nov 162010
 
Por José Ferreira *

Cecilia Bartoli é, indubitavelmente, a maior cantora lírica dos últimos 20 anos. Ela é uma das principais artistas do nosso tempo, já tendo vendido mais de seis milhões de CDs e DVDs e se apresenta habitualmente nos principais palcos do mundo.

Pela primeira vez, nos últimos 200 anos uma mezzo soprano alcança tamanha importância. As divas do século vinte, como Maria Callas, Joan Sutherland ou Kiri te Kanawa eram sopranos e havia a impressão de que só as possuidoras desse timbre musical alcançariam o Olimpo musical.

A voz de Cecilia é maravilhosa e inigualável, permitindo as maiores piruetas e coloraturas capazes de, literalmente, tirar o fôlego. Sua afinação é espantosa – as nuances entre os pianíssimos e os fortíssimos parecem não ter fim, mostrando uma dinâmica impressionante. Mesmo para os não apreciadores de ópera, ao ouvi-la pela primeira vez, leva-se um choque ao descobrir o que a voz humana é capaz de fazer.

Nascida em 1966, já se tornou famosa antes dos vinte anos, trabalhando precocemente com os mais importantes maestros do nosso tempo como Karajan, Baremboin e Harnoncourt. Sua voz permitiu que fosse redescoberto o repertório de Rossini, composto em grande parte para seu tipo de voz e esquecido pela falta de intérpretes à altura. Todas as suas interpretações de óperas foram um enorme sucesso de público e crítica.

Não bastassem suas qualidades artísticas, a maior contribuição do seu trabalho foi a reintrodução no cenário artístico de obras primas alijadas do repertório tradicional: o CD dedicado a Salieri mostrou que ele não era apenas um rival de Mozart e sim um grande compositor; o CD e DVD, de árias de Vivaldi, com a orquestra barroca Giardino Armônico foi a reapresentação ao mundo de árias deslumbrantes pela beleza, virtuosismo e dificuldade técnica, mostradas impecavelmente pela cantora.

Outro projeto muito interessante foi o CD, DVD e apresentações públicas homenageando Maria Malibran, a maior mezzo soprano do século XIX e talvez sua única real predecessora.

Talvez o melhor trabalho de Cecilia Bartoli tenha sido o denominado Sacrificium, onde ela mostra o repertório italiano do século XVIII dedicado aos castrati. – meninos castrados na infância para manter seu timbre de soprano na idade adulta, aproveitando sua potência de voz teoricamente inacessível às mulheres. São árias de compositores pouco conhecidos como Pórpora, Leonardo Leo e Caldara. Ao se ouvir as faixas do CD ou assistir ao DVD, gravado no fantástico castelo de Caserta, na Itália, podemos ver, em toda sua plenitude, as qualidades dessa cantora única, capaz de longas e complexas frases em uma mesma respiração, coloraturas rocambolescas, controle absoluto de uma voz muito bem trabalhada e uma presença de palco marcante e original.

“Profezie, di me diceste”, de Antonio Caldara

 

“Son qual nave “, de Riccardo Broschi

 

“Ombra mai fu”, de Handel

 

O último CD recentemente lançado, Sospiri, é uma coletânea das diversas fases da cantora e uma ótima oportunidade de se mergulhar nesse universo tão fantástico e muitas vezes pouco conhecido da expressão artística humana. Nesse CD encontra-se a música de Geminiano Giacomelli - Sposa, non mi conosce - quem sabe, a mais linda canção já escrita.

“Sposa, non mi conosce”, de Geminiano Giacomelli

*José Ferreira é médico, mestre em cardiologia e audiófilo.

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  2 Comentários para “Cecilia Bartoli”

Comentários (2)
  1. Bravo! Timbre da Bartolli é único e belíssimo. Talvez o mezzo soprano dê mais corpo e profundidade à voz. Apresentação impecável do mestre José Ferreira.

  2. E então, que belo comentário do José. Achei a última canção lindíssima mesmo.

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