ago 302010
 
Por Mateus Kacowicz

Rio de Janeiro, 1921. Um bonde perde o freio, atropela uma lavadeira e deflagra uma cadeia de acontecimentos que irá repercutir nas altas esferas do poder político e financeiro da República.

Esse Acidente em Matacavallos, que não passaria de mais uma rotineira e remota fatalidade, irá expor as relações invisíveis de uma cidade bucólica apenas na superfície, mas que ferve com os conflitos de imensos interesses políticos, econômicos e familiares

O Rio de Janeiro de 1921 é uma cidade em construção. Renova-se e se enfeita. Prepara-se para os festejos do Centenário da Independência e, sobretudo, para a grande Exposição Internacional que marcará essa data. Mas também é palco de uma sucessão de revoltas civis e militares que culminarão em estado de sítio e na instauração de censura à imprensa.

O Acidente em Matacavallos é pontuado pelos faits divers, a seção dos jornais onde iam parar as notícias aparentemente menos importantes, mas que irão acertar alvos muito definidos e precisos.

É uma época de transição: a elite do Rio, ainda afrancesada em seus maneirismos e vocabulário, testemunha, através das manchetes e dos faits divers a surda guerra entre ingleses, franceses e norte-americanos. Estão em jogo as grandes concessões de serviços públicos e a disputa por matérias-primas cada vez mais estratégicas e cobiçadas pelos grandes de um mundo em transformação.

Essa é também a época em que o Rio é o porto de destino de milhares de imigrantes tangidos pela perseguição e pela fome. Cada um vem fazer a sua América, cada um toma um rumo, imprime sua marca e recebe a marca da nova terra.

Afinal, um banal e desimportante Acidente em Matacavallos vem servir de pano de fundo ao fim de uma falsa inocência.

ACIDENTE EM MATACAVALLOS e outros faits divers
Mateus Kacowicz
Editora Record
1ª Edição – 2010, 320 páginas
ISBN: 8501088749

Veja aqui a entrevista com o autor na Globo News, falando sobre o livro:

1ª Parte

2ª Parte

3ª Parte

E aqui, um trecho do 1º Capítulo:

Acidente em Matacavallos

e outros faits divers

Capítulo 1

“Quasi dávamos á estampa a presente edição quando fomos informados de que mais uma família foi enluctada por um bonde n’esta cidade. D’esta feita o infausto se deu a Matacavallos. A portugueza Maria Couceiro, lavadeira, cuja edade nos é desconhecida, foi colhida pelo carro-motor Nº 8, conduzido pelo nacional Clemente Euphrasio. O collectivo ia no trajecto que demanda de Paula Mattos ao Passeio e não reduziu sua furiosa marcha na descida da ladeira, vindo a colher a desditosa e provocar o infortunio. Atropellada pela poderosa machina, a infeliz veio a fallecer no proprio local. Era ella moradora em uma cabeça-de-porco das redondezas e foi reconhecida por visinhos. Até o encerramento da presente edição não havia qualquer parente a reclamal-a no necroterio da Santa Casa.

“É a quarta vez este anno que um tramcar da Rio de Janeiro Electric Street Railway Company provoca accidente assemelhado, sendo a segunda com desenlace fatal. Nosso reporter procurou o escriptorio da empresa de carris, mas foi summariamente despachado da porta.

“E nós, indignados cidadãos, perguntamos: Até quando estes estrangeiros que nos exploram com preços escorchantes e pessimos serviços estarão matando e mutilando impunemente nossos compatricios?”

Sobre a mesa da diretoria da Rio de Janeiro Electric Street Railway Company a Folha da Capital estava aberta na página dos faits divers. A notícia do atropelamento estava circundada a lápis vermelho, com destaque ainda maior para a peroração do último parágrafo, sublinhada linha por linha. Outros jornais também lá estavam. Nem todos traziam essa notícia e, dos que a publicavam, nenhum deu o tom grandiloqüente da Folha da Capital.

O próprio Mr. Reginald Phineas Gross, diretor-geral da Electric, não sofria qualquer abalo com esses acidentes. Sequer com a repercussão por eles causada. Era o preço a pagar pela introdução do progresso em uma cidade que contrastava sua Avenida Central faceira e cosmopolita, amplos bairros litorâneos cheirando a tinta fresca, com as ruelas tortuosas da suja vila colonial que o Rio de Janeiro ainda era. De mais a mais, Mr. Gross já estava de data marcada para retornar a Londres, dali para a sua fazenda no Kenya e, finalmente, mandar tudo isso aqui à merda.

O que realmente irritava Mr. Gross era a insistência, especialmente da Folha da Capital, do seu amigo Diógenes Braga, em dar um tom escandaloso e político ao que ele concebia como uma inexorável e rotineira fatalidade. E, homessa!, de que valiam os vinte contos de réis que aplicava mensalmente em reclames desnecessários naquele jornaleco? Não seria o suficiente para angariar-lhe as devidas simpatias? Pelo visto era pouco. Os reclames não valiam de nada. A Folha da Capital nunca deixava de publicar as notícias desagradáveis associadas à Electric, apenas agora resolvia subir o tom.

No calor do instante Gross tomou a decisão que lhe pareceu a mais acertada. Em lugar de pagar para ser atacado, resolveu suspender os anúncios diários das tabelas de horários dos bondes na Folha da Capital e empregar os vinte contos mensais em coisa mais útil.

“Vamos ver o que vai achar aquele cretino”, pensou em inglês Mr. Gross, enquanto chamava o escriturário para ditar a carta na qual explicava a Diógenes Braga que, em virtude da contenção de despesas determinada pelo Board, em Londres, suspendia os anúncios a partir da presente data. “O que de pior pode fazer o Diógenes?”, pensava ele com o hemisfério esquerdo, ao mesmo tempo em que com o direito caprichava no estilo da carta.

A Folha da Capital de 4 de janeiro de 1921 trazia também outras notas interessantes, como a viagem do Dr. Epitácio Pessoa a Petrópolis, para retomar, com a excelentíssima família, sua vilegiatura de verão: a coluna Movimento do Porto dava conta da chegada para o dia seguinte, entre outros, do Jamaika, da Hamburg Süd, magnífico paquete misto de passageiros e carga.

O estafeta, orgulhoso e suado em seu terno de casimira azul marinho, o mesmo uniforme que cozinhava condutores e motorneiros dos bondes, entregou a carta da Electric na tarde daquele mesmo dia. Diógenes a leu apenas para confirmar sua previsão. “Ótimo. Temos uma guerra!”

— Ó Pereirinha! Onde está o Pereirinha? – Gritou ele para uma redação quase vazia. Pergunta que era apenas uma formalidade, pois, pela hora, umas quatro da tarde, Pereirinha somente poderia estar no salão de sinuca ao lado do jornal, à Rua Senador Euzébio No. 12, bairro da Praça Onze.

Como resposta à pergunta, um amanuense saiu apressado para buscar Pereirinha, personagem que não poderia ter outro nome: miúdo, franzino, cultor de um fino bigode aplastrado a Pommade Hongroise, cabelos fartos, acamados para trás à custa de muita brilhantina, pérola, provavelmente falsa, na gravata, abotoaduras de um ouro igualmente duvidoso, colete em chamalote preto, e manchas coloridas nas mãos: azul nos dedos da mão direita, pintados pelo giz do taco; amarela entre o indicador e o médio da esquerda, pintados pela fumaça dos cigarros Adonis Grossos.

Pereirinha era o melhor. Era a garantia de que Diógenes Braga teria um jornal vibrante no dia seguinte. Os meninos nas ruas teriam uma forte e atraente história para gritar aos analfabetos e para vender aos alfabetizados apinhados nos pontos dos bondes e nas estações dos trens e barcas.

— Pereirinha, o caso do bonde lá em Matacavallos: ele agora é teu! Quero que vás ao necrotério, quero que vás à vizinhança, descubras a família da tal portuguesa. Este assunto vai ficar importante. Já mandei levantar no arquivo os outros casos de atropelamento da Electric. Amanhã vamos sair com um editorial de guerra. Depois de amanhã damos o material que tu apurares. Isso tem que render pelo menos mais uns três dias. Pelo menos!

Diógenes passou então a caligrafar seu editorial, uma diatribe contra os estrangeiros em geral, afunilando sobre a pérfida Albion, o banco Rothschild, The Rio de Janeiro Electric Street Railway Company e, muito especificamente, sobre Mr. Gross. Nesta ordem.

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  2 Comentários para “Romance: Acidente em Matacavallos”

Comentários (2)
  1. Boa dica. Acho que vi esse “Espaço Aberto Literatura” da GloboNews. O próprio Edney Silvestre, grande leitor e jornalista honesto, lançou um romance, já premiado, que talvez mereça um comentário no blog.

  2. Fatos que se embricam , contados num rítmo de cinema, câmera ora perto, ora longe, e sem notas explicativas. Vamos, sem nos dar conta, descobrindo e reconhecendo a nossa alma e a nossa história.

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