jan 032011
 
Por Adriana R. Rapeli *

José Saramago na cidade espanhola de Lanzarote, nas Ilhas Canárias, em 1996. Foto: Sebastião Salgado

Ainda não me recuperei da leitura do livro de Saramago, Todos os Nomes, de 1997. Pois eu adoeço sim lendo livros. Apaixono-me se o autor escreve ali verdades tão universais que ele sim, escreve para mim e se torna o interlocutor privilegiado de minha própria alma. Sofro da mais viva admiração e morro de inveja da sabedoria e generosidade do artista que pôde registrar sua presença no mundo e dividi-la conosco, também mortais à procura de humanidade. Adoeço (no sentido de paixão, pathos), também quando leio ou não consigo ler um mau livro, sofrendo então da mágoa pela indiferença e de raiva pela incompreensão.

A paixão por um bom livro eu reconheço na grata surpresa das primeiras páginas, o arrebatamento que me conduz ao universo mágico e que passa a ser – ou descubro ser – o meu. E a doce aflição de só querer mesmo estar dentro daquelas páginas, imersa num estado onírico. Busco de novo e de novo ler, mas, ao perceber o final do livro, a dor da separação começa a me incomodar. O livro – ou melhor, aquele sonho – vai se acabar e sei que perderei a companhia preciosa que vivi, a leitura se tornará então parte de minhas memórias.

Em Todos os Nomes, Sr. José é o único personagem que tem um nome. Todos os outros são designados pela função ou localização. Qual é a do nome Sr. José? Nome mítico, José em hebraico é “Deus acrescenta”. Ele tem o mais prosaico dos nomes, é o operário e não o criador, tal qual o José bíblico, o pai terreno de Jesus, personagem atordoado e secundário, em busca de sua história em outro livro de Saramago – o “ Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Como todos nós, ele precisará descobrir-se para se reinventar como pessoa. A epígrafe, retirada do Livro das Evidências diz: conheces o nome que te deram, não conheces o nome que tens.

Título: Todos os Nomes
Autor: José Saramago
Editora: Companhia das Letras
Ano:1997
280 páginas
ISBN: 8571647143

O Sr. José é um funcionário da Conservatória Geral, onde os todos os nomes estão registrados, onde estão arquivadas as certidões de nascimento e morte de todo (aquele) mundo. Na parte da frente do prédio ficam os vivos, em vertiginosas prateleiras, que os mais velhos vão ascendendo nas estantes a cada inclusão de um nascido, de modo que “o fim da prateleira é, em todos os sentidos, o princípio da queda. Acontece, no entanto, haver processos que, não se sabe pro que razão se agüentam na borda extrema do vazio, insensíveis à última vertigem, durante anos e anos além do que está convencionado ser a duração aconselhável duma existência humana.” Atrás se aprofundam os mortos, na escuridão e vastidão quase infinita de montes de papéis que conformam labirínticos corredores, à qual se adentra apenas conduzido por um fio de Ariadne, um cordão preso à mesa do chefe.

A organização hierárquica das mesas, a rotina burocrática, ambas rígidas e impessoais faz da Conservatória Geral o espaço kafkaniano no qual o indivíduo não se cria, perdendo-se nas generalizações. Todos – vivos ou mortos- são apenas nomes. Além de trabalhar há 26 anos – ali já se foi a metade de seus cinqüenta anos (na metade da vida?), Sr José também é o único funcionário que mora num anexo da Conservatória, o remanescente do antigo conjunto de anexos que foram demolidos para a ampliação incessante do prédio. Possui secretamente uma chave que lhe dá acesso à repartição. A sua particularidade é colecionar recortes de notícias sobre celebridades do país, pessoas que “por boas ou más razões se haviam tornado famosas”. Saramago assim explica: “Pessoas assim, como Sr. José, em toda a parte as encontramos, ocupam o seu tempo ou o tempo que crêem sobejar-lhe a vida a juntar selos, moedas, medalhas, jarrões, bilhetes-postais (…) provavelmente fazem-no por algo a que poderíamos chamar de angústia metafísica, talvez por não conseguirem suportar a idéia do caos como regedor único do universo, por isso, com suas fracas forças e sem ajuda divina, vão tentando pôr alguma ordem no mundo, por um pouquinho de tempo ainda o conseguem, mas só enquanto puderem defender a sua colecção, porque quando chega o dia de ela se dispersar, e sempre chega esse dia, ou seja por morte ou seja por fadiga do coleccionador, tudo volta ao princípio, tudo volta a confundir-se.

E o nosso Sr. José passa a fazer incursões noturnas nos arquivos à procura de mais dados para sua também secreta coleção de recortes de notícias sobre celebridades. Até que ele leva consigo, acidentalmente, prontuário de uma desconhecida. Uma mulher de 36 anos, divorciada. Sr. José lança-se então numa aventura, fora de sua rotina, fora da conservatória rigidez – “Em rigor, não tomamos as decisões, são as decisões que nos tomam a nós” diz o narrador onisciente e observador. O Sr. José ganha primeira pessoa em alguns momentos de diálogo imaginado (seu pensamento incipiente?) com seus inquisidores, ou o teto ao qual perscruta.

Há, a meu ver, um momento único, em que ele mesmo conversa e se confidencia com a senhora do rés do chão direito. Ele conta o que fez e faz de um modo até para ele misterioso. É ele agora, senhor de suas dúvidas. Nesta conversa, ele comenta a mudança que se opera nele. Não voltará à coleção de pessoas famosas: “reparando bem, a vida delas é sempre igual, nunca varia, aparecem, falam, mostram-se, sorriem para os fotógrafos, estão sempre a chegar ou a partir. Como qualquer de nós,(…) a diferença é que ninguém os faz caso. (…). E ainda: “ à conservatória só interessa saber quando nascemos, quando morremos, e pouco mais. Se nos casamos, se nos divorciámos, se ficamos viúvos, se tornamos a casar, à Conservatória é indiferente se, no meio de tudo isso, fomos felizes ou infelizes, A felicidade e a infelicidade são como pessoas famosas, tanto vêm como vão, o pio que tem a Conservatória Geral é não querer saber quem somos, para ela não passamos de um papel com uns quantos nomes e umas quantas datas”.

Mas em meio a todos os nomes, a singularidade de Sr. José começa a se fazer pela busca da mulher desconhecida. E este o seu fio de Ariadne. Essa é a sua saga. Além de José, Ariadne é o único nome que aparece. E tão mítico quanto o outro. Ariadne é quem dá a Teseu o fio que garante ele encontrar a saída do labirinto, após destruir o Minotauro. Ariadne é quem ajuda Teseu a ser herói. E é o amor é que vai dar o sentido da vida de Sr José, são fatos humanos comuns, que lhe torna célebre como homem. Saramago consegue nos envolver naquilo que todos tememos: a confusão da vida com a morte, a memória confundida com conservação de tradições e instituições mortíferas, a vida sem seu sentido mítico – heróico, sem amor nem sonho.

José Saramago e sua esposa, Pilar del Río, em Lanzarote, Ilhas Canárias. Foto: Sebastião Salgado

*Adriana R. Rapeli é psicanalista

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  5 Comentários para “Todos os Nomes: um passeio pelo labirinto de Saramago”

Comentários (5)
  1. O livro me fez mergulhar num mundo de fantasia. Ficava me indagando se esse tal Sr. José não tinha mais o que fazer… De fato, ele tinha.
    Ele queria encontrar um sentido em sua vida vazia e cheia de rotina.
    Em busca da mulher desconhecida, sem saber, o Sr. José estava a procura de sua felicidade, mesmo que imaginária.

    Amor platônico? Talvez…

    O mais incrível foi que o chefe dele se tornou um cúmplice… o que nos dá a entender que o Sr. José estava coberto de razão!!!!! a ponto de convencer o mais superior daquele ambiente imaginário…

  2. gostei muito do seu livro,
    recomendo ele para todas as
    pessoas desse mundo todo.

    Ele é muito criativo com as palavras
    e é um ótimo e belo escritor.

    Gostei da aventura dele
    é muito bela e magnífica…

    Beijos Liliana

  3. Idi,
    Já vi e achei linda a edição que vc fez. Vc foi felicíssimo na escolha das fotos, a do começo mostrando Saramago solitário (na sua saga?) e no final ele como que saindo da caverna com a (o) seu ‘pilar’.
    um beijo e obrigada de novo,
    Adriana Rapeli

  4. Não sou fã incondicional de Saramago, mas aprecio sua firmeza agnóstica, suas abordagens provocativas. Mais que tudo aprecio a fluência natural e familiaridade com a língua dos portugueses. Este dom natural talvez lhe confira um encanto na leitura que não se encontra por exemplo em Paulo Coelho.

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