ago 152010
 
Por Sérgio Mayr

Virtude em excesso pode equivaler a falta de virtude, ou vício? Sim, é a conclusão a que se chega lendo o excelente romance histórico de Anatole France.
Évariste Gamelin é o nome do personagem principal, adepto da Revolução Francesa com dedicação exemplar: as figuras históricas (Robespierre, Marat – “o amigo do povo”, Danton, Saint-Just, Couthon, Desmoulins, etc.) que são citadas ao longo da obra representam o pináculo da virtude sobre a face da terra, principalmente Maximilien Robespierre, o “Incorruptível”, cujo pensamento era a pedra de toque dos chamados sans-culottes (revolucionários mais exacerbados), e que, em uma passagem tocante, perto do desfecho, é flagrado pelo admirador em um passeio solitário nos jardins de Marbeuf acompanhado de um grande cão, com o semblante muito triste, como se antevisse a conspiração final que faria rolar sua cabeça. Gamelin, pintor, conseguiu, pelo favor de uma pessoa com contatos importantes, integrar o júri do Tribunal Revolucionário, tendo assim a possibilidade de decidir a sorte de muitos que acabariam no cadafalso de forma acentuadamente burocrática: um espectador ativo e privilegiado daqueles dias. O senso aguçado de justiça de Gamelin não o impede de empreender, em certo momento, uma espécie de vingança pessoal, ainda que à míngua de provas.

A guilhotina é um vulto funesto que permeia toda a narrativa e ostenta uma frenética produtividade. O pano de fundo histórico nos permite vislumbrar a sucessão de conspirações e prisões que envolviam as várias facções integrantes da Convenção na época do chamado “Terror”: girondinos e jacobinos; os “da planície” e os “montanheses”; os indulgentes e os “raivosos”; igualmente tinham encontro com a lâmina vertical. Além disso, várias revoltas de matiz contrarrevolucionário em território francês durante a consolidação da Revolução são mencionadas, notadamente a Rebelião da Vendéia (1793-1796).

O personagem mais interessante chama-se Maurice Brotteaux des Ilettes, um velho e desiludido ex-coletor de impostos que passa o tempo manufaturando marionetes em um sótão (uma espécie da alter-ego do autor). Suas tiradas filosóficas, impregnadas de ironia, com distância crítica sobre o paradoxal desenlace dos acontecimentos daquele período conturbado, são o ponto alto do romance.

Anatole France trabalhando.

O escritor nunca fora conservador, sendo até esquerdista segundo informa o prefaciador da edição brasileira em tela e tendo apoiado o colega Émile Zola no manifesto concernente ao famoso caso Dreyfus na França (um caso de injustiça emblemático concernente a antissemitismo), mas nesse livro formidável fez uma crítica contundente, no tom certo, do grupo revolucionário que naqueles dias pretendia ser o repositório das virtudes humanas, com muito sangue on the side. Um comentário mordaz contra todo tipo de radicalismo, independentemente de ideologia, sob cuja égide a falta de bom senso (e de justiça) sempre atinge o paroxismo.
No final, depois de uma sucessão desenfreada de decapitações que culminara na ida ao cadafalso dos mais empedernidos virtuosos, incluído o “Incorruptível”, tomou as rédeas da revolução um grupo bem menos virtuoso, ironicamente, e o protagonista da história se transforma em um órfão de ídolos e ideias já rejeitadas por uma nova ordem, mais pragmática. Não se pode ir mais além sem prejudicar o prazer das surpresas que todo leitor de gosto refinado merece desfrutar.

Os deuses têm sede de sangue. Os homens são as marionetes nesse jogo.

Romance: Os Deuses têm Sede  (“Les Dieux ont Soif”)
Autor: Anatole France (1844/1924), Prêmio Nobel de Literatura em 1921
Ano: 1912
Páginas: 256
Ano de publicação: 2007
Tradução: Editora Boitempo Editorial/2007
ISBN: 978-85-7559-011-9

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  13 Comentários para “Romance: Os Deuses têm Sede”

Comentários (13)
  1. “A vida de Henry Brulard” está publicado em português pela Editorial Inova Limitada em 1971. Tradução de Luisa Neto Jorge e António Ramos Rosa.

  2. Livro raro esse! parabéns, Hélio, por possuir essa raridade.
    Henri Beyle, Henri-Marie Beyle ou Marie-Henri Beyle … todos esses nomes já ouvi e não sei qual o correto. Só sei que dá pra entender o pseudônimo Stendhal para alguém do sexo masculino chamado Marie-Henri …

    • Eu te empresto. Apesar do imgles, vale pelos desenhos.

      • Obrigado pela oferta, Helio … ainda mais se tratando de um livro raro … eu, pelo menos, sou meio reticente quanto ao empréstimo de livros … admiro seu desprendimento … se for o caso, no rodapé da “home page” do “site” há uma área chamada “contato”, é só enviar seus dados para o endereço eletrônico que lá consta …

  3. Não existe nenhum livro com o título “A Vida de Henri Beyle”. Acho que há uma confusão quanto ao título.
    No site francês “alapage.com” há uma obra de Henri Beyle, vulgo Stendhal, chamada “Vie de Henry Brulard”, uma biografia, em catálogo.
    Sem nenhum registro nas livrarias virtuais aqui no país, há referência no site “estantevirtual”, que congrega vários sebos, a apenas três exemplares, usados, em espanhol, dessa obra.
    Fora de catálogo também nos EUA: na “amazon.com” há referência a seis exemplares usados da obra, somente.

    • Mas, se trata mesmo de uma autobiografia disfarçada de Henri Beyle/Stendhal …

    • Mayr tem toda razão. Achei o livro: “The Life of Henry Brulard”, tradução de Jean Stewart e BCJGK Knight, editora Nooday Press, Inc, NY, de 1958. Confundi porque leio aqui que seu verdadeiro nome é Marie-Henri Beyle, O livro foi escrito em 4 meses quando trabalhava na Itália. Diz o prefácio que Stendahal ficou em dúvida entre usar Henri ou Henry e Henri Martineau, durante essa versão ainda vivo, preferiu escolher Henry.

  4. Algo que esqueci de informar na resenha (na verdade não uma resenha como tecnicamente deve ser, mas só um comentário de um amante da literatura):

    Era o seguinte o calendário revolucionário francês ou republicano, vigente somente de 22 de setembro de 1792 a 31 de dezembro de 1805, data em que Napoleão Bonaparte ordenou o restabelecimento do Calendário Gregoriano (também foi aplicado durante a Comuna de Paris, de 26 de março a 28 de maio de 1871).

    O famoso 18 de Brumário ou 18 Brumário corresponde, pelo calendário revolucionário, à data do golpe de estado que iniciou a ditadura napoleônica na França (9 de novembro de 1799).

    * No outono:
    o Vindimiário (vendémiaire): 22 de setembro a 21 de outubro
    o Brumário (brumaire): 22 de outubro a 20 de novembro
    o Frimário (frimaire): 21 de novembro a 20 de dezembro
    * No inverno:
    o Nivoso (nivôse): 21 de dezembro a 19 de janeiro
    o Pluvioso (pluviôse): 20 de janeiro a 18 de fevereiro
    o Ventoso (ventôse): 19 de fevereiro a 20 de março
    * Na primavera:
    o Germinal: 21 de março a 19 de abril
    o Florial (floréal): 20 de abril a 19 de maio
    o Pradial (prairial): 20 de maio a 18 de junho
    * No verão:
    o Messidor: 19 de junho a 18 de julho
    o Termidor (thermidor): 19 de julho a 17 de agosto
    o Fructidor: 18 de agosto a 20 de setembro.

  5. Vou ler. Ótima crítica, ótima lembrança. Só entender o caso Dreyfus é uma glória. Incrível a atualidade de alguns autores que viveram épocas importantes da história. Li a autobiografia “A vida de Henri Beyle” (pseudônimo Stendhal) primorosa na descrição crítica dos tempos da Revolução Francesa, passando pelo Terror e pela ascenção e queda de Napoleão. Até a linguagem enxuta é de hoje.

    • Pois é, Henri-Marie Beyle (Stendhal), grande conhecedor da era napoleônica, criou um romance portentoso (uma obra prima, um romance de formação: “bildungsroman”) que merece algum post futuro neste site: “O Vermelho e o Negro” …

    • Boa dica essa de “A vida de Henri Beyle” … creio que, talvez, esteja fora de catálogo.

  6. Bela crítica, aguardamos outras desse resenhista.

  7. Muito bom o resumo!
    Parabéns ao autor.

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