dez 152010
 
Texto de Luigi Rotelli

Surfista em praia da África do Sul aguarda uma brecha na sequência de ondas gigantes, pronto para enfrentar essa força titânica do mar. Haja corajem! Foto de Anne du Plessis

Nas duas primeiras aulas seguimos a trajetória do olhar e descobrirmos que entre outras coisas somos levados por um instinto primitivo a buscar a face humana ou de animais. Em última instância, um instinto ligado à sobrevivência.

Na aula de hoje vocês verão a primeira conseqüência desse poder de atração, no caso, uma consequência negativa, quando o fotógrafo iniciante é submetido por esse instinto primitivo.

A diferença entre tirar uma foto e o ato de fotografar

Observem fotos comuns de aniversários ou de viagens de parentes e amigos que não são fotógrafos. Nelas, inevitavelmente o rosto da pessoa fotografada está bem no meio, no centro da foto e, ainda que a idéia fosse tirar a foto de corpo inteiro, os pés são quase sempre cortados e sobra um monte de céu para cima. Pés, quem se importa? O olhar de quem está batendo a foto é atraído pela face, mais especialmente pelos olhos. E, por uma característica peculiar de nossa visão, o alvo acaba ficando exatamente no centro da foto.

Em fotos de paisagem é comum colocar a linha do horizonte cortando a foto no meio. Qualquer que seja o tema principal dessas fotos- seja um animal, uma flor ou um monumento histórico – a tendência do iniciante é sempre colocar o assunto no centro.

Isso acontece porque nossa retina não tem a mesma sensibilidade em toda a sua extensão. A maior parte do nosso campo visual é de baixa resolução, visão periférica, fundamental para orientação, percepção de movimento e com extrema sensibilidade para a noite, mas sem muitos detalhes, nitidez e cores. Nós só temos uma pequena área especializada de alta resolução na retina, com cerca de 1,5 mm, chamada “mácula”. Essa área é responsável pela nossa visão central, rica em definição e cores.

Usamos a visão central para focar em algum ponto, para ler, para enxergar micro detalhes, reconhecer fisionomias e, conseqüentemente, para olhar a expressão do rosto de alguém ao tirar uma foto.

Eis porque invariavelmente quem não tem noção de fotografia tira a foto centralizando o assunto. Faz isso de forma inconsciente, submetido ao magnetismo da face humana e sob o jugo de sua visão central. O resultado é quase sempre ruim, monótono, sem charme e sem graça. Falta dinâmica na foto. Com o assunto principal no centro, é como se você matasse a foto, embora isso evidentemente não seja uma regra, porque há muitas casos, como veremos mais tarde, em que a centralização produz um resultado mais harmônico.

Mas é impressionante que a tendência das pessoas de centralizar  o assunto acontece até mesmo em fotos de grupos. Me lembro uma vez em uma reunião que pedi a uma pessoa de fora para tirar uma foto de toda a minha família reunida, mais de 20 pessoas. Não deu outra: ele conseguiu centralizar o grupo com todas as cabeças na linha média e cortou os pés de todo mundo, deixando sobrar uma enorme quantidade de céu para cima.

Eis então a primeira diferença básica entre simplesmente tirar uma foto e o ato mesmo de fotografar: a composição. É por onde iremos começar. Quem fotografa, usa os pontos de atração a seu favor para compor a imagem provocando um efeito harmônico ou uma tensão interessante. Quem não sabe fotografar fica submetido a eles e tira todas as fotos centralizando o assunto principal sem qualquer preocupação com a composição.

Compondo fora do centro

Descentralizar o tema principal de sua foto é uma maneira de produzir resultados mais interessantes e tornar suas fotos mais dinâmicas. Existem duas técnicas conhecidas para descentralizar o tema principal em fotos:

  • A Proporção Áurea (Golden Ratio)
  • A Regra dos Terços (Rule of Thirds)

Nós não vamos ver nenhuma das duas agora. Essas proporções fora de centro serão temas da próxima aula. Vou mostrar aqui apenas fotos mais radicais, que fogem dessas proporções estabelecidas, com belíssimos resultados. Eis alguns exemplos quando o assunto principal é uma pessoa.

Em foto de corpo inteiro:

Foto de Patrick Demarchelier

Em foto de meio corpo:

Foto de Glen Mitchell

Em um retrato (portrait):

Scarlett Johannson - Foto de Patrick Demarchelier

Ou até mesmo em close-up da mesma atriz:

Ou ainda nessa foto, com duas pessoas:

Festival de luzes de Diwali - Foto de Joe McNally

O mesmo acontece em fotos de natureza. Vamos começar com fotos de animais. Nessa foto abaixo, o ponto de atração principal, a face do guepardo, está no canto direito:

Cheetah em Botswana - Foto de Beverly Joubert

Essa do elefante é interessante, porque ela desobedece todas as regras, inclusive uma que diz que você tem que dar espaço na frente da pessoa ou do animal, no lado para onde estão voltados. Ou seja, se está voltado para a esquerda, teria que estar no lado direito, para ter espaço na frente. Aqui ele está no canto esquerdo, voltado para a esquerda. E no entanto a foto funciona. Foi publicada na National Geographic:

Elefante africano na Tanzânia - Foto de Chris Johns

Nessa foto macro:

Foto macro de Jervis Mun

Em fotos de paisagem é muito comum as pessoas colocarem a linha do horizonte no meio. Isso depende do que você quer enfatizar. Algumas vezes o espetáculo está no céu. Então, para que colocar a linha do horizonte no centro? Ponha a linha lá em baixo e mostre o céu em toda a glória.

Aurora Boreal na Noruega. Foto de Ole Christian Salomonsen

Na foto acima o chão não tem nenhum interesse. Ele apenas serve como referência de escala para a grandeza do evento luminoso. Daí o corte radical, perto da borda inferior.

No exemplo abaixo, qual seria o interesse no campo de milho? Se colocasse a linha do horizonte no centro você teria um milharal nada empolgante e perderia a maior parte deste incrível e dramático cenário de pós tempestade com direito a arco-iris e a luz do sol poente (ou nascente, sei lá):

Tempestade em um campo de milho em Utah. Foto de Steven Besserman

Aqui, uma enorme tempestade se aproxima dos cavalos. Foto tirada próxima do nível do chão:

Cavalos pastando na Mongólia. Foto de Eric Kruszewski

Outras vezes o espetáculo acontece abaixo do horizonte e o céu é irrelevante: azul sem nuvens, sem qualquer formação espetacular, nem arco íris, nem nuvens de tempestade, nem raios, nem cores diferentes. Então para que mostrar metade de céu na foto? Situe a linha do horizonte lá em cima, mostrando em primeiro plano flores, folhas de outono, água, pedras, mar.

Arquipélago de Bora Bora. Foto de Yann Arthus-Bertrand

Na foto abaixo o fotógrafo mostrou o céu até onde estava interessante. Acima daquilo é previsível que estivesse apenas um céu uniforme e monótono, escuro, mas ainda sem estrelas. O interesse aqui está nas dunas iluminadas por essa cor mágica do céu.

Dunas de areia na ilha Fraser. Foto de Peter Essick

Se o céu estiver nublado claro, por exemplo, ele sairá branco na foto porque a luminosidade do céu é várias vezes maior do que a luz refletida no chão. Como o mais brilhante usualmente atrai os olhos, você irá atrair o espectador para nada. Nesse caso, corte justo, com um mínimo de céu.

Nenhum dos exemplos aqui seguiu qualquer regra conhecida de descentralização e os resultados foram dramáticos, dinâmicos, extraordinários. Na próxima aula, a composição com a proporção áurea, usada pelos pintores renascentistas e uma simplificação próxima da razão áurea, a famosa regra dos terços.

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  16 Comentários para “Curso de Fotografia: Aula 3 – Fora de Centro”

Comentários (13) Pingbacks (3)
  1. Toda regra é bem vinda, mas as vezes o extinto nos traz grandes obras.

  2. Toda regra é bem vinda, mas as vezes o extinto nos leva a grandes obras.

  3. Seria de extrema importância o autor explicar por quais motivos as fotos funcionaram, mesmo sem seguir regras. Seria “apenas” por conta dos assuntos? Eu creio que sim.

    Por essas e por outras que questiono totalmente a necessidade e até mesmo a eficácia das regras de composição. Não que sejam totalmente desnecessárias. Só acho que não sejam “obrigatórias” para se ter uma boa foto.

    Continuemos! Estou gostando bastante.

  4. Muito boa essa aula com a exibição de exemplos, os quais realmente derrubam por terra algumas regras.

  5. Ótimos textos! Muito bons seus exemplos!!! Estou gostando muito.

  6. Suas aulas são ricas demais! Estou adorando. espero que dê continuidade ao trabalho.

  7. muito boa as aulas.
    estou muito satisfeito,
    apesar de eu ter alguma noçao
    se aproundando assim nas explicaçoes
    enrriquece muito o meu conhecimento.
    obrigado por compartilhar…

  8. Espetacular, o curso de fotografia e todo o site!!

  9. Maravilhe de explanação.Isso é que é aula sobre “composição” e com fotos maravilhosas para exemplificar. Parabéns Luigi, e continue com mais aulas. Abçs!!!

  10. show de bola! me ajudou bastante. Valeu!!!

  11. Ótimas dicas!!! Adorei

  12. Sem comentários, Luigi! Direto ao ponto.

  13. Maravilhosos os assuntos aqui postados, principalmente esta aula de fotografia.Vou continuar te acompanhando, ok?Bjkas

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