out 062010
 
Por Luigi Rotelli

Todas as noites, antes de dormir, eu conto alguma história que eu invento na hora para meu filho de 5 anos. Este é um momento mágico para ele. O momento de ouvir uma fantasia, de imaginar a história e interagir com ela. A fantasia não está presa no chão. No universo das histórias, nenhuma lei da física se aplica.

Heroi não é apenas mais um filme sobre artes marciais que desafiam a lei da gravidade, é um filme sobre saber ouvir, sobre a habilidade de ouvir histórias com atenção, apreço e imaginação.

Um guerreiro desconhecido derrota os três invencíveis oponentes do Imperador e a ele é permitido chegar a 10 passos do imperador para receber uma vultosa recompensa. Curioso para saber como ele sozinho conseguiu o que um exército inteiro havia tentado e falhado, o Imperador lhe pede para contar como ele havia conseguido derrotá-los. Tem início então a história. O imperador ouve atentamente e, com enorme perspicácia, desconfia do grande guerreiro, baseado nas virtudes que ele reconhecia em seus próprios inimigos. A mesma história é então inteligentemente recontada e prossegue em diferentes versões, na visão de um de outro.

Nesse processo de ouvir o outro, o maniqueísmo dá lugar à inteligência; o preto e o branco, às gradações de cinza e às cores que existem no espectro luminoso. As certezas de ambos os lados sucumbem e dão lugar ao respeito e admiração mútua. Na batalha para unificar as províncias da China antiga e criar uma nação, o bem e o mal se aproximam. A narrativa inicial assinala: em uma guerra há heróis de ambos os lados.

Uma matiz diferente marca cada versão da história: a fotografia é cambiante, a cor modulando-se conforme a história. E não se trata de qualquer fotografia. É um primor, uma obra de arte, como são quase todos os filmes de Zhang Yimou, diretor de Herói. É dele também Lanternas Vermelhas, Caminho para Casa e Clã das Adagas Voadoras, todos filmes imperdíveis. A direção da abertura dos jogos olímpicos de Pequim também foi dele e a música da abertura e a percussão de mil tambores foi de Tan Dun, o mesmo compositor da trilha sonora deste filme. O diretor de fotografia deste filme é o cinematógrafo australiano Christopher Doyle.

O filme começa com tons neutros e saturação normal de cor. Mas como todas as vestimentas e o cenário estão em preto, a fotografia, embora colorida, apóia-se, no início, quase exclusivamente no preto.

Uma coisa interessante neste filme é que Zhang Yimou trabalha as multidões como em uma pintura. São absolutamente fantásticas. Enquanto no início acontecem cenas até em exclusivo preto e branco, quando a primeira história é recontada, porém, cai para uma matiz totalmente distinta, em vermelho.

Olha que resultado excepcional ele alcança.

Repare que os figurinos acompanham cada mudança com variações de vermelho.

Na história seguinte, a gradação de azuis.  Sempre uma composição impecável e uma perspectiva inovadora.

De novo um resultado excepcional com pessoas, algo difícil de se conseguir com a cor azul.

As cenas de batalha são pictóricas. Essa cavalgada, por exemplo, é uma maravilha. Olha que belíssimo efeito da poeira parecendo um fluxo.

O exército de soldados, a gradação de luz na poeira entre a área mais clara e a mais escura da imagem.

A cada história, ao retornar a cena aos dois protagonistas que narram e escutam cada versão – no entre atos – o preto traz o equilíbrio entre as diferente matizes de cores. Repare na composição desta cena.

Um flash back é contado em tons de verde. Olha que cena na cachoeira.

Todas as histórias se passam na imaginação dos dois personagens principais, o guerreiro e o imperador. E algumas vezes, tal qual em um sonho dentro de um sonho, as lutas são imaginárias, não há enfrentamento físico, se passam na imaginação dos oponentes, personagens de uma história contada pelos personagens do filme, que por sua vez é uma história que está sendo contada para a platéia.

Esta cena é de uma suavidade, de uma leveza impressionante. Prestem atenção na música. Desta vez Tan Dun deixou o violoncelo, seu instrumento solo, com o qual havia feito a belíssima trilha sonora de ” O Tigre e o Dragão” e o trocou pelo violino. E quem executa todos os solos de violino é ninguém menos que o grande violinista Ithzak Perlman.

A música de Tan Dun se mescla ao filme de forma interessante. Por vezes ela também é parte da cena , os efeitos sonoros da cena se integram com a música. A chuva que acontece no início do filme, por exemplo, atua como uma percussão de gotas de água acompanhando o instrumento solo. Percebi isso porque já tinha ouvido o “Concerto for Water Percussion and Orchestra” de Tan Dun, um concerto feito com instrumentos de percussão com água.

Ao final, a história se passa em dois tons bem claros, com saturações diferentes, um quase branco…

Outro em quase sépia, com variações…

As multidões de Zhang Yimou em meio às montanhas deserticas são um espetáculo visual.

E as cenas são sempre uma aula de perspectiva original e composição visual.

O filme, financiado pelo governo chinês, foi objeto de crítica política, pois a história parece justificar de certa forma a tirania como um mal necessário. Ou não, como diria o Caetano.

Muita gente simplesmente ignora este filme dizendo que não gosta de filmes de luta marcial e com isso perde um filme inteligente, com um roteiro surpreendente, uma obra prima em cada detalhe. Para ver este filme, parafraseando Alberto Caeiro, é preciso não ter filosofia nenhuma.

O som e os efeitos sonoros deste filme são excepcionais. Você ouve cada gota de chuva, cada pormenor da cena. Adolescentes costumam baixar filmes gratuitamente na internet para ver no computador. Filmes como esse merecem ser comprados e vistos em projetor ou TV de alta qualidade e com um bom som de 6 canais. No computador você não percebe nada disso, a imagem fica cheia de artefatos de compactação, o som é compactado em baixa qualidade, a tela é pequena e as caixinhas de som do computador são ruins. O resultado é a falta de envolvimento e o desperdício de uma obra de arte. É como jogar fora toda a qualidade que foi feita com tanto esmero. E o DVD deste filme eu já vi novo por valor tão baixo como R$12,00, um preço ignóbil.

Disponível em DVD e Bluray

Artigos relacionados:

  3 Comentários para “A música e a fotografia de Herói”

Comentários (3)
  1. gosto mesmo “daqui”. As palavras e as imagens escolhidas , assim como o tema prendem quem está aqui deste lado!

  2. Com a beleza de Zhang ZiYi, a destreza e as coreografias de luta desenvolvidas pelo próprio Jet Li, além da devastadora fotografia, já comentada, a música, o enredo e o talento do diretor, o filme realmente não pode faltar em uma boa dvd-teca …

  3. Esse mundo maravilhoso do cinema, com o olhar e o ouvido sensível do crítico que faz uma belíssima apresentação do Heroi, nos fala do encanto de contar estórias, e nos convence de procurar o DVD.

 Escreva um comentário

(requerido)

(requerido)

Você pode usar estas HTML tags e atributos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>