out 082010
 
O APANHADOR DE DESPERDÍCIOS

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que as dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor os meus silêncios.

Manoel de Barros

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  4 Comentários para “Manoel de Barros: O Apanhador de Desperdícios”

Comentários (4)
  1. MANOEL DE BARROS: VITAL, PRIMORDIAL!

  2. Identificação total, incha o peito de emoção, ausência de palavras, só SENSAÇÃO!!!!

  3. A poesia de Manoel de Barros me faz sentir a luminosidade na minha alma. É incrivel seu fazer poético, simples, criativo e maravilhoso. Ele consegue tirar de mim o meu próprio sentimento não falado. Muito Obrigada.

  4. Manoel de Barros me leva para o centro da alma onde habita o poço precioso (e tão desperdiçado) do silêncio. Obrigado pela boa água!

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