ago 222010
 
Por Luigi Rotelli

A sonda espacial Voyager estava já além da órbita de Plutão e bem acima do plano eclíptico da orbita dos planetas, se afastando do sol a 64.000 kilômetros por hora. Mas em fevereiro de 1990 ela foi surpreendida por uma mensagem urgente da Terra. Ela precisava voltar suas câmeras para trás, em direção aos agora distantes planetas e tirar uma panorâmica de 60 fotos do nosso sistema solar. A Voyager estava naquele momento a 6 bilhões de kilometros da Terra. A distância é tão grande que cada pixel demorou 5 horas e meia para chegar aqui, viajando na velocidade da luz.

A foto foi a última missão da Voyager e um pedido especial de Carl Sagan, que enfrentou algumas resistências da equipe da Nasa, do tipo “isto não é ciência”. Acontece que Carl Sagan não era apenas cientista, era também filósofo e poeta. E a razão desta foto vinha de uma outra, tirada pelos astronautas anos antes, em 1972, na missão da Apollo 17, a última missão tripulada a caminho da lua. A primeira foto da Terra em que ela aparece inteira:

"...porém lá não estavas nua, e sim coberta de nuvens!" (Caetano Veloso). Esta foto foi tirada pelos astronautas da Apollo 17. Uma feliz coincidência que a primeira foto da terra inteira tenha mostrado o continente Africano, onde os primeiros humanos apareceram, andarilhos das savanas. Apenas para registro, foi tirada com uma câmera Hasselblad, que, para quem não conhece, é uma das melhores que existem.

Nela não se vêem sinais da civilização humana, não se vê a divisão de nações. Esta foto já colocava em evidência a ignorância do nacionalismo, a obscuridade do fanatismo religioso e a tragédia da ganância, hoje convertida em religião – a religião do mercado – cujo Deus é o dinheiro, e sua face mais inconseqüente, as guerras. A visão do astronauta da Apollo 17 oferecia uma nova filosofia, a filosofia planetária, a visão do nosso planeta inteiro com uma fina superfície de vida, tão fina e frágil que não se percebe de uma distância relativamente pequena.

Foto tirada pela Voyager mostrando a Terra a 6 bilhões de km de distância.

Mas Sagan imaginou que, do extertor de nosso sistema solar, também valeria a pena tirar essa última foto mesmo sabendo que, não obstante os potentes telescópios da Voyager, a Terra apareceria apenas como um minúsculo pontinho azul. Já se sabia desde a antiguidade que a terra era apenas um pequeno grão de poeira no universo, mas nunca ninguém tinha visto, razão pela qual Sagan aproveitou o que talvez fosse a última oportunidade em décadas à frente para tirar esta foto.

Muita gente precisava olhar de novo para este ponto. Israelenses e palestinos, por exemplo, e os americanos sempre prontos a iniciar uma nova guerra. Na verdade, todos nós precisamos ter sempre em mente esta imagem nas nossas relações cotidianas.

E aqui eu deixo vocês com um pequeno trecho do primeiro capítulo do Livro “Pálido Ponto Azul” (Pale Blue Dot), um livro que vale a pena ser lido, pela beleza de sua profunda sabedoria, uma jornada no tempo e no espaço guiada da maneira simples e poética, mostrando os limites da exploração espacial e apostando que no futuro, nos teremos que voltar a ser andarilhos, como no passado, mas desta vez nas estrelas:

“Olhe novamente para aquele ponto. É aqui. É a nossa casa. Aquilo somos nós. Nele, todos que você ama, todos que você conhece, todo mundo de quem já ouviu falar, todos os seres humano que existiram, viveram as suas vidas. O agregado da nossa alegria e sofrimento, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas confiantes, cada caçador e lavrador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor de civilização, cada rei e camponês, cada jovem casal apaixonado, cada mãe e pai, criança esperançosa, inventor e explorador, cada professor de moral, cada político corrupto, cada super celebridade, cada líder supremo, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu aí, num grão de pó suspenso num raio de sol.

A Terra é um palco muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pensem nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, na sua glória e triunfo, eles pudessem se tornar os donos momentâneos duma fração desse ponto. Pensem nas crueldades sem fim infligidas pelos moradores dum canto deste pixel aos quase indistinguíveis moradores de algum outro canto, quão freqüentes as suas incompreensões, quão ávidos eles são para matar uns aos outros, quão ardentes os seus ódios.

As nossas exageradas atitudes, a nossa imaginada auto-importância, a ilusão de termos alguma posição privilegiada no Universo, são desafiadas por este pálido ponto de luz. O nosso planeta é um cisco solitário na grande e envolvente escuridão cósmica. Na nossa obscuridade, em toda esta vastidão, não há indícios de que vá chegar ajuda de outro lugar para nos salvar de nós próprios.

A Terra é o único mundo conhecido até agora capaz de abrigar vida. Não há mais nenhum outro, pelo menos no próximo futuro, onde a nossa espécie possa migrar. Visitar, sim. Estabelecer-se, ainda não. Gostando ou não, por enquanto, a Terra é onde temos de ficar.

Foto recente tirada pela Sonda Cassini, mostrando o poderoso planeta Saturno e, se você olhar bem de perto entre seus anéis, verá um pálido ponto de luz. Aquele pequenino ponto azul é a Terra.

Tem sido dito que a astronomia é uma experiência de humildade e de construção de caráter. Não há, talvez, melhor demonstração da tolice da presunção humana do que esta distante imagem do nosso minúsculo mundo. Para mim, isso acentua a nossa responsabilidade para lidarmos mais amigavelmente uns para com os outros, para cuidarmos e protegermos o pálido ponto azul, o único lar que conhecemos.”

(Carl Sagan, “Pálido Ponto Azul”)

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  2 Comentários para “Livro – Pálido Ponto Azul”

Comentários (2)
  1. que legal

  2. Adorei o suspense na chamada. A foto de Saturno e a terra é o máximo. O pedido inusitado, a explicação Rotelli então…

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