ago 262010
 
Por Helô Marcondes

São Paulo inaugurou uma exposição belíssima sobre o poeta português Fernando Pessoa. Não me consta que esteja lá a poesia do grande amigo Mario de Sá-Carneiro (1890-1916), dois anos mais moço e que se suicidou aos 26 anos. Suas poesias foram escritas entre 1913 e 1916. Ambos estavam à mesma altura, bem acima dos seus contemporâneos, o que estreitou a amizade entre os dois e deixou farta correspondência. Apesar de pequena, sua obra é primorosa do primeiro até o último poema. Tinha a certeza de ser grande, porém se sentia inadequado e só. Os poemas expressam sua busca incansável do seu próprio ser e da qual aqui vai uma pequena amostra em ordem cronológica:

Escavação

Numa ânsia de ter alguma coisa,
Divago por mim mesmo a procurar,
Desço-me todo, em vão, sem nada achar,
E a minh’alma perdida não repousa. …

Dispersão

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto
E hoje quando me sinto,
É com saudade de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida. …

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem. …

Quase

Um pouco mais de sol – eu era brasa,
Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém. …

Caranguejola

Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira
Façam apenas com que tenha sempre ao meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
P’ra quê? Até se mos dessem não saberia brincar
Que querem fazer de mim com esses enleios e medos?
Não fui feito p’ra festas. Larguem-me! Deixem me sossegar!

Noite sempre p’lo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho – que amor!
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor –
P’lo menos era o sossego completo … História! Era a melhor das vidas. …

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  2 Comentários para “Mário de Sá-Carneiro”

Comentários (2)
  1. Sou uma pessoa mais afeita à prosa, porém admiro os grandes poetas e invejo os apreciadores.
    Dizem que a poesia é uma arte mais refinada que a prosa … talvez seja mesmo. Alguém já disse que detesta pegar um livro e deparar com algo tão prosaico quanto ” … a condessa saiu de casa às 5 da tarde …”.
    Eu acho que a prosa pode ser construída com uma forte carga poética: cada uma dessas formas de expressão literária tem o seu valor artístico, basta a qualidade e a criatividade!

  2. Que delícia! Adorei conhecer o Entre Culturas.
    “Um pouco mais de sol – eu era brasa,
    Um pouco mais de azul – eu era além.” Isso é lindo demais.
    Beijos! mari

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