nov 162010
 
Por Adriana Rotelli Resende Rapeli
“Quem pode dizer a que ponto arde, arde bem pouco.”
Petrarca

Nascido em Curitiba, o psiquiatra e psicanalista Edival Perrini tem 62 anos, em atividade profissional tanto na clínica quanto com produções científicas em Psicanálise. E tem a poesia como parte de seu olhar sobre o mundo, seu modo de sentir a vida.

Edival é um também um colega a quem admiro e um amigo querido. Mantemos há quase dez anos uma correspondência por e-mails, ainda resistimos a esta forma já quase ultrapassada pela rapidez de twitters e torpedos. Encontramo-nos de tempos em tempos em eventos científicos, como velhos e saudosos conhecidos.

Ganhei dele seus livros mais recentes: “Pomar de Águas” (poemas de 1987 a 1992), “Armazém de Ecos e Achados” (2001), “Traços do Ofício (2004) – uma coletânea dos autores que com ele compõe “Encontrovérsia”, grupo de poetas que há 30 anos se reúne na capital paranaense aprimorando seu ofício – e  “O Olho das Águas” (2009).

Em todos os livros há ótimos prefácios que contextualizam o autor no cenário contemporâneo e analisam sua obra. Reconheço Edival especialmente em seus poemas curtos, forma privilegiada de seus poemas, mas não única. Sob este viés, que se delineia como um estilo, Reinaldo Atem no “Pomar de Águas” avalia que o poeta “pratica preferencialmente formas concisas, o epigrama, que favorece a reflexão, o pensamento sutil (…).

Édison José da Costa escreve no prefácio de “Armazém” : “o texto de Perrini – contido, econômico, enxuto – apresenta-se, na exata medida de sua precisão e nitidez, para essa parceria criativa que não seleciona o interlocutor e jamais se encerra”. Denise Azevedo acha que Edival, “ao criar seus haicais ou então seus poemas de apenas quatro versos – semelhantes ao tankas – o poeta consegue expressar toda a magia do momento vislumbrado (…) com esse curioso amálgama entre natural e artificial, os versos efetuam uma passagem do objetivo para o subjetivo.”

Os versos breves são sugestões, delicadas insinuações, pequenas intervenções ou sínteses possíveis de um mundo palpitante. Instantâneos plenos de futuro. Assim, vejo coerência com a Psicanálise a que ele também se dedica, de inspiração bioniana. Nossa mente está em criação, consonante com o universo em expansão.

A poesia é o rumor que esta criação mental repercute, sinal vital, música da alma. Fora da poesia, a visão descorada, a amargura. A loucura e sua equiparação com e com o automatismo mecânico:

MONOTONIA

Preso

Na areia movediça do tédio

O ventilador ventila

-

POEMA QUASE TÁCITO

Olho a vida sem nenhum sonho

E vejo as cores na textura exata.

Sem nenhum verso,

Ponho-me diante das palavras

E cuspo.

(…)

A aventura de tornar-se humano, a inauguração do tempo subjetivo, nosso único recurso diante da monotonia e da inexorabilidade da morte:

DESTINO

Somos menos

Do que nos deliram os planos

A hora que temos é passado

No apressado engano dos meridianos.

-

SINA

Eis a lança,

Eis o norte enfim:

Sou quixote e pança,

Mó de mim.

O ser em sofrimento reencontra sua mó, seu motor ancestral. A sujeição radical à sua natureza humana, passional e contraditória, de desejo e medo, sonho e realidade:

TARDE

Quanto mais não quero a sombra,

Mais me assombra o sol.

-

NORTE

Repudio a chuva fina:

Mesquinha, indecisa, à toa.

Ou tempestade me assina

Ou me rasgo, se garoa.

E a compreensão inevitável da incompletude, do amor ao outro como condição de existência, de identidade e de conhecimento.

AMOR

Apesar de sua induração,

O ferro,

Renitente e inflexível,

Consente à umidade

O gozo escarlate da ferrugem.

-

SOBRESSALTO

(…)

Eu que sou o pedaço,

O bagaço,

Solitário caroço abjeto,

Com você

Fruto completo.

-

A carne que se faz verbo, nosso destino mais humano. A poesia de Edival Perrini me tem sido boa companhia e recomendo a vocês.

Edival tem um site: www.edivalperrini.com.br

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