jan 252011
 
por Sérgio Mayr

Romance: CRÔNICA NA PEDRA (Kronikë në gur) Autor: Ismail Kadaré – Ano: 1971 Tradução do albanês: Bernardo JoffilyCompanhia das Letras, 2008

Ismail Kadaré, nascido em 1936 na cidade de Gjirokastra, Albânia, é o escritor mundialmente conhecido, com extensa bibliografia publicada no país (“O Acidente”, “As Frias Flores de Abril”, “A Pirâmide”, “O Dossiê H”, entre outros), contumaz candidato ao prêmio Nobel de literatura e autor de “Abril Despedaçado”, vertido para o cinema pelo cineasta brasileiro Walter Salles há alguns anos.

O escritor albanês Ismail Kadaré. Foto: Murdo Macleod

“Crônica na Pedra”, publicado originalmente em 1971, em albanês, é uma narrativa autobiográfica de Kadaré que enquadra a cidade natal, Gjirokastra, na época em que a Segunda Guerra Mundial assolava os Bálcãs e o autor transitava da infância para a adolescência: um rito de passagem doloroso, mas pleno de contrapontos cômicos.

Anoitecer em Gjirokastra. Foto: Alan Grant

A “crônica” dá conta de todas as agruras de uma comunidade em um período dramático na história mundial e albanesa em particular, mas tudo se passa a partir do ponto de vista lúdico e fabuloso de uma criança em fase de transformações e descobertas: há drama e humor, aliás, como em todas as grandes obras da literatura e do cinema. Alternados com os capítulos da narrativa na primeira pessoa do singular, bastante subjetiva, há excertos de uma crônica oficial (impessoal, fria, objetiva e tosca) de fatos da época ocorridos na cidade: um recurso formal que introduz um contraste interessante, enriquecedor da obra.

Ruela inclinada em Gjirokastra. Foto: Izabiza

Telhados. Foto: Nomad Tales

A cidade, construída nas pedras, de planos inclinados e de disposição tortuosa, em que quem escorregasse em plena rua (como bem conheciam os alcoólatras) cairia não na sarjeta, mas no telhado de alguma casa, é palco de uma modorra caracterizada por hábitos quase tribais, tradição, superstição e preconceitos. A presença feminina é marcante no romance autobiográfico, com as velhas “katëndjika”, as sogras, de idades conhecidas e não tão idosas, sempre a praguejar contra as noras; e as velhas “vividas”, de idades desconhecidas, mas muitas, centenárias, com as respectivas noras já falecidas muito tempo antes.

Senhora albanesa. Foto: Izabiza

Sob ocupação fascista, a rotina transcorria na cidade com as peculiaridades da cultura local: na residência da família havia o cuidado com a cisterna, que ocupava grande área, para que nos temporais não enchesse demais, sob risco de danos à construção, e cuja escuridão interior fazia correr solta a imaginação do garoto – todos, os pais, a avó paterna, a tia, o próprio rapaz, mantinham vigilância para afastar a saída da calha se a altura da água no reservatório alcançasse o nível de alerta; os óculos eram reputados como vidros amaldiçoados pela tradição, sendo que o próprio personagem principal, “alter ego” do autor, usava-os escondido para ir ao cinema; as brigas, no bairro dos ciganos e na praça atrás da mesquita do mercado, forneciam entretenimento geral, e o matadouro era uma atração nova, com os magarefes esfolando as pobres vítimas do reino animal, assim como o aeroporto, uma novidade absoluta, construído pelos italianos; havia, ademais, os bruxedos, ou seja, os restos de cabelos e de unhas eram colhidos por algumas pessoas para fazer feitiçarias e, portanto, era preciso ter cuidado ao cortar os cabelos e as unhas.

Casas tradicionais em Gjirokastra. Foto: Alan Grant

O jovem passava temporadas na casa dos avós maternos, mais afastada da região central da cidade e na qual os ciganos costumavam tocar música na varanda. Havia também os livros grossos em turco do avô (“babazot”) – o jovem protagonista e narrador comparava a formação das formigas no quintal da casa com os caracteres turcos dos livros –, a amizade com a magricela Suzana, das redondezas, e a nova inquilina do sobrado do avô, Margarita, uma linda mulher casada. O interesse do jovem pela literatura fora atiçado não só pelos diálogos com o avô, mas principalmente pela amizade com Javer, mais velho e morador dos arredores da casa dos pais, possuidor de uma biblioteca que abarcava uma parede inteira: um dos livros emprestados por Javer, a tragédia “Macbeth”, de William Shakespeare, era motivo de sonhos e de associações com os acontecimentos vividos e testemunhados pelo rapaz. As fantasias deste eram uma espécie de antídoto contra os horrores diuturnos da guerra.

Avião americano no castelo de Gjirokastra. Foto: Elias Bizannes

Os bombardeios por parte da força aérea aliada eram frequentes e a maioria das moradias possuía abrigo antiaéreo: a casa dos pais do narrador tinha um porão com capacidade para noventa pessoas, encravado no solo, com grossas paredes devido à cisterna adjacente e um pequeno respiradouro. As ocupações militares se sucediam, sempre com alguma forma de retaliação aos membros da resistência ou aos colaboracionistas, dependendo da origem da bandeira hasteada no paço municipal: depois dos italianos, chegaram os gregos (integrantes das Forças Aliadas); então, os italianos voltaram e, posteriormente, apareceram os nazistas; por fim, a cidade ficou ao deus-dará.

Museu Nacional de Armamentos em Gjirokastra. Foto: Izabiza

Em certo momento, sob o jugo italiano, devido à intensificação dos bombardeios e à precariedade de alguns abrigos, os portões do castelo medieval da cidade foram abertos ao povo. Para o garoto, o castelo tornava concretas as impressões trazidas pela leitura recente de “Macbeth”, com as escadarias e as galerias ou calabouços sombrios, de paredes geladas e gotejantes de umidade e que serviram para abrigar o populacho.

Visão do castelo medieval (ao fundo) a partir de uma rua em Gjirokastra. Foto: Alan Grant

Foto: Mfcorwin

Aquele que viria a ser o ditador da Albânia, num dos regimes comunistas mais fechados do planeta, Enver Hoxha, originário do mesmo bairro de Kadaré em Gjirokastra, é citado em certa passagem por um personagem do romance, pois que era caçado obstinadamente pelos invasores fascistas como um perigoso “partisan” comunista. Como o livro foi publicado na Albânia em 1971 sem problemas com a censura, especula-se que a menção ao líder comunista, então no poder, teria sido uma exigência do governo. Posteriormente, nos anos 80 principalmente, o escritor deparou com muitos empecilhos para publicar sua obra naquele país, tendo que recorrer à remessa clandestina de originais ao exterior.

Amanhecer em Gjirokastra. Foto: Izabiza

Perto do final da narrativa, uma das velhas “vividas”, centenária e sobrevivente do impiedoso e constante fustigo bélico, com uma espécie de resignação atávica, pontifica com requintes de sabedoria histórica empírica: “O mundo muda com sangue. O homem muda com sangue a cada quatro ou cinco anos. O mundo, a cada quatrocentos ou quinhentos anos. São os invernos de sangue”.

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  2 Comentários para “Romance: Crônica na Pedra”

Comentários (2)
  1. O artigo desperta a vontade de ler. A história vivida parece ter o apuro próprio do que se conhece mais profundamente. A apresentação é muito bonita e atraente. A foto das casas tradicionais de Gjiroskastra lembram uma cidade meineira antiga.

  2. Quando soube de seu retorno ao Entre Culturas, corri para ler seu mais novo texto. Interessantíssimo, bem escrito como sempre.

    Sucesso e felicidade!

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