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Texto e fotos de Luigi Rotelli

Estrasburgo (FR), capital européia, fronteira de tensão ao longo de seus 2022 anos de história, virou símbolo de reconciliação na Europa e se mantém na linha de frente da modernidade.

Poucas cidades no mundo tem uma história tão rica e tormentosa quanto Estrasburgo, FR. Situada às margens do rio Rhin, na Alsácia, divisa da França com a Alemanha, ela esteve no front de quase todas as grandes guerras na Europa dos últimos 2 mil anos. Mas seu patrimônio histórico e arquitetônico resistiu ao tempo e às guerras.

Tal como os anéis do tronco de uma árvore milenar, a história de Estrasburgo está inscrita em círculos concêntricos. Partindo da Catedral de Notre Dame, passando pelo distrito medieval da grande ilha, a petite france, o quartier allemand até chegar ao moderno parlamento europeu, navega-se por quase mil anos de história e de extraordinários tesouros arquitetônicos. Outros mil anos estão debaixo das calçadas das ruas e das casas no centro da grande ilha.

Petite France

Décadas antes do início da era cristã, os romanos subiam o Rio Rhin buscando pontos estratégicos para criar fortificações na fronteira da gália e impedir as invasões de tribos germânicas. Na confluência do rio Ill com o rio Rhin, construiram uma fortificação. A história da cidade começa oficialmente no ano desta fundação, 12 AC. Mas os indícios arqueológicos contam que quando os romanos chegaram lá encontraram uma vila celta que se chamava Argentorate, cuja origem se perde no tempo e que na acepção da língua celta significa quase certamente “cité de la rivière”. O nome Argentorate romanizado virou Argentoratum.

Dada sua posição estratégica, no coração da Europa, na fronteira com os germânicos e na borda de um importante rio navegável com eixo norte-sul, Roma manteve durante 5 séculos um contingente militar que chegou a 10.000 legionários.

Essa enorme legião recebendo salários de Roma atraiu naturalmente um mercado em volta dos muros da fortificação. Produtores agrícolas e pecuários iam e vinham e uma multiplicidade de artesãos se estabeleceram por ali: carpinteiros, especialistas em metalurgia, fabricação de armas, artefatos cerâmicos, couro, fabricação de vidros e escultores. Em meio a tumultuadas invasões germânicas e incêndios que a devastaram seguidas vezes, Argentoratum ainda assim floresceu e acumulou tecnologia até o ano 451 DC, quando Átila (Attila the Hun), imperador dos Hunos, reduziu a cidade a cinzas. Seguia-se em poucos anos o colapso do império romano do ocidente.

Estela funerária do legionário Largennius. Photographie Mathieu Bertola – Musées de Strasbourg

O museu arqueológico de Estrasburgo tem uma imensa e extraordinária coleção de toda essa impressionante história: ali estão os muros do forte, pilares romanos com as inscrições em latim, as lápides de dezenas de legionários, com nomes, datas, origem e filiação, armas de todos os tipos, escudos, capacetes, moedas, cerâmicas, esculturas… Tudo de 2000 anos atrás. De repente, tudo aquilo que eu havia lido em livros de história romana e mesmo visto em épicos de cinema estava ali, ao vivo e a cores, organizado em ordem cronológica. Não é por outra razão que a passagem pelo museu arqueológico me emocionou profundamente. E foi com um misto de espanto e diversão que fui encontrando objetos e referências conhecidas da minha infância, da época em que li a coleção completa dos quadrinhos de Asterix. Tirando a poção mágica do Panoramix, o resto – dos casquetes dos legionários romanos à perseguição aos druídas – estava tudo ali no museu.

Sobre as cinzas da destruição de Átila, a vila foi refundada 45 anos mais tarde, precisamente em 496 DC, sob o nome de Strateburgum (o burgo da rota), sob o reino dos Francos, tribos germânicas do ocidente. Seu nome significa que está no cruzamento das rotas, não só no eixo norte/sul, do rio Rhin, mas a partir de então, no eixo leste-oeste, na nova rota comercial inaugurada entre a Gália e a Germânia, posição geográfica que lhe rendeu também influências multiculturais.

Anos mais tarde, com a conversão do rei dos Francos ao cristianismo, foi uma das raras cidades de pequeno porte a ter um bispo católico.

A vila permaneceu de tamanho modesto durante a alta idade média mas, no século XII, já era uma das maiores do sagrado império romano germânico. Naquele tempo foi iniciada a construção do sistema de defesas da cidade, com as chamadas pontes cobertas, nas fotos abaixo:

Como o centro da cidade é fundado sobre uma ilha, havia 80 torres como essas para cobrir o perímetro. Só restam 4 agora.

A importância da cidade naquela época já era considerável, tanto que em 1262 foi proclamada Cidade Livre Imperial do Sagrado Império Romano Germânico e autorizada a fabricar a própria moeda, uma excepcional concessão.

A Catedral de Notre Dame de Estrasburgo começou a ser construída um século antes, em 1176, e somente foi concluída em 1439. Durante 300 anos, gerações de artesãos criaram um monumento gótico absolutamente impressionante.

Com 142 metros de altura, durante mais de 400 anos, precisamente até 1884, foi o edifício mais alto do mundo ocidental. Outras catedrais na Inglaterra e na Alemanha alcançaram flechas com maiores altitudes entre 1530 e 1650, mas duraram poucos anos: foram destruídas por raios.

Mas não é somente a altura equivalente a um edifício de 45 andares o que impressiona. É o fato de sua superfície interna e externa, de 142 metros de altura por 51 de largura e 111 de profundidade, ser inteiramente ocupadas por obras de artes. Cada entalhe, cada detalhe, cada escultura uma obra única cuidadosamente elaborada.

Se ainda é impressionante aos turistas nos dias de hoje, imagine um pagão nos idos de 1400 chegando na porta desta catedral. Ele provavelmente se converteria ali mesmo e, depois de entrar, se tornaria devoto.

Chegar aos pés dela pela rua da frente ouvindo o poderoso sino que reverbera nas ruas ao redor é emocionante. Impressionou intelectuais da estirpe de Goethe, que a ela dedicou um ensaio sobre arquitetura e décadas mais tarde ainda mantinha viva sua impressão inicial: “Quanto mais eu contemplo a fachada da Catedral, mais eu estou convencido de minha primeira impressão: que sua imponência está ligada à sua beleza”. Foi louvada por Victor Hugo: “É um gigantesco e delicado prodígio. Eu vi Chartres, eu vi Anvers, mas eu precisava ver Estrasburgo… Do campanário, a vista é maravilhosa. Strasbourg estende-se aos seus pés, a antiga cidade de telhados triangulares denteados e janelas de empena, interrompida por torres e igrejas tão pitorescas quanto aquelas de qualquer cidade em Flandres.” Olha a vista que Victor Hugo teve!

A catedral não cabe em minha lente grande angular. De fato, é até mesmo difícil de apreendê-la com os olhos, mesmo após horas de contemplação, tamanha a riqueza de detalhes.

Cada estátua é diferente da outra. Não há nenhuma igual.

Esta catedral sofreu com diversos bombardeios da história, mas sobreviveu. Após a revolução francesa, os revolucionários ordenaram sua destruição porque representava um símbolo de opressão. Mas alguém com mais inteligência histórica convenceu eles do contrário com uma brilhante idéia: ao invés de destruir, deveriam revestir a flecha (torre) da catedral com metal vermelho, como se fosse um boné (le bonnet phrygien, um dos ícones de liberdade da revolução francesa), para que ela pudesse ser avistada de longe pelos inimigos da república do outro lado do Rhin, na Alemanha. Assim foi feito e ela passou a ser um símbolo de poder dos revolucionários. Passado o afã da revolução, a capa foi retirada da espiral da torre.

Imagine destruir tamanha riqueza; a história de sofrimentos da humanidade e os caminhos da salvação esculpidos na pedra e pintados nos vitrais.

O fim do estilo gótico coincide com a invenção da imprensa, talvez porque fosse mais simples imprimir em livros tudo aquilo que era laboriosamente representado na pedra ou nos vitrais. Para entender esta relação entre a imprensa e a arquitetura, veja este capítulo do livro de Victor Hugo, “O Corcunda de Notre Dame”.

Em conseqüência do seu desenvolvimento, mas também da construção desta grande catedral, a cidade atraiu artesões refinados em todas as áreas, como escultores, fabricantes de vitrais e metalurgia. Foi bebendo deste conhecimento acumulado que Gutemberg inventou a imprensa… em Estrasburgo, em 1451. E não foi por acaso que várias décadas mais tarde, ali surgiu o primeiro hebdomadário (semanário) da história da humanidade. Essa efervecência cultural explica porque em Estrasburgo o protestantismo entrou com força no período da reforma e, olhem só que interessante: durante quase um século, debaixo da mesma nave, conviveram bispos católicos e protestantes. Com a intervenção de Luis XIV, a catedral voltou a pertencer à Igreja Católica.

Enquanto o Brasil ia sendo descoberto, no século XVI, lá já se formava os primórdios de uma universidade, hoje a maior da França, com aproximadamente quarenta e dois mil alunos. Goethe se formou em direito na Universidade de Estrasburgo.

Um dos prédios da Universidade de Estrasburgo

Detalhe da fachada principal da Universidade

A cidade tem uma Biblioteca Nacional e não municipal. É gerida pelo governo francês, com um considerável acervo.

Biblioteca Nacional em Estrasburgo

Com uma história rica e conturbada, na fronteira de todas as guerras, destruída e reconstruída, bombardeada por alemães e americanos, Estrasburgo foi da Alemanha durante a idade média, recuperada pela França em 1697, pelo Tratado de Ryswick; retomada pela Alemanha na guerra franco-alemã de 1870, depois reconquistada pela França na 1ª Guerra Mundial, pelo Tratado de Versailles. Foi parar novamente nas mãos dos alemães na 2ª Guerra e finalmente voltou para a França no final da 2ª guerra.

Alguém que tivesse nascido em 1869 e morrido aos 76 anos, teria nascido francês, crescido como alemão, envelhecido como francês após a 1ª guerra, se tornado novamente alemão durante a 2ª guerra e finalmente morrido como francês. A população é bilingue: o francês é a lingua oficial mas o dialeto alsaciano é inteiramente germânico.

Homenagem aos mortos na 1ª e 2ª guerra mundial

Essa bela cidade, a cité de la rivière, entrecortada por inúmeros canais e pontes, resultado da fusão de duas culturas bastante distintas, virou símbolo de reconciliação da Europa e é hoje sede do Conselho da Europa, da Corte Européia dos Direitos Humanos e do Parlamento Europeu (na foto).

Sede do Parlamento Europeu que Estrasburgo divide com Bruxelas

Corte Européia dos Direitos Humanos

Na próxima semana, não perca a 2ª parte desta matéria com a organização dos espaços urbanos e da mobilidade. Um exemplo de cidade voltada para os cidadãos. E o encontro de duas culturas na gastronomia e na vinicultura.

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  31 Comentários para “Estrasburgo: Parte 1 – Na Fronteira da História”

Comentários (29) Pingbacks (2)
  1. Estou com passagem comprada para ir a Estrasbourg 16 de agosto. Vou ficar somente 4 dias inteiros mas gostaria de conhecer colmar e alguma vinicula por lá Sei que é pouco tempo mas preciso de um roteiro enxuto Será que vc poderia me ajudar?
    Fico grata pois quero aproveitar da melhor forma, tive que encaixar no meu roteiro depois que vi esta matéria no blog e sobrou pouco tempo . Agurado por email
    Grata

  2. Olá pessoalll!! Vou estar em Luxemburgo em janeiro e gostaria de saber a distancia entre as 02 cidades e se dá para ir e voltar no mesmo dia de trem??

  3. Nunca vi tao linda

  4. E muito lindo Estrssburgo,parabens pelas informaçoes. Pretendo conhecer em breve.

  5. Adorei essa cidade, pretendo voltar um dia.

  6. Excelente texto!! Parabens!

  7. Excelente Post!! Com grande sensibilidade, fotos maravilhosas, riqueza de informações, você expressa a alma de Strasbourg de forma incrível e simples. Parabéns!! Estarei lá em abril e usarei suas valiosas informações no passeio.
    Abs.

  8. Estou literalmente apaixonada por Estrasburgo, nao vejo a hora de conhece-la pessoalmente… esta pagina foi um “achado” ” Amei !

  9. Já estou ficando mais intimo de Estrasburgo com tanta riqueza que possibilita aos internautas mesmo sem estarem em Estrasburgo de conhece-la de perto, a sua historia de mais de 2000 anos não é a toa que me sinto extremamente encantado por essa bela cidade que tem tanto a nos ensinar.
    Excelente trabalho

  10. Estive o ano passado nesta bela cidade, tudo de bom.

  11. ESTAREI EM STRASBOURG NO PRÓXIMO AGOSTO,FIQUEI MARAVILHADA COM AS FOTOS E A HISTÓRIA QUE VC POSTOU.JÁ ME FASCINOU,ANTES DE CHEGAR…..

  12. Estive recentemente em Estrasburgo e AMEIIII, como amei tmb seu site. PERFEITO!!! Obrigada por nos proporcionar tantas fotos lindas e descrição da história simples e fantástica.

  13. Excelente texto! Sou estudante de Arquitetura e Urbanismo, esse texto vai me ajudar num estudo de caso que estou fazendo sobre Estrasburgo. Conseguiu transmitir bem as sensações do lugar! Parabéns!

  14. Ide,
    Parabéns! Adorei seu site. Ele é realmente cheio de cultura e beleza.
    Grande abraço,
    Eliane

  15. Ide, estou encantada com o pouco que tive tempo de ler e ver. Acredito que quando nos vemos ao longe, temos a real sensação da vida.
    Abraços

  16. Meu caro Luiz, é simplesmente genial este teu Site. Meus parabéns!!!
    Vou repassar para meus amigos dando-lhes, assim, oportunidade de também adquirir cutura e entretenimento. Eles, com certeza, aplaudirão este teu maravilhoso trabalho.
    À medida que fores acrescentando novidades, te peço para te lembrares da Espanha. Da sua música, por exemplo.
    Um abraço, Ramon

    • Sr. Ramon, muito obrigado. Ainda não consegui encontrar rádios de música flamenca, mas enquanto isso vou preparar para a próxima semana algo especial de música espanhola com um grande solista internacional.

  17. Impressionante, Idi! As fotos ficaram incríveis.
    Agora espero poder um dia visitar esta cidade e ver ao vivo tanta história e arte reunidas…Aguardo ansiosamente a continuação.
    Parabéns

  18. Em Paris conheça a Brasserie Lipp, típica casa Alsaciana, logicamente uma brasserie, ou seja, comida bem caseira, com seus Andouillettes com Mostardas , não muito própios para vinhos, melhores com cervejas , acho eu.
    Ou a Hediard, vizinha da Fauchon , lá na Madeleine. Bem , neste caso uma bela loja gastronômica, do estilo Fauchon, em uma área nobre de Paris.
    Em nem pense em morrer sem antes conhecer a medieval Riquewihr, no coraçãozinho da Alsace.

  19. Qual Riesling é melhor? Da Alsace ou Alemã ? Munster é um queijo alsaciano ou alemão? GewurztramiNER é oxítona ou paroxítona,GewurztraMIner ?…rs…

  20. Os Alsacianos talvez sejam os mais independentes, das regiões francesas.Por estarem na divisa com a Alemanha, e pertencerem a bacia do Reno , e por terem sido ocupados por algumas vezes por alemães, a última durante a segunda guerra, juntamente com a vizinha Lorena, guardam uma relação cultural muito estreita com os germânicos. Mas se você quer provocar uma Terceira Guerra mundial é só mencionar isto. Os Alsacianos costumam dizer , quando perguntados , que não são nem alemães e tampouco franceses, são Alsacianos(que se pronuncia ALZACIANOS).

  21. Vi Estrasburgo de longe, e agora nas fotos espetaculares e com texto excelente. A família da minha avó paterna vem da Alsace Lorraine, próxima a encruzilhada entre Suiça, Alemanha e Itália. Estrasburgo não parece grande, mas como se percebe pelo texto é uma jóia francesa. Merci!

  22. Parabens pelo site. Esta matéria sobre Estrasburgo e fotos estão simplesmente maravilhosas!!!! Adorei…..

  23. Parabéns,
    Tudo é simplesmente sem comentarios!!!!!!!!!!
    Magnifico trabalho. Fiquei encantada, que não tenho palavras…

  24. Idi, parabens, ficou otimo, continue, 10, um grande abraco.

  25. Fantastico o seu site.Parabens.A materia sobre Estrasburg simplesmente deliciosa.Um abraco..

  26. Parabens,

    Seu site esta rodando bem.
    Tem um visual muito bonito.
    Na parte das musicas, entrei em uma radio muito 10.. 60-70 rock
    A parte de Estrasburgo e linda.
    vou navegar um pouco mais

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