nov 012010
 
Por Luigi Rotelli

Esta música que você está ouvindo é da trilha sonora de “O Tigre e o Dragão”, belíssimo filme de Ang Lee. Chama-se “The Eternal Vow” e foi composta por Tan Dun, um compositor chinês contemporâneo de música clássica. O solo de violoncelo é executado por ninguém menos que Yo-Yo Ma, hoje o mais famoso violoncelista do mundo, que será retratado em breve aqui no Guia de Música Clássica.

Uma música para ouvir e deixar a mente flutuar nos sonhos. Tão bela, tão bela, que não tenho palavras para descrevê-la.

A música de Tan Dun mescla oriente com ocidente, tradições milenares chinesas, instrumentos feitos de pedra, água, cerâmica e papel com os instrumentos tradicionais de orquestra e, como ele mesmo diz “balança e nada entre diferentes culturas”. Um exemplo é a música “Saint Mathews Water Passion” em homenagem a Bach, tocada com instrumentos de água, ou o “O Som da Terra”, em homenagem a Gustav Mahler (referência a Das Lied von der Erde, “A Canção da Terra”), um concerto que Tan Dun compôs para 99 instrumentos de cerâmica e pedra e uma grande orquestra.

De Bach a Mahler, ao minimalismo de John Cage, sua música tem uma força de expressão inigualável. Quando ganhou o Oscar pela trilha sonora de “O Tigre e o Dragão” em 2001, ele disse algo em seu discurso que traduz sua concepção multicultural – ele via como sua missão derrubar o muro invisível que divide a China do resto do mundo:

“Quando a maioria das pessoas pensa em um muro na China, eles pensam em um muro físico, a Grande Muralha com a qual os Han Chineses esperavam manter fora as raças do norte. Mas eu penso sempre de uma muralha que é muito mais alta, mas é também invisível. Ela impede as pessoas de ver dentro da China, como também impede os chineses de olhar para fora”, ele diz.

Ouça mais uma música de “O Tigre e o Dragão”, essa praticamente só em percussão, para ilustrar a diversidade da música dele:

Tan Dun nasceu em uma provincia chinesa em 1957. Apaixonado por música desde criança, sobreviveu a um estúpido e violento período da história da China conhecido como a “Revolução Cultural” de Mao. Ele foi mandado para trabalhar em uma plantação de arroz. Mas lá aprendeu com camponeses a tirar música até de pedra (literalmente) e alcançou uma compreensão maior das tradições milenares chinesas que estavam se perdendo.

“Experimentar a amargura para um artista é necessário. Só assim você vê o que está no coração da música e da arte. Quando eu penso em tudo o que foi banido sob Mao Zedong, é provavelmente isto que me fez sentir a urgência de continuar aquelas antigas tradições chinesas e dar a elas uma nova vida trazendo elas em contato com as tradições musicais do ocidente”.

Um dia, a Companhia de Ópera de Pequim estava excursionando na província onde Tan Dun trabalhava plantando arroz e o barco que fazia a travessia afundou matando metade dos artistas. Tan Dun se inscreveu para ocupar uma vaga e conseguiu partir com a ópera. Anos mais tarde estudou música clássica no conservatório em Pequim e iniciou sua carreira que o levou enfim a trabalhar com dois grandes diretores de cinema: Ang Lee (diretor de “Razão e Sensibilidade”, “O Tigre e o Dragão” e “O Segredo de Brokeback Mountain”) e Zhang Yimou (diretor de “Lanternas Vermelhas”, “Heroi” e “Clã das Adagas Voadoras”).

A música a seguir é do filme Heroi, interpretada pelo grande violinista Itzhak Perlman:

Os vídeos abaixo ilustram um pouco da música clássica de Tan Dun.
O primeiro, é com o pianista Lang Lang, que fez os solos de piano da trilha sonora do filme The Banquet, composta por Tan Dun.

Lang Lang & Yuan Li & Tan Dun- Four Secret Roads Of Marco Polo

O segundo é um movimento de um concerto para Zheng e Orquestra. Zheng é nome deste instrumento de cordas chinês que você vê no vídeo, da família das cítaras, afinado na escala pentatônica.

Concerto for Zheng and String Orchestra  I. Andante molto

Estes dois vídeos abaixo são da suite “Eight Memories in Watercolour” para piano solo, de Tan Dun, com o pianista Lang Lang, que recentemente também estreou um novo concerto para piano e orquestra que Tan Dun escreveu para ele. Sobre a filosofia da música chinesa e sobre Lang Lang, Tan Dun diz:

“Água e fogo são elementos bem como opostos na tradicional filosofia Taoista. Para mim, a cultura chinesa é toda sobre reconhecer estes elementos nas coisas e reconciliar o contraste entre eles. A água é o lírico e o fluido na música, enquanto o fogo relaciona-se com a energia rítmica, o desejo e a raiva. E a razão pela qual Lang Lang é para mim o pianista perfeito é que ele tem uma maneira natural de trazer à luz estes contrastes extremos, de fazer o piano – um instrumento essecialmente de percussão: você martela as cordas, você não toca elas – de fazer ele realmente cantar como um ehru (violino chinês). O maior realização de Lang Lang é a maneira como ele revela o lado oriental do piano, fazendo ele ser fogo e água ao mesmo tempo. Este é o propósito real da arte e da música na China.”

Lang Lang plays Eight Memories in Watercolor Op. 1: No. 1-4

Lang Lang plays Eight Memories in Watercolor Op. 1: No. 5-8

 

Artigos relacionados:

  2 Comentários para “Tan Dun e a música do cinema chinês”

Comentários (2)
  1. Parabéns pelo site, conheci um pouco mais sobre a cultura chinesa e também ótimas trilhas sonoras, já estou baixando aqui, obrigado.

  2. A música do cinema chinês é altamente inspiradora, sendo que a música chinesa em geral reside em uma dimensão diferenciada. Preciso sempre assistir a algum filme chinês, como a obra-prima de Chen Kaige, “Adeus, Minha Concubina”, que arrebata … o cinema ocidental, com raras exceções, não chega perto …

 Escreva um comentário

(requerido)

(requerido)

Você pode usar estas HTML tags e atributos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>