out 012010
 
Belo Belo

Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.

Tenho o fogo de constelações extintas há milênios.
E o risco brevíssimo — que foi? passou — de tantas estrelas cadentes.

A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.

O dia vem, e dia adentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.

Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.

Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.

As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.

Não quero amar,
Não quero ser amado.

Não quero combater,
Não quero ser soldado.

— Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.

Manuel Bandeira

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  2 Comentários para “Manuel Bandeira – Belo Belo”

Comentários (2)
  1. O olhar sempre claro do menino feliz diante das dores e dos sonhos na vida adulta. Nosso maior poeta que diz também “belo belo tenho tudo que não quero”, “quero a estrela mais alta luzindo no fim do dia”. O risco brevíssimo de uma estrela cadente, ou como diz Adriana o brilho que continuo buscando.

  2. Às vezes tenho a impressão de que Manuel Bandeira é um poeta assim simples, um homem comum que discretamente me cutuca com dedo o meu ombro para me mostrar num relance a beleza fundamental -como uma estrela cadente, cujo brilho depois continuo buscando.

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