ago 232010
 
Por Daniela Viana Leal*

Belmiro de Almeida (Cerro, MG, 1858, Paris, 1935)

"Retrato", 1884, óleo sobre tela

Pouco conhecido do público geral, Belmiro é muito admirado pela qualidade de seu trabalho e pela inovação de suas propostas na arte do país. Bem humorado e brincalhão, era presença constante nas rodas boêmias. Dedicou-se à imprensa com caricaturas mordazes e textos satíricos e polêmicos. Ao usar cenas cotidianas e personagens da vida comum urbana como temas de sua pintura, causou impacto no meio artístico e abriu as portas para uma nova arte fazendo ponte às vanguardas do século XX.

O século XIX no Brasil foi marcado por fortes mudanças tanto na estrutura quanto na dinâmica e composição da sociedade que se reflete na arte do período.

Ainda arraigada aos velhos costumes ditados pelos conservadores mestres da Academia de Belas Artes, a produção artística nos anos próximos à Proclamação da República começava a se transformar. Uma nova geração se formava disposta a contestar preconceitos e a abrir caminhos menos austeros para a arte brasileira.

Os ares da revolução não se limitavam ás discussões políticas. Muitos alunos da Academia buscavam fora dessa instituição as respostas às novas questões que se impunham. Freqüentavam ateliês livres como o de Henrique Bernadelli e de Rodolfo Amoedo que abriam suas portas ao calor das mudanças republicanas.

Belmiro Barbosa de Almeida fazia parte da nova geração de contestadores ao lado de Visconti, Rafael Frederico, Décio Vilares, Fiúza Guimarães, entre outros.

Era um artista multifacetado: pintor, desenhista, escultor, caricaturista, poeta, humorista, jornalista e professor. De temperamento forte, era amável com os amigos e implacável com os desafetos, contra os quais usava de seu talento ferino e irreverente.

Como caricaturista, com piadas contundentes, charges e retratos críticos ele participou de diversas publicações inaugurando uma nova fase do gênero. Usava pseudônimos como os anagramas Romibel e Bromeli ao colaborar como caricaturista em “O Diabo da Meia Noite”, “O Binóculo”, “O Diabo a Quatro”, “A Cigarra”, “Ilustração Infernal” e “O Tagarela”, além de fundar “O Rataplan” em 1886 e “João Minhoca” em 1901.

Vaso com Flores, 1893, óleo sobre tela

Todavia, como pintor suas inovações foram menos audaciosas. Apesar de ser pontuada por um humor sutil, sua pintura carrega bastante da influência acadêmica, uma vez que foi aluno do Liceu de Artes e Ofícios e da Academia Imperial de Belas Artes entre 1869 e 1880.

Seu papel revolucionário dentro do panorama da pintura brasileira são marcados pela qualidade de suas telas, pela escolha dos temas inesperados e pelo tratamento pictórico original que o colocam entre os renovadores que abriram as portas para o século XX.

Como bom desenhista, de um modo geral, tendia a subordinar as cores ao desenho, como se as primeiras fossem apenas ferramentas na valorização do último. Belmiro pintava desenhando em um trabalho rigoroso, detalhado e paciente. Usava poucas tintas, sem excessos, sem carregar a tela, preferindo esfregaços rápidos, pinceladas em toques pequenos em experiências próximas às do Pontilhismo. Assim, suaviza os contornos, fundindo as cores para conseguir mais uma vez explorar o desenho das obras.

Ambivalência

Belmiro de Almeida tinha uma relação com a Academia muito particular. Ao mesmo tempo em que a critica, não consegue abandoná-la. Enquanto ocupava a cadeira de Desenho na Escola Nacional de Belas Artes, substituindo Pedro Weingärtner, a convite de Rodolfo Bernadelli, ao lado de Di Cavalcanti, Helios Seelinger, Kalisto e J. Carlos, criou o Salão dos Humoristas, numa alusão irônica aos elitistas Salões de Belas Artes.

Sua irreverência, seu talento e as inovações que experimentava no campo artístico não permitem que se possa considerá-lo um conservador. Entretanto, sua atitude sempre ligada aos rigores acadêmicos e alguma relutância em se libertar totalmente de alguns cânones impedem que se possa classificá-lo completamente no grupo de artistas rebeldes. Soma-se a isso o fato de ser um professor da Escola Nacional de Belas Artes e ter ganhado vários prêmios nos Concursos da Academia (Menção Honrosa, Medalha de Prata e Medalha de Ouro em 1874/75/76/77/78/80/84). Essa ambigüidade não foi perdoada por alguns críticos e a obra de Belmiro de Almeida acabou sendo menosprezada durante o século XX. As revoluções que o Modernismo causou na forma de encarar a arte foram tão intensas que tudo que havia sido feito anteriormente ficou com ar de superado. Hoje em dia, a crítica da arte volta seus olhos novamente ao passado e vê no século XIX as grandes manifestações da pintura brasileira.

Belmiro de Almeida surge, então, como um dos mais autênticos e interessantes artistas do período com uma obra que merece destaque e estudos mais profundos.

Retrato de Francisco Pereira Passos, 1908 ou 1909, óleo sobre tela.

As obras

O montante de obras pintadas por Belmiro não é numeroso, já que se dedicou a tantas diferentes atividades. Foi nos períodos de estágio passados entre França e Itália que produziu seus quadros de maior divulgação.

Arrufos, 1887. Óleo sobre tela

Em Arrufos de 1887, Belmiro é influenciado pela forte tendência na Itália daquela época, ligada ao realismo de Coubert, que voltava seus olhos para a vida comum. O tema surpreende o público brasileiro e se adapta às novas conjunturas políticas: não mais o Imperador ou o homem ilustre e solene é representado, e sim o burguês no interior de sua casa em meio aos acontecimentos triviais. No cuidado detalhado de cada pormenor e no tratamento laborioso que preenche cada parte do ambiente interno podemos relacionar esse quadro ao Descanso da Modelo de Almeida Júnior.

Idílio Campestre, óleo sobre tela

A influência italiana é ainda mais clara nos tipos populares representados em Camponesa Napolitana e Idílio Campestre. Neles as tintas são usadas em pequena quantidade deixando aparecer o suporte branco harmonioso no conjunto de ambientação luminosa.

A Tagarela, óleo sobre tela, 1893

Em Tagarela, a alegre serviçal abre um sorriso bem humorado encarando o observador. Em tons escuros a cena de interior ganha luminosidade no avental branco moldado com maestria. Tratada como retrato feminino, recorre aos esfregaços em tons terrosos criando transparências suaves. As pinceladas deixam as marcas dos toques e evitam os empastamentos comuns na pintura a óleo. A espacialidade é garantida pelo desenho do piso e a presença do móvel de madeira a direita. A vassoura jogada no chão faz contraponto às flores no canto superior oposto e indica a posição social da personagem. Seu rosto luminoso em uma expressão simpática atrai o olhar que desliza até suas mãos destacadas sobre o fundo branco.

Como escultor, produziu a peça Manequinho, figura de menino urinando em bronze criada para praça pública. É na verdade uma versão da obra Maneken-pis de Bruxelas e está hoje no bairro de Botafogo no Rio de Janeiro. Entre outras esculturas fez o busto do industrial Antônio Seabra, seu amigo e protetor artístico, além de obras satíricas e figuras caricatas que chegou a passar ao bronze e o projeto escultórico de uma figura feminina para o túmulo de Afonso Pena.

Seu perfil engajado é revelado por alguns dados: foi o fundador e presidente do Sindicato dos Artistas em 1930, e ao falecer, em Paris no dia 12 de junho de 1935, deixa parte de seus bens para a Escola Nacional de Belas Artes apoiar os artistas com carência de recursos.

As influências estrangeiras

Muito de sua formação se deve às influências européias que recebeu no período de estudos entre Paris e Itália. Apesar de seu talento, o perfil contestador de suas obras impediu que Belmiro de Almeida vencesse o concurso da Academia Imperial de Belas Artes cujo prêmio era uma viagem de estudos à Europa. Com a ajuda de professores de mentes mais arejadas e conhecedores das qualidades do jovem, consegue uma subscrição que permite sua partida para a Europa em 1888.

No século XIX, Paris se tornou o centro onde encontros e intercâmbios de idéias e personagens de todos os continentes era possível. A elite brasileira de artistas e intelectuais também estava presente nesse grande palco.

De forma geral esse grupo de brasileiros tendia a se unir a outros grupos radicados na Cidade Luz. Os portugueses e italianos eram os mais acessíveis por diversos motivos como a proximidade cultural e mais especificamente, no caso de Belmiro de Almeida, a influência direta dos Bernadelli e de suas viagens á Itália. Por esse tempo, a unificação nacional e suas conseqüências políticas tinham levado muitos artistas italianos à Paris.

Rua da Itália, óleo sobre tela

As influências do mercado, que fazia dos americanos enriquecidos os novos compradores de quadros, estimularam a valorização de um tipo de realismo elegante, sensual e exótico. O italiano De Nittis faz sucesso com suas telas inspiradas no naturalismo inglês de James Tissot (1836-1902), Millais e Alfredo Stevens. Belmiro de Almeida beberia da mesma fonte deixando transparecer na tela Arrufos o moralismo social vitoriano.

Em Paris, Belmiro fez parte do ateliê de Jules Lefrève, um dos pintores mais favorecidos pelo regime oficial. Esse fato é apontado por alguns analistas como um dos motivos, somado ao ambiente artístico retraído do Brasil, de sua pintura não ter se desenvolvido com tanta liberdade e inovação quanto seus desenhos e caricaturas.

Dame à la Rose, 1905, óleo sobre tela

Sua pintura tem fortes influências tanto francesas quanto italianas. O modismo parisiense chegou a influenciar o pintor, mas sempre sob o filtro de certo retraimento. Belmiro parece admirar a manifestação naturalista que ganhava força naquele período contra ao academicismo italiano. Certamente ele se identificou com esse caráter de contestação, próprio da tônica italiana. Algumas de suas telas, especialmente Dame a la rose podem ser associadas com características de Giovanni Boldini pela valorização da beleza feminina sensual e refinada. Além disso, os dois têm em comum o gosto pelo experimentalismo, se dedicando com talento às diversas correntes da pintura da época.

Entre os artistas brasileiros que nesse período estudaram em Paris, Belmiro foi um dos que mais assimilaram as novas tendências da vanguarda moderna. Nos últimos anos, em suas idas e vindas entre Paris e Rio de Janeiro, ainda que superficialmente, chegou a se aproximar dos aspectos mais genéricos de Futurismo e do Cubismo como na tela Mulher em Círculos de 1921.

Uma paisagem de Dampierre pintada em 1912 recebe um tratamento muito próximo ao Pontilhismo de Seurat. Sobre isso temos o testemunho de Antônio Bento publicado na Revista GAM n º5 de Abril de 1967 : “A tela de Belmiro de Almeida, uma pequena paisagem construída à maneira de Seurat, é excelente no gênero. Já revela a influência das idéias que conduziram a pintura francesa ao cubismo, através de Cézanne e do próprio Seurat”.

*Daniela Viana Leal é arquiteta e historiadora da arte. Atualmente é doutoranda pela Unicamp

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  18 Comentários para “Pintura: Belmiro de Almeida”

Comentários (18)
  1. Olá, preciso urgentemente saber sobre uma obra que dizem ser de Belmiro de Almeida, na qual há meninas e mulheres, pipas, balões, que intitulam como Meninos, de autoria dele, datada de 1892. não consigo encontrar na internet nada fazendo referência a essa obra como sendo dele. Por favor pode me ajudar, preciso referenciar essa obra, vc pode encontrá-la em: http://pt.slideshare.net/overlane/leitura-de-imagens-para-blog
    Obrigada.
    Evelise

  2. É perfeita a pintura e o blog também.
    Muito completo tem muita coisa boa pra se aproveitar e para conhecer.

  3. belmiro de almeida é de mas

  4. isso vai me a judar no meus estudos

  5. Descobri este site ao apreciar um vídeo da Ane Frenhi, onde ela ensina técnicas de pintura com lápis aquarelável. Posso dizer que pra mim foi um prazer muito grande!! Adoro arte em geral, especialmente pintura. E poder ler e ver obras de artistas como o Belmiro de Almeida, me deixa extasiado. Parabéns aos responsáveis pelo site!!!!

  6. Gosto muito de ARRUFOS. Gosto da tela desde que a vi pela primeira vez em minha vida – isto lá pela agonia da minha adolescência. Ela sempre me evoca uma atmosfera Belle Époque, mas também as entrelinhas e a opressão sutil do imaginário palpável de Machado de Assis. É uma viagem ao Rio às vésperas de ficar Republicano. Obrigado pelo parazeer que você me ofereceu. Tropecei em seu blog ao acaso. Procurava Rodolfo Amoedo e reencontrei Belmiro de Almeida.

  7. quero comprar um quadro do belmiro de almeida

    Rogerio 011 94615384

  8. parabéns…

  9. MUITO BONITAS!!PARECE QUE E FOTOS DE IMPRESORA!!NEM PARECE QUE E PONTILHISMO

  10. Muito interessante a vida e a obra de belmiro de almeida

  11. parabens pela seu trabalho

  12. GOSTARIA DE COMPRAR QUADROS DE BELMIRO DE ALMEIDA

    ROGERIO
    11 94615384

  13. não achei oque eu queria

  14. belmiro eu adorei suas obras vou usalas para meu trabalho de escola se num for encomado

  15. Daniela, parabéns pela matéria! Gostei muito !

  16. Por meio de um texto fluente, cristalino e inspirador como esse, tomo conhecimento de Belmiro de Almeida com assombro (outrora desconhecido por mim e, creio, por muitos).
    A forte carga acadêmica (que deve ter incomodado os modernistas, como dito no excelente texto) simplesmente não prejudica a qualidade das obras. Um naturalismo impactante pela precisão e pelas impressões que evoca, faz lembrar o hiperrealismo de um Norman Rockwell (este, mais um ilustrador que pintor – opinião de leigo – e de uma geração posterior à do nosso mestre ignoto).
    Precisamos muito mais de matérias assim, de conteúdos de tamanha qualidade, já que os meios de comunicação tradicionais, com raríssimas exceções, só dão vazão ao mau gosto, à grosseria, à baixaria, ao factoide, à farsa, à mentira e ao pior que o ser humano pode produzir como notícia ou como cultura …
    Parabéns à articulista e aos organizadores deste blog cultural que, espero, tenha vida longa e a repercussão que merece!

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