set 102010
 
Por Sérgio Mayr

Diretor: Christpher Nolan

Ano: 2010

Elenco: Leonardo DiCaprio, Marion Cotillard, Joseph Gordon-Levitt, Ken Watanabe, Ellen Page, Cillian Murphy, Tom Hardy, Tom Berenger, Michael Caine Pete Postlethwaite.

Depois de “Amnésia”(Memento), “Insônia”(Insomnia) e o perturbador “O Cavaleiro das Trevas”(The Dark Knight), os melhores filmes desse grande e inovador cineasta, Christopher Nolan nos brinda com uma obra de complexidade e imaginação: “A Origem”, um trabalho significativamente autoral (direção e roteiro). Não considero o primeiro exemplar da nova série Batman, “Batman Begins”, nem “O Grande Truque/The Prestige” filmes tão bons quanto os demais.

O título em português foi muito criticado em algumas resenhas, mas a palavra “inception” significa começo, princípio, encetamento (não muito distante do vocábulo origem). “Inception” não significa, absolutamente, inserção (objetivo da missão focalizada no filme). Em uma passagem do filme, Cobb, o personagem do magnífico Leonardo DiCaprio, diz que jamais lembramos do início de um sonho, mas apenas nos damos conta de que se trata de um sonho quando este já se desenrola plenamente: em nossa mente, quando despertamos, apenas remanesce, via de regra, a fase final do sonho.

Tudo é deveras deslumbrante: a trama engenhosa, a concepção visual arrojada (principalmente do último nível de sonhos, com uma arquitetura inteiramente assombrosa), além da trilha sonora soturna de Hans Zimmer, perfeita para sublinhar o clima melancólico e de urgência que impregna as cenas, cujo tom é dado pelo estado de espírito do protagonista e que extravasa nos 24 quadros por segundo (frequentemente a esposa e os dois filhos visitam os sonhos de Cobb, como uma interferência misteriosa, associada a um sentimento de perda e de culpa que apenas compreendemos por inteiro do meio para o final desse espetáculo cinematográfico e sobre isso talvez seja melhor silenciar para que o espectador ainda em atraso com o dever de cinéfilo não seja prejudicado na fruição ideal da obra).

DiCaprio, intenso, fantástico, em um papel que remete impreterivelmente a “Ilha do Medo”, de Scorsese, lidera uma equipe especializada na obtenção sorrateira de informações importantes durante o sono das vítimas, ou mais exatamente, durante os sonhos: um grupo de “extratores”.

Trata-se de uma obra de ficção científica, cuja ação se desenrola em uma época não definida, no futuro. A técnica de “extração” é levada a efeito mediante a utilização de uma máquina que interliga o inconsciente dos protagonistas da experiência (membros da equipe e a vítima) em um sonho único, “visualizado” igualmente por todos. Um objeto (totem) é empregado para que cada um possa saber se o sonho é próprio ou alheio. Um sonífero potente (calibrado segundo os níveis de sonho a ser alcançados), preparado pelo químico do grupo, é aplicado em todos (no caso da vítima, à revelia, ou melhor, inadvertidamente, é claro). Um arquiteto (designer) também é necessário para a elaboração ou composição dos cenários oníricos. Outro membro (Tom Hardy) é um falsário, personificador, que não emprega máscaras, mas mimetiza a aparência de alvos humanos quando imprescindível ao mise-en-scène onírico (é impossível não lembrar dos papéis de Martin Landau e Leonard Nimoy na saudosa série televisiva “Missão Impossível”, dos anos 60/70.).

Há os níveis ou camadas de sonhos, e a senha para que seja dado o “salto” ou a volta para um nível anterior é um trecho da canção “Je ne Regrette Rien”, com Edith Piaf (curiosamente, a atriz Marion Cotillard, belíssima, atua no filme como a misteriosa e paradoxal Mal, tendo sido agraciada com o Oscar de melhor atriz pelo papel justamente de Edith Piaf).

O infalível Michael Caine (uma espécie de mascote do diretor) está presente, além de Tom Berenger, como o advogado da família da vítima, o canastrão de sempre.

No começo do filme, o empresário Saito (interpretado por Ken Watanabe) é a primeira vítima de uma “extração”, mas o golpe não dá certo por incompetência do arquiteto. Malgrado isso, Saito resolve contratar Cobb (DiCaprio) e seu parceiro (Joseph Gordon-Levitt, de “500 Dias com Ela”) para uma missão diferente: a introdução de uma ideia, durante um sonho, na mente do herdeiro (Cillian Murphy) de uma corporação empresarial para que a organização de Saito seja beneficiada (estando em jogo, também, uma espécie de redenção pessoal para Cobb). A maior parte do filme focaliza essa missão, para a qual Cobb monta uma equipe especial, com uma nova arquiteta (Ellen Page, de “Juno”), o químico e o personificador já citados. Quanto a isso, uma frase de Cobb é interessante, mais ou menos assim: “o mais perigoso não é a contaminação por um vírus ou bactéria, mas a inserção de um ideia na mente de uma pessoa”. Com efeito, sabemos como é uma pessoa com ideia fixa!

Comumente, os sonhos que experimentamos são muito fluidos, imprevisíveis, com a modificação sem lógica do cenário e dos personagens. Mas, no filme, as cenas dos sonhos são mais lineares, exceto por alguns detalhes surrealistas como a passagem inesperada de um trem em plena rua. Também, em um sonho preparatório para a missão, há cenas impressionantes em Paris, típicas de sonho, como a fragmentação do cenário próximo e a alteração da geometria da cidade. O tiroteio pesado que acontece na execução da missão, algo imprevisto no plano desta e resultante de características peculiares da mente da vítima, sem que praticamente ninguém fique ferido, só é aceitável porque ocorre no âmbito de sonhos (afinal, nos sonhos tudo é possível; exceto a morte da pessoa, na hipótese dos sonhos quimicamente induzidos do filme, caso contrário, esta não pode dar o salto de volta à realidade, ou seja, permanece em uma espécie de limbo de inconsciência). A concatenação dos acontecimentos dentro de cada nível de sonho (a queda do furgão de uma ponte no primeiro nível, em câmera lenta, implica a falta de gravidade no nível seguinte, por exemplo) é muito interessante.

Há referências à invulgar obra do instigante artista gráfico holandês M.C.Escher (Maurits Cornelis Escher – 1898/1972), como a escadaria na qual se sobe ao mesmo tempo em que se desce (a gravura “Ascending and Descending”, de 1960): o paradoxo de Penrose (Roger Penrose, físico e matemático britânico que o assessorou em topologia em algumas obras).

As cenas inicial e final, com Saito extremamente envelhecido fazendo uma refeição sentado a uma mesa, primeiro mostrado de costas e depois de frente, em um nível mais interior de sonho, remetem ao maravilhoso “2001: Uma Odisseia no Espaço”, a magnum opus do grande e insubstituível artífice da arte cinematográfica Stanley Kubrick – algo que não li em nenhum comentário sobre “A Origem”. Da mesma forma que, pela teoria da relatividade de Einstein, o tempo passa mais rápido para aquele em posição estacionária do que para aquele em velocidade próxima à da luz, a cada nível mais profundo de sonho o envelhecimento é mais acentuado em comparação com o nível imediatamente anterior e, em maior proporção, com a realidade.

DiCaprio, ao final, de volta à consciência no avião, palco da empreitada clandestina,  consegue nos transmitir perfeitamente a sensação de assombro do personagem … mas, seria ainda sonho ou a realidade mesmo ?

A vida inteligente de volta ao cinema, como já pontificaram com propriedade alguns críticos, na contramão das eternas novas versões de sucessos antigos, continuações e adaptações de histórias de super-herois (bem, o Batman do próprio Nolan é um caso à parte). Possibilidades no Oscar/2011 ? Por que não ? Desde já, um filme candidato a cult movie, como ocorreu com “Blade Runner”, de Ridley Scott, em 1982.

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  7 Comentários para “Filme: A Origem (Inception)”

Comentários (7)
  1. Filme, no mínimo, inttriante e instigante. Para mim, o melhor do ano.Só uma pequena obervação: o nome da personagem Ariadne pode ser uma alusão a princesa Ariadne da mitologia, filha do Rei Minos, que auxilia o herói Teseu a sair do labirinto, dando-lhe o novelo de linha.

  2. “mise-en-scène” é um substantivo feminino e, portanto, que me desculpem os eventuais leitores do comentário sobre o filme: leia-se, certa passagem, então, como “à mise-en-scène onírica” …

  3. Diz-se que este é um marco do cinema-roteiro. Porém também dizem que há um excesso de cenas de ação e violência. Depois de tudo tão bem dito por Mayr, não dá para não ver. Será minha prioridade.

  4. Claro que a vida inteligente sempre esteve presente nos filmes do chamado “circuito de arte” … me refiro, no comentário sobre o filme, sobre a volta da vida inteligente ao circuito comercial (nos anos 70 isso era mais a regra do que a exceção) …

    E, pra dizer a verdade, “Inception” é desde já um “cult movie” e não um candidato a tal.

    Uma simples leitura apressada não dá conta da complexidade do filme. Muitos detalhes passam à margem da percepção. Um filme que não subestima a capacidade intelectual do espectador (o que não é a regra hoje em dia), ou seja, não se ocupa de explicar cada cena para os frequentadores de cinema intelectualmente mais preguiçosos (exceto por alguns flash-backs minimamente necessários). Pelo menos, uma segunda ida ao cinema é necessária: o que pretendo fazer.

    • Porém, de vez em quando é bom ver um filme escapista, de puro entretenimento, sem ter que pensar muito (comédia ou drama românticos, aventura, ação, suspense, etc.) …

      • O filme argentino O segredo dos seus olhos é comédia, é drama, é romântico, é suspense, é inteligente, é comercial e trata de pelo menos dez assuntos que nos dão o que pensar. Não faz parte do “circuito de arte”. Certamente Mayr ao falar em filme escapista não se referia a filmes como esse.

        • Realmente, há o “filme de arte”, propriamente dito (às vezes, muito chato) e os entretenimentos mais ou menos caprichados: mas tudo, em última análise, é entretenimento e arte!

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