out 162010
 
Por Sérgio Mayr

Diretor: Marco Bellocchio País: Itália Ano: 2009 Elenco: Giovanna Mezzogiorno, Filippo Timi, Corrado Invernizzi, Fausto Russo Alesi, Píer Giorgio Bellocchio, Michela Cescon.

Marco Bellocchio, de 70 anos, sem dúvida, é um dos grandes mestres remanescentes do cinema italiano, ainda em plena e fecunda atividade. De igual estatura, somente consigo cogitar sobre Bernardo Bertolucci e Gianni Amelio (de “Il Ladro di Bambini”), da mesma geração. Mario Monicelli , nonagenário, e Francesco Rosi, quase nonagenário, não estão mais em atividade.

Na filmografia de Bellocchio podem ser destacados os seguintes filmes: “I Pugni in Tasca”, o instigante longa-metragem inaugural, de 1965; “Sbatti Il Mostro in Prima Pagina”, de 1972, com o saudoso e extraordinário ator Gian-Maria Volontè, genial em filmes de linha política; “Salto nel Vuoto”, com Michel Piccoli e Anouk Aimeé, melhores ator e atriz em Cannes, 1980; e recentemente, o incisivo “Buongiorno, Notte”, de 2003, sobre os erros da esquerda no sequestro e morte de Aldo Moro, manipulada pelo inescrupuloso Giulio Andreotti e os democratas-cristãos, então no poder. Este cineasta, com altos e baixos na prolífica carreira, nos brinda com uma fascinante obra baseada em estarrecedor fato real, por muitos anos ignorado pelo mundo: uma dobra na história italiana.

Os protagonistas, Filippo Timi e Giovanna Mezzogiorno

“Vincere”, título de uma canção fascista, é um filme notável que focaliza a figura trágica de Ida Dalser, a primeira e ignota esposa de Benito Mussolini. Os papéis são brilhantemente desempenhados por Giovanna Mezzogiorno, protagonista da recente e anódina adaptação de “O Amor nos Tempos do Cólera”, filha do ator Vittorio Mezzogiorno, prematuramente falecido em 1994, e Filippo Timi. Mezzogiorno está magnífica e Timi é uma surpreendente revelação, um ator a ser, certamente, notado rapidamente na cena cinematográfica mundial: nada mais caricata do que a figura real do bufão Benito Mussolini (Hitler, idem), já como “Il Duce”; mas o ator, como um Mussolini mais jovem, não é caricatural em nada.

Há um tom operístico em “Vincere”, assim como em grande parte da obra do cineasta, o que é acentuado pela dramática e bela trilha sonora assinada por Carlo Crivelli. A cenografia de Daniele Ciprì se vale, de forma instigante, de estilizações plasmadas na arte futurista, em voga na época. A linearidade da narrativa é estilhaçada, vale dizer, muitas cenas são cronologicamente embaralhadas, mas essa técnica narrativa em nada prejudica a adequada compreensão da obra, e há a pertinente inclusão de imagens de arquivo em preto e branco muito bem acopladas às partes encenadas, com Mussolini, a partir da ascensão ao poder, somente mostrado em cenas de documentários da época: uma solução dramatúrgica muito bem engendrada pelo cineasta.

Ida Dalser, filha do prefeito de um pequeno povoado (Sopramonte) próximo à cidade de Trento, na época uma região sob a tutela do Império Austro-Húngaro, possuía um salão de beleza em Milão, depois de ter estudado medicina cosmética em Paris. O primeiro encontro entre Dalser e Mussolini, então um jornalista e membro do partido socialista, além de ateu militante, teria ocorrido em 1907.

Mussolini aos vinte e poucos anos

Nessa época, Dalser teria se apaixonado por Mussolini, devido à personalidade rebelde, combativa, marcante deste, às participações em manifestações públicas contra a monarquia e às perorações veementes em reuniões do partido socialista.

Mais tarde, para ajudar Mussolini, desempregado, a fundar o próprio jornal, “Il Popolo d’Italia”, Dalser venderia praticamente todo o patrimônio pessoal, sendo que, inicialmente, Mussolini relutava dissimuladamente em aceitar o auxílio. Teria ocorrido então o matrimônio, com cerimônia religiosa e com um filho em 1915, Benito Albino Mussolini, resultante do enlace.

A cena do casamento é mostrada mais adiante no filme; antes, nos surpreendemos com Mussolini casado com outra mulher, Rachele Guidi: há, inclusive, um enfrentamento entre ambas em um hospital militar improvisado em uma igreja onde Mussolini se recuperava de ferimentos durante a 1ª Guerra Mundial, na qual se alistara.

Embora Mussolini gostasse de ostentar as amantes e as mantivesse protegidas, Dalser representava uma ameaça à ambição política daquele que, a partir de 1917, conquistava visibilidade na cena política italiana, e principalmente, a atenção da elite dirigente, notadamente o rei Vittorio Emanuele III: depois de retornar da 1ª Guerra Mundial, Mussolini abandonaria o socialismo pelo fascismo e fundaria em 1919 o embrião do Partido Nacional Fascista. Dalser fazia questão de revelar ruidosa e publicamente que era a legítima esposa do futuro déspota. Então, em 1922, no poder sob o beneplácito da dinastia da Casa de Savóia, depois de um golpe de estado dos fascistas (a famosa “marcha sobre Roma”), ordenou que Ida ficasse confinada na casa da irmã, com a polícia empenhada em arrecadar todas as evidências documentais do laço matrimonial. No filme, é dado a entender que Dalser teria escondido a prova documental cabal do matrimônio, mas que, afinal, nunca apareceria.

Mussolini nos primeiros anos no poder

Dalser, obstinadamente, reitera as temerárias declarações de que seria a legítima esposa do tirano fanfarrão: escreve cartas para o Papa Pio XI, para o Rei Vittorio Emanuele e outras autoridades. Ela se dividia entre a afirmação de uma paixão absurda e a tentativa de denúncia da fraude que entendia ser o ditador: enfim, um traidor da pátria, que teria sido subornado pelo governo francês para fazer campanha a favor da entrada da Itália, até então neutra, no conflito mundial em andamento. Para que o estorvo que ela representava fosse eliminado, houve o confinamento no hospital psiquiátrico de Pergine Valsugana, na região de Trento. Nesse local se dá a pungente cena em que, durante o inverno, ela escala uma grade externa da instituição e lança para fora as diversas cartas que escrevera ao longo da internação: em um logradouro em frente, algumas crianças, brincando, primeiramente miram assustadas, mas depois começam a gargalhar e a fazer troça da aparentemente “louca varrida”. Um psiquiatra, nessa mesma instituição, dá a seguinte sugestão, que ela não acata, na sua irredutível e corajosa perseverança: fingir-se de “boa mulher fascista”, sem arroubos de indignação, pois o regime fascista não duraria muito. Essa passagem retrata bem a atitude tomada pela parte majoritária da classe média da Itália naquela época.

Depois de uma fuga empreendida com o auxílio de uma enfermeira sensibilizada com a situação da interna, esta, recapturada, foi enviada para o manicômio de San Clemente em Veneza, seguindo-se um inevitável esfacelamento psíquico e estiolamento físico. Seria Ida Dalser, ironicamente, uma das poucas pessoas sãs naquele país, naquela época, a despeito da paixão desmedida e incompreensível para nós ?

O filho, Benito Albino, foi retirado abruptamente da convivência com a mãe (a ele foi dito que a mãe teria falecido) e adotado como órfão por um assecla fascista de Sopramonte. Educado em colégios internos, alardeava a condição de filho legítimo do “Duce”, e como era vigiado de perto incessantemente, acabou sendo internado também em um manicômio, no caso, em Mombello, na região de Milão. Aliás, asilos de loucos eram o destino usual para oponentes do regime fascista. As cenas em que o filho, já adulto, vivido também por Filippo Timi, imita para os amigos os trejeitos e os maneirismos de Mussolini são divertidas.

Cena de manifestação pública

“Vincere” não se ocupa em esmiuçar as circunstâncias que condicionaram a transformação ideológica repentina de Mussolini, de socialista, antimonarquista, anticlerical, a fascista e bajulador da monarquia e da igreja católica, mas dá conta do drama psicológico de uma personagem que foi relegada às brumas do olvidamento. Mas, é claro que Mussolini tinha uma ambição, um projeto de poder, nada mais que isso, e essa leitura é incontornável no filme que mapeia, de certa forma, a construção da figura de um político, marcada pela contradição, e é impossível não pensar também no Berlusconi dos dias atuais.

A descoberta desse vulto nebuloso da história italiana, totalmente ignorado até então, se deve a uma pesquisa empreendida pelo jornalista Marco Zeni, da qual resultaram um documentário de televisão e dois livros.

Há uma cena inicial em que Mussolini desafia um grupo de religiosos reunidos em um auditório, com um cronômetro na mão, no final da primeira década do Século XX: “Se Deus realmente existir, que me fulmine em 1 minuto!”. É lastimável que nada aconteceu naqueles 60 segundos e que fatos desditosos ocorreriam em anos vindouros!

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  5 Comentários para “Vincere”

Comentários (4) Pingbacks (1)
  1. Outros defeitos do filme “Baarìa” do Tornatore: a) os temas rapidamente esboçados nunca são aprofundados, como a questão da máfia; b) as cenas de realismo fantástico estão mais pra Isabel Allende do que pra Garcia Marquez.

    Tenho certeza de que Emanuele Crialese (n. 1965), de uma geração bem mais recente, diretor de obras-primas como “Respiro” e “Nuovo Mondo”, faria um grande filme.

    Aliás, outro grande diretor italiano ainda vivo: Ermanno Olmi (n. 1931), responsável por aquela joia rara – “Árvore dos Tamancos” (L’albero degli zoccoli) …

  2. Fazer listas de qualquer coisa é péssimo, pois sempre esquecemos alguma coisa ou alguém. Há outros grandes diretores italianos ainda vivos.

    Ettore Scola, de 79 anos, estava em um período de decadência nos anos 90, mas fez o ótimo “Concorrência Desleal” de 2001. O último filme é “Genti di Roma”, de 2003.

    Os irmão Taviani, de “Padre, Padrone”: Paolo (79) e Vittorio (81). O último filme é de 2007: “La Masseria delle Allodele”.

    Giuseppe Tornatore, de uma geração mais recente, merece um comentário. Vi, recentemente, “Baarìa” (referência a Bagheria, cidade natal do cineasta na região de Palermo, Sicília), de 2009, achando que seria sua redenção, para mim e para a crítica em geral. Ledo engano!
    O “Amarcord” de Tornatore é uma sucessão de imagens autobiográficas que não cativam o espectador: movimento demais, falas demais, cortes abruptos, personagens demais, figurantes demais (repete equívocos de “Malena”). Longo demais (2 horas e meia). O diretor não logrou alcançar a alquimia do cinema e transmitir a empatia necessária ao público, embora haja cenas isoladamente interessantes. O envelhecimento de alguns personagens é mal trabalhado. O casal central realmente lembra Paulo Betti e Maria Fernanda Cândido, como dizem.
    Pesquisei na internet e vi que muitas pessoas também ressaltam o excesso de cenas, mal costuradas, como um grande ponto negativo da película. Até a música do grande Ennio Morriconi às vezes é exagerada na carga sentimental. Parece que a crítica tem razão: um diretor que tem uma obra-prima no currículo, “Cinema Paradiso”, e que tenta sempre emulá-la, sem sucesso. Nesse filme, inclusive, a bela Monica Bellucci aparece apenas por 5 segundos, e de longe!
    O que um grande diretor como Fellini não faria com o material à disposição de Tornatore nesse filme!
    Que me desculpem os fãs ardorosos! Que se manifestem neste espaço!

  3. Os sapos são da família “bufonidae” e alguns têm no nome científico o gênero “bufo” (a propósito, “Buffo & Spallanzani”, um ótimo romance do Rubem Foseca). Mussolini tem cara de sapo e, por isso, o adjetivo “bufão” é muito apropriado. Somente a retórica, a verve, o carisma, podem explicar o incompreensível: essa paixão de que trata o filme.

  4. Incompreensível as vezes a paixão por uma figura que lembra Berluschoni e tanti altri.

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