ago 292010
 
Por Sérgio Mayr

Livro: ISTAMBUL – Memória e Cidade (“Istanbul: Hatiralar ve Sehir”)
Autor: Orhan Pamuk  – 2003
Tradução: Sergio Flaksman  -  Companhia das Letras/2007

Talvez a maior importância do prêmio Nobel de literatura* seja a exposição ao grande público de escritores de inegável talento que ficariam restritos a um pequeno reduto de admiradores. Dizem que houve equívocos nas escolhas do Comitê da Fundação Nobel (o dramaturgo italiano Dario Fo em 1997, por exemplo) e, certamente, ocorreram e ocorrem injustiças (Liev Tolstoi faleceu em 1910, sendo que o prêmio específico para literatura já existia desde 1901, e, inexplicavelmente, não fora agraciado, talvez em virtude da fase que atravessava, marcada pelo proselitismo de um cristianismo exacerbado, primitivo e pacifista – mas o edifício literário de gênio chamado “Guerra e Paz” jamais poderia ter sido ignorado – ridículo!; por outro lado, o americano Philip Roth e o albanês Ismail Kadaré já deveriam ter sido lembrados, pois o tempo passa e não há premiação póstuma; modernistas como Marcel Proust, Virginia Woolf e James Joyce não ganharam, talvez porque não viveram suficientemente para a poeira da audácia literária assentar; Samuel Beckett, outrora assistente de Joyce, de vida longa, recebeu o prêmio em 1969, pelo menos; William Faulkner, com uma escrita desbravadora, nada vulgar, levara o prêmio em 1949). De qualquer forma, o mês de anúncio das premiações, outubro, se avizinha.

A escolha do turco Orhan Pamuk pelo Comitê sueco em 2006 foi um acerto incontestável. Na obra em comentário, o escritor apresenta sua cidade natal de uma forma bastante particular (fora dos eixos do memorialismo habitual) e nos infunde uma devoção incoercível por essa cidade milenar (só nos resta, ao cabo da leitura absolutamente deliciosa, aplacar o desejo pela cidade com a providencial ajuda do Google Earth e seus fantásticos recursos ou assistindo ao documentário “Atravessando a Ponte” do ótimo cineasta turco radicado na Alemanha, Fatih Akin, em que imagens e música constituem um todo emocionante e original, à margem dos pontos turísticos tradicionais).

Paisagem de Istambul - fotógrafo desconhecido

Os primeiros povoamentos na área em que se situa Istambul remontam ao sétimo milênio antes de Cristo: Bizâncio desde 667 AC, fundada pelos gregos; capital do Império Romano (330-395 DC) sob o nome de Constantinopla; do Império Romano do Oriente ou Império Bizantino (395–1204 e 1261–1453); e, desde a tomada pelos turcos capitaneados por Mehmet II em 1453, capital do Império Otomano (1453-1922). Já referida também como Istambul desde o século 10 da era cristã, além de Constantinopla (também Pera e Beyoglu especificamente pelos turcos), somente em 1930 a cidade passou oficialmente a ser denominada de Istambul.

Todos sentimos uma certa dose de melancolia ao pensar na cidade natal, principalmente se o tempo decorrido é apreciável e mesmo que nunca a tenhamos abandonado por outros destinos territoriais segundo as contingências da vida. Trata-se de um sentimento humano por excelência, vinculado às transformações da passagem da infância para a vida adulta, aos objetos que ficam na névoa do tempo e, sobretudo, aos entes queridos já desaparecidos. Não se resume apenas ao que se pode referir como “saudade”. O autor transmite bem essa melancolia coletiva (hüzün), de raiz árabe: um estado de espírito, “uma disposição sombria compartilhada por milhões de pessoas”, sentida em relação ao que se vivencia no presente e com o passado em perspectiva – o enigma do existir e a efemeridade da vida sempre como pano de fundo da consciência. As fotografias e gravuras em preto e branco que integram o livro concorrem para sublinhar o tom melancólico sugerido pelas palavras.

A leitura da obra é uma experiência essencialmente sinestésica: estados de espírito, odores, sabores, sons, imagens, imbricados entre si, evocados por um mestre da escrita que, inicialmente, tentara a pintura (da pintura em si nasceu um pintor de palavras, artífice de uma escrita altamente imagética). Por momentos, chegamos a sentir o odor das águas do estreito de Bósforo; a ouvir o ruído das marolas nas margens (águas tão plácidas que marcam a linha divisória entre a Europa e Ásia, o Ocidente e o Oriente), os sons dos navios e o bulício da população no ramerrão diário; a visualizar as construções tão próximas da linha d’água; a Hagia Sofia e seus minaretes vislumbrados à distância, de qualquer ângulo; o Chifre de Ouro; a ponte Galata; o palácio Topkapi (sim, pontos turísticos habituais, mas que pontos turísticos! quanta história!).

Foto: Christopher Chan

A destacar, ainda, em uma dimensão mais pessoal, a dedicação comovente da mãe, as ausências às vezes obscuras do pai, as salas apinhadas de quinquilharias da casa-museu em que vivia o autor, a avó, as tias e as comidas, a mudança para uma residência menor por conta de infortúnios financeiros, os passeios pela cidade, o prazer da pintura, as leituras: referências literárias ocidentais e orientais abundam na obra. Aspectos políticos e sociais também são abordados.

Foto: Christopher Chan

As obras de Pamuk são vertidas aqui no país a partir das edições em inglês e não das edições originais em turco (traduções de segunda mão, porém muito boas, dentro do irretocável padrão de qualidade de Luiz Schwarcz e sua Companhia das Letras). “Neve” é um vigoroso romance de fundo político e o último trabalho, “Museu da Inocência”, um romance de linha memorialística, está previsto para lançamento aqui em 2011.

* Todas as premiações de literatura desde 1901 podem ser consultadas no endereço eletrônico http://nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/.

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  8 Comentários para “Livro: Istambul – Memória e Cidade”

Comentários (8)
  1. Istambu é o lugar mais belo que já vi, se um dia eu tiver oportunidade de viajar esse seria meu destino.!

  2. Sérgio,
    A grande virtude da Revista EC é de abrir horizontes, descortinar mundos desconhecidos pela maioria das pessoas comuns, instigando a curiosidade para aprender mais. Obrigado por compartilhar suas reflexões com os leitores. Vou comprar e ler o livro.

    • Liu, essa é a ideia mesmo. Instigar o interesse por obras literárias de importância cultural incontestável, mas que às vezes ficam um pouco relegadas, ou seja, deixadas de lado em virtude da atenção por livros de maior apelo momentâneo, porém, a rigor, marcados pela efemeridade. Um bom livro, inclusive, é atemporal, … permanece … séculos e séculos (é só pensar em “Don Quixote”, do século XVII)!

  3. Os comentários do Mayr, sobre cinema e literatura, são um banho de cultura. Só espero que todo esse talento continue a serviço do EC, que não me venha um jornalão querer comprar o seu passe…

  4. Seria bom ressaltar que o livro em questão é uma espécie da autobiografia do escritor, tendo Istambul como personagem principal (mais do que o autor). Não se trata de um livro sobre a história de Istambul ou de um romance histórico.
    Quando falo sobre o documentário “Atravessando a Ponte”, de Fatih Akin, uso algumas palavras (“à margem dos pontos turísticos tradicionais”) que, no conjunto, podem transmitir uma certa ambiguidade. Na verdade, a despeito dos belíssimos pontos turísticos dessa cidade, o documentário, acertadamente, passa longe (à margem) deles: somente temos alguns rápidos vislumbres de, p. ex., a Hagia Sofia (a magistral igreja/mesquita, hoje museu, das fotos do artigo), sendo destacados o povo e sua música (mesmo o rock e o hip hop turco), as ruas menos celebradas da capital e o interior.
    Desse excelente cineasta há três longas de ficção absolutamente recomedáveis (sempre com cenas de Istambul) e que tiveram exibição por aqui : “Contra a Parede”, “Do Outro Lado” e “Soul Kitchen”.
    Outro grande cineasta turco é Nuri Bilge Ceylan (Palma de Ouro e Melhor Diretor em Cannes/2008).

    • Espero que ninguém tenha percebido o lapso no comentário anterior: a capital da Turquia é Ancara, sendo Istambul a cidade mais populosa (mais 12 milhões de habitantes, considerada a região metropolitana) e mais conhecida … poderíamos dizer: a capital turística.
      Entre 1204 e 1261, Istambul (Constantinopla) esteve sob o jugo dos latinos (Império Latino), depois de uma invasão e pilhagem realizada no âmbito da Quarta Cruzada.

    • O cineasta Nuri Bilge Ceylan tem um belíssimo filme que foi exibido há algum tempo no TeleCine Cult:”Climas”, de 2006, em que atua também (ele tem uma certa semelhança física, na minha opinião, com o ator britânico Clive Owen).

  5. Parabéns pela introdução não só ao livro como a belíssima cidade de Istambul

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