set 222010
 
Por Sérgio Mayr
Romance: OS MOEDEIROS FALSOS (Les Faux-Monnayeurs)
Autor: André Gide
Ano: 1925
Tradução: Mário Laranjeira
Ed. Estação Liberdade/2009

André Gide (1869/1951), eminente escritor francês, fundador da célebre Editora Gallimard e ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1947, ausente do mercado editorial pátrio por mais de um par de décadas, na obra em comentário, faz uso de um recurso modernista, metalinguístico por excelência, que é a “mise-en-abyme” (ideia introduzida pelo autor; o termo, em si, teria sido cunhado posteriormente), ou seja, a narrativa dentro da narrativa (narrativas encaixadas), à semelhança das bonecas russas.

De fatura elegante, envolvente, engenhosa, o romance, modernista na estrutura inovadora (mas, sem as frases labirínticas e digressivas de um Marcel Proust, na tortuosa busca do tempo perdido, que exigem maior esforço e persistência), a certa altura, se aproxima do folhetinesco (sem descambar na rudimentariedade desse gênero) e tem elementos do romance policial, o que prende plenamente a atenção do leitor. O escritor revela completo domínio sobre as técnicas de ficção. Um autor clássico modernista (uma contradição em termos).

O romance acompanha, como personagens principais, o escritor Édouard, seu sobrinho Olivier Molinier, e o amigo deste, Bernard Profitendieu. Quanto ao desenvolvimento pessoal e intelectual dos dois jovens (o último fugira de casa por descobrir a condição de filho ilegítimo de um magistrado), a obra pode ser encarada como um romance de formação, o chamado “bildungsroman”, além das múltiplas facetas que podem ser divisadas, como a de romance epistolar.

Édouard é o romancista, dentro do romance, que planeja elaborar sua obra-prima, homônima do livro em exame, e organiza um diário, com as ideias, as dúvidas, os esboços de personagens (no início, meio que sem rumo, aparentemente: uma obra em construção, a partir da página em branco), cujas partes são interpostas à trama do romance principal. Um intelectual, ético, muito virtuoso; conselheiro, até, de alguns. Um farol de virtudes e de cultura para os jovens citados: Olivier e Bernard; em contraste com a falta de virtudes de outro escritor, rival de Édouard: o conde Robert de Passavant, um homem mesquinho, manipulador, inescrupuloso e romancista sem talento, e que procura influenciar negativamente Olivier (embora muito jovem, este é convidado para ser redator-chefe de uma revista literária) que, depois de um entrevero em uma festa, tenta o suicídio por conta de conflitos interiores (o próprio Gide, homossexual declarado, sofrera conflitos dessa natureza) decorrentes do convívio com o conde.

Em uma bela passagem do livro em que Édouard e o pupilo, Bernard, debatem acerca da preponderância das idéias sobre os homens, há o seguinte diálogo: “(…) Naturalmente pode-se dizer que só as conhecemos [as idéias] pelos homens, assim como só temos conhecimento do vento pelos caniços que ele inclina; mas mesmo assim o vento importa mais do que os caniços”. Em outro ponto, sobre a literatura: “Não se descobre terra nova sem consentir em perder de vista, primeiro e por muito tempo, toda terra firme. Mas nossos escritores têm medo do mar aberto; são apenas navegadores de cabotagem”.

Mais adiante, o romance enquadra um grupo de jovens que estuda no internato protestante – a pensão Vedel-Azaïs -, onde dá aulas de piano o velho La Pérouse (mais tarde se tornaria apenas vigilante da escola), sempre às turras com a esposa e que trava ótimos diálogos com Édouard.

Quando a trama parece perder um pouco do ritmo inicial, nos é apresentada a gangue de jovens estudantes (da qual fazem parte Georges, o irmão caçula de Olivier, e, Boris, o inseguro neto do velho La Pérouse) que dá curso a moedas falsas em Paris, um golpe concebido por um dos jovens do internato, o astuto Victor Strouvilhou (que, após o incidente com Olivier, ficaria com o cargo de redator-chefe da revista do conde de Passavant), e investigado pelo juiz de instrução Profitendieu, pai de Bernard. E, então, ocorre o evento trágico que encerra a narrativa, durante um rito de passagem da gangue (“a confraria dos homens fortes”) para demonstração de coragem, idealizado pelo líder do grupo juvenil, um jovem escroque chamado Ghéridanisol. O golpe das moedas e o acontecimento sinistro no qual culmina a narrativa foram inspirados em fatos reais veiculados em jornais (“fait-divers” de 1906 e 1909), conforme informado em “Diário dos Moedeiros Falsos”, livro também lançado pela Editora Estação Liberdade em 2009, no mesmo pacote, além de “O Pombo-Torcaz” e “Os Porões do Vaticano”.

Gide, anticlerical, na obra como um todo e nesta em especial procura vergastar o preconceito, as convenções morais, os dogmas e o chamado “darwinismo social” (a brutalização dos mais fracos na sociedade).

Por fim, cumpre parabenizar a Estação Liberdade pelos lançamentos e sugerir traduções de outras obras do autor como “Les Nourritures Terrestres”, “L’Immoraliste”, “La Symphonie Pastorale”, considerada a obra-prima, e “Si Le Grain Ne Meurt”.

Artigos relacionados:

 Escreva um comentário

(requerido)

(requerido)

Você pode usar estas HTML tags e atributos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>