente interpretada que fez parte do repertório na turnê que os dos dois músicos fizeram no Japão este ano.

Pela OSRP, com a participação do Madrigal Ademus da USP, Cláudio Cruz regeu a estréia contemporânea da “Ladainha de Nossa Senhora” (primeira metade do século XVIII) de Faustino Xavier do Prado, a partitura mais antiga que se tem notícia no Brasil (fruto de uma parceria com pesquisadores da USP de Ribeirão Preto) – um feito histórico! Recentemente, Cláudio Cruz promoveu a estréia mundial do “Concerto para viola caipira e orquestra” (2009) de José Gustavo Julião de Camargo, demonstrando mais uma vez seu espírito de inovação e seu carinho para com a música contemporânea brasileira, agora, em especial, através de nossa diferenciada produção local.

Deixo aqui um depoimento público de que trabalhar ao lado de Cláudio Cruz é sempre aprender. Sua fértil intuição de intérprete que desvela os conteúdos mais profundos na linguagem de cada compositor com o qual trabalha, assim como as mais criativas soluções que encontra para execução de cada passagem, é sempre motivo para que todos nós possamos assimilar novos caminhos em meio aos incontornáveis enigmas da música. Grande é a alegria de poder contar com Cláudio Cruz como regente titular de nossa OSRP – e temos ainda muito a ganhar com sua presença aqui em Ribeirão Preto. Portanto, chega de homenagear tão-somente os mortos. Cláudio Cruz está vivo e está entre nós, merecendo todo nosso reconhecimento, respeito e admiração, pois ele colabora de maneira decisiva para inserir definitivamente não só a OSRP como toda Ribeirão Preto no mapa musical do Brasil!

*Prof. Dr. Rubens Ricciardi é compositor, musicólogo e professor titular da USP. Na semana que vem você verá ele aqui no Entre Culturas regendo a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto como maestro convidado.

CD Osesp e Cláudio Cruz

A Fundação Osesp lançou, em 2010, o CD Osesp e Cláudio Cruz, comemorativo de 20 anos de Cláudio Cruz como spalla da Orquestra, em edição especial oferecida aos assinantes e disponível para download gratuito. Vem com o encarte completo para montar o CD.

Dois dos mais belos concertos de violino da história, o Concerto nº 1 Para Violino em Sol Menor, de Max Bruch e o Concerto Para Violino em Ré Maior, de Pyotr I. Tchaikovski em uma grande interpretação de Cláudio Cruz e da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo sob a regência de John Neschling. Realmente imperdível!
Ouça a primeira faixa do CD, do Concerto nº1 para Violino de Max Bruch:

Faça o download do CD:
Clique aqui para baixar o CD integral e o encarte!

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  6 Comentários para “Cláudio Cruz – um intérprete brasileiro”

Comentários (5) Pingbacks (1)
  1. Conheci o talento do Claudio Cruz quando meu pai comprou meu primeiro violino, em 1979 do pai dele o sr. João Cruz. O Claudio não se lembrará, mas tive a oportunidade de tocar entre ele o pai há muito tempo atrás em uma orquestra evangélica; sensação única de aprender com dois grandes mestres da arte do violino. Forte abraço e parabens pela homenagem.

  2. Sou pianista dos Meninos Cantores de Bebedouro, escrevi recentemente uma “Noite Feliz” para côro, cordas e piano. Quando estiver no YouTube mando um vídeo para você.

    • Caro Joao Marcelo, me lembro com alegria das partituras de suas musicas tao espefciais que voce me dava para tocar ha quase 20 anos! Tambem sinto muito a sua falta como amigo, nunca me esqueci dos bons momentos… um grande beijo,
      Lucia Sider

      • Olá, tudo bem? Procure no Youtube: Albanezi, invenção para duas vozes para gaita, mão direita em dó e mão esquerda em ré, que me verá na casa de meus pais ao vivo tocando a partitura. Se aceita conselho, mude-se de São Paulo para Ribeirão Preto e se empregue na Sociedade Lítero Musical como violinista, com o seu diploma da Unesp você passa no concurso da prefeitura.

  3. Parabéns pela homenagem,

    Merecidíssima,

    Parabéns Claudio Cruz,

    e que Deus o abençoe muito….,

    Emerson Rodrigues

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