ago 152010
 
Por Luigi Rotelli

Fotografia é a arte de pintar com a luz. Se você acompanhar o trabalho de um fotógrafo, verá que para fazer uma única foto é preciso cuidar de vários fatores: o enquadramento, a cor da luz, o contraste, as sombras, a disposição dos objetos, a postura e a expressão dos modelos, a maquiagem, para dar suavidade, retirar brilhos excessivos da pele, o figurino, que além de valorizar os modelos tem que harmonizar com as cores do ambiente. No cinema as coisas são bem mais complicadas:  são 24 fotos por segundo, em movimento, feitas em diversas tomadas, diferentes ângulos e planos-sequencia e todas têm que sair boas. No filme Orgulho e Preconceito, de Joe Wright, com direção de fotografia de Roman Osin, cada segundo é eternizado em uma obra prima, com as sutilezas de luz e sombra e a paleta de cores de uma pintura à óleo. E ainda com a beleza de Keira Knightley…

Repare o brilho da pele e dos olhos, a cor azul e o baixo contraste da luz da madrugada, preservada na cena, feita pouco antes do sol nascer. A luz é suave no rosto e não deixa sombras. Fosse uma câmera digital e o balanço de branco teria que ser cuidadosamente ajustado para preservar essa cor azulada.

A cena tem um timing perfeito, porque ela começa pouco antes do sol nascer e termina com os primeiros raios de sol. Em poucos minutos a cor da luz, o contraste e a saturação das cores se altera dramaticamente.

Poucos minutos depois a luz mudou significativamente. O contraste se acentuou um pouco. As cores estão mais acentuadas. Nesta cena, um solo crescendo de violoncelo, minimalista, dá lugar ao piano impressionista à medida que o dia vai nascendo.

A transição entre noite e dia, nos primeiros momentos da manhã é a hora mágica da fotografia. A paisagem muda com a luz a cada segundo; o contraste é baixo, o que favorece a fotografia,  mas o cara tem que ser muito, mas muito bom mesmo para conseguir um bom resultado.

Em outra cena, que se passa na beira do lago, no início da manhã, a luz do sol refletida no lago foi suavizada de um lado e rebatida de outro, produzindo um resultado belíssimo.

A diferença de temperatura de cor de uma cena à sombra de uma árvore:

A caraterística da luz à sombra de uma árvore: a temperatura de cor é mais fria porque debaixo da árvore a luz que chega é do céu e o contraste é mais suave, porque a luz é indireta. A luz deve ter sido reforçada apenas com rebatedores.

E na chuva a cor da luz é ainda mais fria (azulada):

Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice) é baseado no romance homônimo de Jane Austen. Na primeira vez que o assisti em minha sala de cinema fui arrebatado de tal forma pela beleza do filme, da fotografia e da música, que em alguns momentos mal conseguia acreditar no que meus olhos estavam vendo. Cheguei a levantar da poltrona, tamanho o meu assombro.

As cenas de exterior, de natureza, são absolutamente primorosas.

Nesta cena, a câmera se desloca em direção ao abismo, ficando suspensa sobre ele no final.

A árvore é linda, a disposição dos personagens traz equilíbrio e não há sombras com dia nublado.

Agora no interior. Reparem na beleza desta cena. A saturação das cores quentes da luz de velas, o contraste perfeito, comedido, as nuances de luz e sombra mostrando a textura delicada da pele.

Em cada cena, o fotógrafo preservou as características da luz. Ele não forçou, apenas suavizou, acentuou aqui e ali para dar tridimensionalidade, separar o personagem do fundo.


Não há como fazer cenas de interiores sem iluminação artificial, porque essa luz seria insuficiente para filmar em movimento. Mas a luz lateral que entra pela janela é tão natural que mostra a maestria do fotógrafo em posicionar as luzes para criar este efeito.

A luz de velas, fiel à época, é usada com inspiração nos jantares.

A palete de cores é simplesmente maravilhosa:

Nesta cena ele usa contraste de cores, combinando a luz azulada que entra pela janela (dá para perceber no cabelo de Donald Shuterland) com a cor quente da luz de vela.

Em outras cenas deste jantar a luz azulada faz o contorno do pescoço das moças , em contraste com o tom quente da luz de vela:

A movimentação das câmeras, as diversas tomadas de diferentes ângulos e a fotografia é apenas um dos ingredientes do filme, em conjunto com direção, atuação, roteiro, produção, cenário, figurinos, maquiagem. Tudo tem que funcionar com perfeição.

As salas das mansões são um espetáculo à parte.

O virtuosismo de Roman Osin, o diretor de fotografia deste filme, e Joe Wright, o diretor do filme, está também nas várias tomadas longas, sem cortes. A seqüência inicial do filme é assim. A câmera entra pela porta, passa pelos cômodos, sai pela janela. A dança de Elizabeth (Keira Knightley) e Mr. Darcy (Matthew MacFadyen) é filmada em uma só tomada, por longos minutos. A câmera acompanha com leveza os suaves movimentos da dança, focalizando ora um, ora o outro.

Em outra cena mais impressionante no baile  a câmera passeia por diferentes salas em uma única tomada, sem cortes, por mais de 3 minutos, uma eternidade pela seqüência impressionante de eventos que envolvem quase todos os personagens do filme, passeando entre pilares, entre diálogos, sempre observando, ouvindo, filmando detalhes delicados de mãos, de olhares, de expectativas – um primor de métrica, de iluminação e enquadramento. Jamais havia visto uma cena tão difícil (pela sequencia de eventos que envolve) em uma única tomada sair tão absolutamente perfeita e natural.

A cena mais abaixo em que aparece a mansão de Mr. Darcy é de tirar o fôlego. A belíssima música de Dario Marianelli permeia o filme com sustentável leveza, em sincronia total com a fotografia. Observem o momento em que Lizzy entra na mansão de Mr. Darcy. A câmera acompanha delicadamente o encantamento pela arte, passeia o olhar pela pintura no teto, move-se devagar entre as esculturas, gira em volta, conduz o nosso olhar pelos detalhes, acompanha as curvas. A música permeia esse movimento: começa sutilmente pelo piano, depois entra o solo de clarineta, nos enlevando no mistério da arte; os violinos, levemente, prosseguem o tema, transbordando contidamente a emoção do encantamento até que entra o solo da trompa, provocando um completo e absoluto arrebatamento.

Apreciar a arte é como degustar um bom vinho, é como apreciar a vida. Nós temos que evoluir os sentidos, aguçar nossa percepção para poder aproveitar cada momento mágico da vida, do vinho, da arte. E assim, cada dia de nossa vida é vivido como um dia mágico.

A trilha sonora deste filme é simplesmente maravilhosa. Foi gravada pela famosa English Chamber Orchestra e todos os solos de piano, inspirado nas primeiras sonatas de Beethoven – música contemporânea de Jane Austen no final do Século XVIII – é tocada por ninguém menos que Jean-Yves Thibaudet, renomado pianista francês . Dario Marianelli humildemente escreveu no CD da trilha sonora que ele deve ter feito alguma coisa certa para ter sido abençoado com as pessoas que ele acabou trabalhando em Orgulho e Preconceito. E, ao contrário do que ocorre na maioria dos filmes, em que a música é feita somente depois de terminado o filme, o diretor Joe Wright procurou Dario Marianelli bem antes de começar a filmar.

A performance de Matthew MacFadyen como Mr. Darcy é extraordinária, assim como a da Keira Knightley com sua beleza e talento excepcional, como Elizabeth, e Donald Shuterland, como o pai de Elizabeth. O roteiro é inteligente e emocionante, a produção e o figurino são impecáveis, as locações estonteates – belíssimas mansões inglesas – e a direção iluminada de Joe Wright fazem deste filme uma grande obra prima na história do cinema.

P.S.: E tem gente que acha caro comprar um DVD original. Ter uma obra prima como esta em sua casa por 30 reais é um milagre. A imagem deste DVD, aliás, está impecável e quando sair o blu-ray eu estarei na fila para comprar.

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  29 Comentários para “Música e fotografia de “Orgulho e Preconceito””

Comentários (29)
  1. Você conseguiu extrair de mim, em palavras, a emoção que sinto por esse filme. Ele é espetacular, fiel ao livro e por isso acho mais do que digno pagar para ter um DVD original dele em minha casa. Quero que meu filho, meus netos… todos, tenham a oportunidade de desfrutar de algo tão maravilhoso como é “Orgulho e Preconceito”, o filme.

  2. Melhor filme p mim… estou assistindo a dias…
    As fotos e a música são incríveis, o enredo, a sagacidade de Elizabeth, quero guardar as fotos, realmente eestou impressiinada. Amei!

  3. Não consegui parar de pesquisar depois de assistir pela decima vez. E impressionante tudo. A fotografia, a musica (ate convidei uma dançarina) para nos ensinar a coreografia, os personagens estão perfeitos. Enfim, ate agora não encontrei filme que se compare a este .

  4. Uma preciosidade, . Pra mim uma grande descoberta.Ismine Lima

  5. Perfeita apresentação da qualidade e arte que esse filme nós dá oportunidade de apreciar. Sem dúvida um dos melhores filmes já feitos.

    • Espectacular.
      A banda sonora, as paisagens, a mistica do sec.XVIII e toda a envolvencia ,fazem com que seja o filme que já revi mais vezes.
      A musica é de facto arrebatadora,genial!!!

  6. Ah… outro filme que gostei muito das imagens, achei de um bom gosto ímpar, é o filme ” Caminhando nas Nuvens” com Keanu Reeves…. é muito bonito, história singela, e passado em meio a uma vinícola linda, um paraíso, que foi captado muito bem fotgraficamente… assisti apenas uma vez e não consegui pegar o ínicio, mas me encantou….

  7. Concordo com vc em todos os seus comentários… é uma obra de arte… embora não tenha sido completamente fiel a história do livro, que é mais emotiva e detalhista, o filme traz menos romance e mais a beleza da época e os pontos fortes da escritora que é o de mostrar em detalhes como viviam as pessoas dessa época, de um modo mais sarcástico…. eu amei o livro, amei o filme, a trilha sonora e a qualidade em tudo o que fizeram…. muitas pessoas que assistiram acharam sem graça, porque ele é um filme artístico e diferente da maioria dos quais nos acostumamos…. acho essa fidelidade a época retratada, esses detalhes no comportamento fantásticos…. depois de assistir pela 3° vez, comecei a prestar mais atenção no comportamento da sra Benete, no quanto ela e as meninas sao irritantes e descontroladas, falando e rindo o tempo todo sem o mínimo de controle, no fato de Lizze dizer sim somente segurando a mão dele na cena, o que hj em dia é comum, naquela época era algo que só pessoas interessadas uma nas outras faziam… o que o Mr. Darcy já tinha feito em uma cena anterior para ajudar Lizze a subir na carruagem…. e mesmo sendo um romance, não vemos nenhum beijo no filme todo… ou seja, podemos ver que todos os detalhes foram pensados minuciosamente, e executados de maneira mais excelênte possível…. é por isso que eu amo filmes de romance de época, a maioria é muito bem feita e a trilha sonora supera as expectativas

  8. Amo, amo, amoooooo esse filme, agora entendo o porque…
    adorei o comentario.

  9. Não vou comentar sobre o filme, pois não assisti, nem sobre análise, e sim algo que sempre notei : o fato de assuntos com teor poético e emotivo sempre serem bastante comentados por mulheres, diferente dos assuntos técnicos.
    São os fatos provando as teorias.

  10. esse filme pra mim e uns dos mais perfeito. o equilibrio entre a musica e a fotografia
    faz eu me sentir dentro do filme. como um personagem tão importante como a elizabeth e o mr darcy. linda,linda todas musicas.

    Rosemary

  11. amo orgulho e preconceito
    esse filme deveria ter continuações…….
    ele é simplesmente romantico epico e lindo
    amo ele eu chorei e choro toda vz q assisto……

  12. Esse filme e magnífico, fazia muito tempo que não via um filme que me desse vontade de vê-lo varias vezes seguidas.

  13. Pouquíssimas vezes li um comentário com tanto preciosismo,
    isto me deixa feliz, visto que atualmente as pessoas estão reduzindo ao máximo o uso das palavras, prefiro a análise detalhada, isto alarga nossos horizontes de percepção, aprendemos e apreendemos cada vez mais!
    Aprecio muito os filmes europeus e mais especificamente os ingleses, pela ‘coragem’ que a exemplo de Austen, faz crítica de seus contemporâneos e antepassados!

    O detalhe do filme acima postado é belíssimo!
    Todo o filme dá-nos a impressão de estar em um museu sobre a arte romancista e realista, tal a fidelidade aos pormenores, tão bem explorados neste texto.

    Aqui, Luigi Rotelli, diz:
    “— Fotografia é a arte de pintar com a luz” aludindo a arte de filmar.
    Em meus estudos sobre as artes visuais, a fotografia, de que também sou diletante
    também faço analogias à arte de pintar. Os recursos e técnicas de que se utilizam, são muito próximos.

    Parabéns ao entreculturas !!!

  14. este meche com meus sentindos e me traz uma felicidade sem igual,o q mais me impressiona sao as paisagens no fundo de cada cena e cada vez q eu assisto vejo algo mais lindo,as musicas nem e preciso comentar

  15. Eu gosto muito desse filme. O Interessante é assitir várias vezes e perceber coisas antes nao vistas. Fico imaginando o quao lindo é forma de tratamento entre as pessoas, especialmente entre os homens e mulheres. :O)
    MC

  16. eu amo esse filme…
    eu concordo em relação a observação feita,realmente é uma obra prima e é tão gostoso poder ter um, e assistir quando quiser.
    O q eu mais gosto desse filme é pq ele faz com q eu relaxe.

  17. “Orgulho e Preconceito” é definitivamente um dos meus filmes favoritos, já o “apreciei” incontáveis vezes. Fiquei muito feliz ao ler as descrições, elas tornaram um pouco mais compreensível o fascínio que o filme exerce sobre mim. Parabéns pelo site, eu e a vovó adoramos!

  18. Achei muito criativo e interessante os comentarios sobre as cenas do filme, que pretendo assistir. Pois, muitas vezes assistimos algo e nao percebemos as sutilezas de cada cena, os detalhes de luz, brilho, cor, posição e tudo mais..Parabéns pelo site e pelas dicas.

  19. Um século depois de Jane Austen a sociedade pouco mudaria, notadamente a inglesa (a era vitoriana foi longa!), e uma americana chamada Edith Wharton escreveria obras como “The Age of Innocence” (prêmio Pulitzer de 1920) e “The House of Mirth” (1905), sagazmente críticas da hipocrisia da época.
    A adaptação para o cinema de “The Age of Innocence” (por aqui, “A Época da Inocência”) por Martin Scorsese, com Daniel Day-Lewis e Michelle Pfeiffer, não é muito lembrada, mas se trata de um filme magnífico que transporta com certa fidelidade para o celulóide o universo dessa excelente escritora, observadora do vazio da sociedade (aliás, que hoje muito não mudou! ou até piorou, de certa forma …). Se muitos filmes de Scorsese (incansável, que agora finaliza uma série, “Boardwalk Empire”, para o canal a cabo HBO sobre os tempos da Lei Seca – “Prohibition” – nos EUA e a atividade criminosa vinculada ao período – 1920/1933 -, e com novos projetos em vista com DiCaprio, esse ator que a cada filme se supera no domínio da arte dramática) trazem a violência como ingrediente inerente ao cinema desse estupendo criador, a aludida adaptação literária nos brinda com uma trama de tensão permanente em virtude da aguda hipocrisia das relações sociais (diálogos como facas cortantes – uma espécie de violência latente, em potencial, com o mesmo efeito psicológico da violência levada a cabo, a violência gráfica).

  20. Esse é um dos meus filmes prediletos, exatamente pelo primor e esmero com que foi feito. Tudo nele é bom, e retrata com perfeição a época. Uso até em aulas… já assisti mais de 20 vezes, e não me canso de revê-lo… Parabéns pelo texto que está muito bom. Aliás, fiquei fã do blog. Quem me recomendou foi um amigo, o Luciano Pereira. E realmente ele estava com a razão…

  21. As obras de Jane Austen, sempre revisitadas ao longo do tempo, apresentam uma lucidez crítica espantosa para a época: início do século XIX. A sociedade inglesa (ou a civilização em geral) e os costumes daqueles tempos não escapam de agudas farpas dessa maravilhosa escritora, uma desbravadora (amiga de Ann Radcliffe, de “O Mistério de Udolpho”, outra rara escritora da época; Edith Wharton, já mais tarde, bebeu da mesma fonte) …
    O filme é uma pérola, totalmente imperdível … simultaneamente fiel à obra e com um olhar próprio de um diretor que já ostenta uma obra invejável, se não em quantidade, em qualidade, incluído o mais recente “O Solista”, de tema contemporâneo (uma história verídica).
    “Desejo e Reparação”, título talvez não muito feliz para a obra-prima “Atonement” do escritor inglês Ian McEwan, é outro grande filme, embora esnobado em Cannes há poucos anos.
    Joe Wright é um diretor que não “desponta para o anonimato”, como diria o saudoso Paulo Francis, mas para permanecer em um seleto grupo de cineastas de talento inegável, em permanente aperfeiçoamento técnico e artístico.

  22. Parabens pela escolha das imagens e conteudo do site.

  23. Parabéns . Da mesma maneira que vc, me senti facinada ao assistir ese belíssimo filme. Mesmo já assistindo várias vezes ainda me surpreende a riqueza da fotografia e a música que eu acho genial.

  24. Muito felz a escolha do filme e o comentário. Parodiando o Campanella este é “o segredo de seus olhos” na análise da fotografia. Heloisa acertou no outra vez, e ótima a dica do blu-ray.

  25. Muito bom tambem.
    altissimo nivel.
    parabens!
    ja esta em meus favoritos…

    Renato

  26. Parabéns pelo artigo e também pelo site que está primoroso. Pura sensibilidade!
    O filme é realmente uma “pintura” e deu vontade de assisti-lo outra vez para curtir detalhes que deixei passar.

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