out 292010
 
Por Sérgio Mayr

Romance: ADRIENNE MESURAT Autor: Julien Green Ano: 1927 Tradução: Aulyde Soares Rodrigues – Editora Novo Século, 2008

Adrienne Mesurat, no romance homônimo que é um marco da narrativa psicológica, é uma jovem de cerca de 18 anos que vive encerrada em uma residência (Vila das Bétulas, Rua Thiers) nos arredores de Paris (La Tour-l’Evêque) com o pai, Antoine Mesurat, e a irmã, Germaine, em um abismo de tédio.

Foto do autor jovem em 1933

O pai, com sessenta anos no ano (1908) em que se passa a história, viúvo desde quinze anos antes e com uma aposentadoria precoce possibilitada pelo ganho de um montante apreciável em uma loteria, metódico e autoritário com as filhas, “levava uma vida simples, feita de hábitos que acumulara como quem escolhe flores ou pedras raras durante um passeio, e aos quais amava de todo coração”.

A irmã, Germaine, nos é apresentada como cronicamente doente, embora o tipo de doença, sempre negada pelo pai, nunca seja esclarecido no decorrer da narrativa, podendo ser, pelos sintomas, a tuberculose, tão comum na época, ou uma doença “imaginária”.

O único passatempo ocasional de Adrienne, além de se ocupar de observar a vizinhança pela janela do quarto e de jogar cartas contra a vontade com a família depois do jantar, é um passeio sorrateiro de fim de tarde nas cercanias da residência durante as cochiladas do pai que costumava ler os jornais do dia na sala de estar. A irmã, ciumenta e ávida por atenção, não deixa Adrienne livre de uma vigilância opressiva. Em uma passagem: “(…) a vida era apenas uma série de hábitos, de gestos feitos em momentos determinados. Qualquer alteração parecia anárquica. A distração era impossível e, como obedecendo a uma ordem tácita, Adrienne passou a dividir seu tempo de modo rígido, preciso, tão rigoroso quanto se vivesse num convento”.

Certo dia, durante um passeio, depara com um vizinho que passa em uma carruagem, um médico chamado Dr. Maurecourt, jovem, mas de aspecto doentio e, sabemos depois, superprotegido pela respectiva irmã. Um simples gesto de atenção do médico, no fugaz instante, faz com que a jovem experimente uma emoção inédita: a paixão à primeira vista. Uma obsessão toma forma e, diariamente, com sentimentos transbordantes, Adrienne passa a observar de longe a residência do médico pela janela do quarto e a espreitar o local nos passeios que consegue fazer escondida do pai e da irmã, além de cobiçar o quarto da irmã “doente”, de cuja janela é privilegiada a vista do pavilhão em que o médico reside. A irmã percebe o comportamento furtivo de Adrienne e a vigilância daquela se torna insuportável: certo dia, Adrienne projeta o braço pela janela fechada, quebra o vidro e tem um ferimento com profuso sangramento – um ato de desesperada catarse e que representa uma chance para que o médico seja chamado à residência dos Mesurat, mas a própria irmã acaba fazendo os curativos necessários.

Depois que Adrienne auxilia Germaine a fugir de casa em virtude constantes atritos com o pai, a convivência com este se torna intolerável. Algo funesto ocorre, então, e Adrienne adentra um verdadeiro redemunho psicótico.

Cidade de Monfort-l’Amaury, França

Cenas magníficas se sucedem na viagem de trem que Adrienne empreende como uma fuga de si mesma e das circunstâncias: a aventura a pé, sob chuva, numa paisagem desoladora, da estação ferroviária até o centro da cidade de Monfort-l’Amaury; visões e sonhos em um quarto de hotel da cidade de Dreux; um homem tenta entabular uma conversa durante um passeio noturno na mesma cidade e é prontamente rejeitado, ela se afasta em passo acelerado e tem a impressão de ser perseguida, contudo, logo depois, se arrepende, retrocede e procura sem sucesso o “perseguidor”.

Cidade de Dreux, França. Foto: Thomas Pin

De volta à casa, em outro trecho marcante da obra, Adrienne, em estado de plena catatonia, é vítima, a pretexto de conforto espiritual e do pedido de um favor, da conduta predatória de uma inquilina de imóvel próximo: a Sra. Legras, inescrupulosa e chantagista, de reputação obscura, que se tornara a única “amiga” e confidente de Adrienne (único elo com o mundo exterior), contra a vontade do pai. Pede um pequeno empréstimo à jovem, mas, à vista do estado totalmente passivo desta, leva todas as economias, compulsivamente e com esgares de incontida satisfação.

Por fim, o esboroamento psíquico da jovem é um dos momentos mais comoventes da história da literatura. Há romances em que o infortúnio dos personagens nos arrebata de forma indelével, como, por exemplo, “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, de Johann Wolfgang von Goethe, “The Good Soldier”, de Ford Madox Ford, e “Um Amor”, de Dino Buzzati, e este é um deles.

Foto do autor já idoso

Julien Green (1900-1998), nascido em Paris de pais americanos, teve longa carreira e extensa obra, da qual, desafortunadamente, apenas o livro em comento se encontra em catálogo no mercado editorial brasileiro. Um dos escritores prediletos de Clarice Lispector e uma grande influência para Lúcio Cardoso (autor de “Crônica da Casa Assassinada”). Destacam-se na obra do autor: “Le Voyageur sur la Terre”, “Léviathan”, “Épaves”, “Le Visionnaire”, “Moïra” e “Chaque Homme dans sa Nuit”. Atenção, editores brasileiros!

A edição em mãos, da pequena editora Novo Século, tem uma tradução correta, mas com alguns erros de impressão e pontuação que, todavia, não comprometem a leitura como um todo.

O prefácio, elaborado pelo próprio Green cinquenta anos depois da criação do romance em questão, é uma preciosidade que enriquece sobremaneira a edição. É nele que tomamos conhecimento do desdém que o autor nutria, inicialmente, por Freud e a psicanálise nos anos em que era universitário, por volta de 1920 (a ciência do ilustre vienense era uma novidade muito em voga entre os estudantes da época); enfim, da negligência sobre o assunto, para ele teórico demais em cotejo com o mundo real. Apesar de tencionar escrever uma obra sem que aflorassem “complexos idiotas”, ou entidades-chave da psicanálise freudiana como o recalque e a libido, Green acabou “inconscientemente?” construindo um romance de alta densidade psicológica, em que a protagonista, condicionada por um tédio avassalador e pela repressão paterna, recalca os desejos de forma patológica e potencialmente perigosa.

Outro ponto que vale ressaltar no valioso prefácio é a revelação do modo de escrita do livro e de livros posteriores: a “escrita automática”. Sem um plano geral, o autor deixava que as frases fossem surgindo, ditadas pela imaginação e por elementos da realidade (elementos autobiográficos): “o único método razoável era ignorar todos os métodos e encontrar o livro, frase por frase”. Com efeito, embora, na construção, o livro em análise seja linear, convencional, sem transgressões formais, percebemos a criação da obra de arte a partir do “quase nada”, da página em branco, de objetos corriqueiros como retratos de antepassados na parede de uma escadaria: uma aula, em pleno desfrute da leitura, de concepção literária de valor irretorquível e que instila paixão pela arte em si; um curso de escrita criativa bem anterior ao advento dessa modalidade de pedagogia literária.

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  9 Comentários para “Romance: Adrienne Mesurat”

Comentários (8) Pingbacks (1)
  1. tenho esse livro ainda não terminei de ler mas, gostei do seu resuma…e ate agora estou gostando muito do livro.

    Abraços,e continue fazendo resumos tão bons quanto esse… :D

  2. Felicito a Sérgio Mayr, pelo alto nível de sua redação e percepção aguçadas.
    Repassa-nos uma cosmovisão segura, enriquecedora para todos que por aqui navegam.
    Agradou-me por demais conhecer este endereço!!!

  3. Quem não leu o livro ainda, não precisa faze-lo, basta ler o resumo do Sérgio,que está perfeito e comfiavel. Parabens Sérgio.

  4. eu amo esse livro.
    o final dele é uma das coisas mais terríveis que já li.

    obrigado pela postagem sobre ele.

    =]

  5. Reafirmo o que já disse outro comentarista neste blog: as resenhas e os comentários do Sérgio dão um “banho de cultura”. Continue nos deliciando com seus artigos. Beijos!

  6. Impressionante a fluência, a delicadeza e o tamanho de cultura expressos pelos textos de Mayr. São descargas de dados e conhecimento que não embargam nem atrapalham o ritmo, e a escrita é inteligente como poucas…

    Dava até vergonha dizer que eu “escrevia” alguma coisa no meu blog… :-P

    Abraços, Sérgio!

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