out 052010
 
Por Luigi Rotelli

Como os olhos passeiam pela imagem, por onde eles entram? Descobrir os segredos de seu olhar pode ser revelador para entender como compor uma imagem.  A ilustração abaixo poderá nos revelar alguns. Olhe detidamente para ela:

Marketplace of ideas - Ilustração de James Gurney

Há uma teoria bastante difundida que diz que os olhos entram em uma foto no mesmo sentido da leitura, ou seja, da esquerda para a direita e de cima para baixo, no caso da escrita ocidental. Segundo essa acepção, as linhas de composição de uma foto deveriam seguir este trajeto. Uma das conseqüências práticas dessa teoria seria que um fotógrafo oriental não faria muito sucesso no ocidente e vice versa, já que o sentido da leitura é o inverso na maioria das escritas orientais.

Outra diz que os olhos seguem as linhas de contornos. Há quem diga que entram no centro da foto e depois fazem uma espiral em direção às bordas. E há aqueles que dizem que os olhos são atraídos pelos elementos colocados nos pontos áureos (que vou explicar detidamente em uma aula específica).

Em todas essas teorias, há uma idéia subjacente de que o artista pode controlar a maneira como as pessoas percebem a foto, traçar o caminho do olhar na ordem que ele previu. Será possível isso?

Há uma maneira científica de saber. Anos atrás inventaram um aparelhinho que segue a trajetória dos olhos de um leitor/observador. O rastreamento dos olhos (eye tracking), tem o objetivo fornecer dados reais para publicitários, revistas, jornais e diagramadores de páginas de internet moldarem o design de acordo com os resultados apurados. Onde posicionar a propaganda em uma página, o tamanho das imagens em um artigo de jornal, o tamanho das fontes de texto.

Voluntários são posicionados em frente a uma tela de computador com esse rastreador. A eles são fornecidas páginas de internet simuladas, nunca antes vistas, durante alguns segundos. O aparelho segue a trajetória dos olhos, marca o tempo de duração quando os olhos se fixam em alguns pontos e desenha depois um mapa da trajetória (scan path).

Um ilustrador americano, James Gurney, do blog Gurney Journey, resolveu então usar esse aparelho mostrando suas ilustrações para voluntários, para entender de que maneira a composição afeta a percepção das pessoas. Os resultados foram interessantes e surpreendentes. Este é um mapa de rastreamento dos olhos de um voluntário:

O ponto verde marca o lugar onde os olhos entraram, jogando por terra, de cara, a teoria de que os olhos entram no canto superior esquerdo, como em uma página de texto.

A segunda conclusão é que enquanto a leitura de um texto é seqüencial, na imagem ela é randômica. Os olhos saltam entre pontos de interesse, ou seja, não seguem os contornos. As linhas mostram saltos que acontecem entre 3 a 5 vezes por segundo alternados por breves períodos de fixação, marcados pelos círculos.

Durante os primeiros segundos eles observaram que os olhos dão grandes saltos pela imagem em busca de contexto: a pessoa que está vendo busca entender a estrutura básica, os elementos que compõe a imagem. Depois, os olhos fazem movimentos curtos, pequenos saltos em busca de detalhes e são atraídos especialmente por detalhes humanos: eles buscaram cada pessoa na foto.

Isso assinala algo interessante a ser levado em conta: a presença humana atrai muito mais interesse do que elementos abstratos.

Este é o mapa de um outro voluntário. Em volta de cada círculo, as áreas mais claras marcam a visão periférica.

O mapa mostra um resultado diferente do anterior, demonstrando que cada pessoa reage de maneira diferente. Os dois entraram praticamente pelo mesmo lugar (ponto verde próximo à coluna situada na linha do terço). Mas seguiram trajetórias diferentes. Em comum, o interesse pelas figuras humanas.

Isso joga por terra também a idéia de que é possível conduzir a pessoa pela composição, de controlar a ordem e a maneira como as pessoas vão olhar a foto. Cada indivíduo reage de acordo com suas motivações, suas emoções e centros de interesses. Aqueles que se interessam por arquitetura podem olhar mais detalhes das construções. Quem não tem esse interesse, passa batido por esses detalhes.

O resto que não está marcado – o chão e o céu – são locais que não despertaram nenhum interesse; basicamente, como veremos na próxima aula, porque são elementos conhecidos, não carregam nada de novo ou interessante. Isso pode ser um indicativo importante na hora de escolher o quanto de céu colocamos em uma foto de paisagem, por exemplo.

Por outro lado, alguns elementos desprovidos de qualquer atrativo podem fazer parte da composição justamente por essa qualidade: não estão ali para chamar atenção mas para que toda a atenção fique focada em algo ou alguém, ou ainda apenas para trazer harmonia e beleza na foto. E veremos mais adiante que isso será muito importante na hora de definir onde começa e onde termina o foco: uma escolha fundamental para eliminar da composição áreas que não tem nenhum interesse e ao mesmo tempo nada agregariam em beleza ou harmonia, deixando-as fora de foco.

Acompanhe nesse vídeo que reconstrói a seqüência de saltos de um único teste em duração aproximada, embora – o autor chama a atenção – o vídeo não represente com precisão a duração relativa de cada fixação.

Mas os resultados ficam realmente interessantes quando se juntam os dados de rastreamento dos olhos de todo o grupo de teste em um só mapa, que representa os centros de interesse como zonas de calor. Para criar a imagem abaixo, eles compilaram os registros de 16 pessoas. O vermelho e o laranja mostram onde 80 a 100% das pessoas olharam. As áreas azuis onde quase ninguém olhou e as escuras onde ninguém olhou durante os 16 segundos em que cada voluntário examinou a foto.

Observa-se que o céu, o chão e as colunas verticais, mesmo a que foi propositalmente colocada no ponto áureo, não despertaram quase nenhum interesse. Houve um certo interesse no castelo ao fundo e na placa, em cima, à direita, mas a concentração maior está indiscutivelmente nas figuras humanas. Parece que nós temos uma tendência natural em olhar as pessoas e tentar entender a situação, o contexto que elas se encontram. E olha que nessa ilustração não há faces claramente delineadas. Conforme veremos, a face humana atrai mas atenção do que qualquer outra coisa e até mesmo a face de um animal tem forte poder de atração sobre nosso olhar.

Havendo ou não figuras humanas envolvidas no contexto, há ainda várias outras teorias sobre os pontos de atração. Eu apostaria que os olhos são também especialmente atraídos pelas áreas mais brilhantes, ou muito coloridas ou com forte contraste e nitidez detalhada. Será verdade? E será que há diferença na maneira como homens e mulheres olham uma foto?

Os resultados vocês verão na próxima aula.

Cadastre seu email para receber notícias das próximas aulas:

 

Artigos relacionados:

  16 Comentários para “Curso de Fotografia: Aula 1 – Seguindo a trajetória do olhar”

Comentários (14) Pingbacks (2)
  1. Este tipo de informação ajuda tanto em fotos trabalhadas,digo onde o fotografo pode ate mesmo plantar um tripé, e tambem onde em fotos de movimento,lembramos de tais regras e nos ajudam a realizar belissimos trabalhos.

  2. Eu acho isso tudo tão relativo… Não acredito em “fórmulas”, ou padrões. Tudo depende do contexto geral. Depende da foto, de quem a observa e por aí vai.

  3. Parabéns e obrigado,muito interessante…..

  4. Parabéns pelo site e pelo conteúdo de altíssimo nível, vou acompanhar todas as aulas.

  5. Caro Luigi, estou muito contente de ter achado
    as suas aulas na web, especialmente por essa, que
    mostrou dados surpreendentes. Nem sempre concordei
    com essa obrigatoriedade dos pontos de ouro, já vi fotos belíssimas que não seguiam essas regras.
    Obrigado por nos apresentar esse conteúdo revelador.

  6. Amigos, parabéns pelo conteúdo das aulas, é um conhecimento que nunca imaginei; estou muito contente com essa descoberta. Obrigado por disponibilizar este Saber.

  7. Muito boa a aula. Obrigada

  8. Super interessante! Vou continuar lendo as aulas. Obrigada por compartilhar!

  9. Excelente aula

  10. Gostei demais.

  11. Gostei da forma como você iniciou seu curso de fotografia. Essa matéria sobre o “centro de interesse” que uma imagem pode proporcionar ao observador é realmente importante. Fiquei curioso sobre como esse gráfico se comportaria se o experimento fosse feito em países com etnias diferentes mas com o mesmo conteúdo de análise. Será que um habitante que vive em cidades geladas e outro sob forte pressão religiosa/social ou no oriente médio, teria o mesmo resultado ? Eu penso que sim. Deve ser uma caracteristica humana essa atração por seres da mesma espécie. Provávelmente o diferencial referente aos pontos secundários, ficaria por conta dos preferencias individuais e aí sim, com influência de seu meio social, não ? Grande abraço e parabéns !

  12. Esse estudo talvez explique a atração e preferencia que o fotojornalismo exerce sobre as pessoas em relação as imagens de arquitetura, grafismos e paisagens em geral.
    Realmente a figura humana parece atrair a nossa atenção independente da sua posição na imagem, muito bom o artigo, parabens.

  13. Legal e muito interessante esta introdução.
    qual vai ser a frequencia dos posts.

    Renato

 Escreva um comentário

(requerido)

(requerido)

Você pode usar estas HTML tags e atributos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>