fev 152011
 
Por Daniela Viana Leal*

As obras que os espaços museológicos abrigam raramente foram produzidas para estarem ali. A trajetória de cada uma conta um pouco sobre os diferentes interesses relacionados à arte, à política e às sociedades envolvidas no processo. Um exemplo interessante é o da imagem conhecida hoje como “A visão de Santo Antonio de Pádua” feita em 1663 pelo pintor espanhol, filho de portugueses emigrados, Claudio Coello (1642-1693). As habilidades desse artista na execução de obras sacras fizeram com que posteriormente fosse chamado à corte e se tornasse pintor oficial do rei Carlos II.

Claudio Coello, A visão de Santo Antonio de Pádua, 1663

O santo representado nasceu em Lisboa em 1195 sob o nome de “Ferdinando”, mas foi renomeado por “inestimável” ou Antonio. Tornou-se um dos mais eloqüentes pregadores franciscanos da igreja católica. Apesar de hoje ser mais reconhecido por ser supostamente capaz de ajudar a encontrar coisas perdidas, em vida, ficou conhecido como “malleus hereticorum” ou “martelo dos hereges” por sua postura irredutível contra as heresias. Falecido em 1231 aos 36 anos, foi canonizado no ano seguinte pelo papa Gregório IX e considerado um dos doutores da Igreja em 1946. Apesar de pouco se conhecer sobre sua encomenda, a obra pictórica em questão fazia sentido especialmente na Espanha inquisitória do século XVII.

O quadro pode ser apreciado por suas características teatrais hoje consideradas barrocas, pelos simbolismos dos elementos presentes na cena e pela beleza geral do conjunto. Afinal a clareza da representação do franciscano humilde em adoração à presença divina do menino Jesus sustentado por querubins sob um globo brilhante é ainda mais valorizada pelas capacidades artísticas de representar atmosferas e influir sentimentos.

Entretanto propomos aqui um olhar, ainda que rápido, não sobre a pintura em si, mas sobre os caminhos pelos quais a tela passou materialmente de sua criação até os dias de hoje.

As obras devocionais católicas no século XVII faziam parte de uma estrutura consolidada de parâmetros e linguagens instituídas especialmente após o Concilio de Trento. Com essa não é diferente. As emoções que suscita são cuidadosamente elaboradas e respondem a expectativas e necessidades específicas. O contexto para o qual originalmente foi pintado é fundamental para o entendimento completo da obra.

Feito no período conhecido de Época de Ouro da Espanha, quando o rei Felipe IV dominava um império onde o sol nunca se punha. Depois de várias crises, em 1835 a dissolução das ordens religiosas pelo governo espanhol colocou muitos objetos de caráter devocional no mercado de arte. O interesse renovado por esse tipo de produção durante o século XIX levou o Baron Isidore Taylor a ser um dos muitos enviados estrangeiros que aproveitou a oportunidade para a compra dessa obra a pedido do rei Frances Louis Philippe para a formação de sua Galeria Espanhola no Louvre. A peça foi rebatizada por “Visão de S. Francis” possivelmente porque tradicionalmente Santo Antonio de Pádua fosse representado durante o famoso episódio em que o menino Jesus lhe aparece em visão em cima de sua bíblia. No quadro de Coello algumas liberdades foram tomadas e o livro sagrado aparece apenas no centro inferior onde anjos o seguram parcialmente na sombra tornando possível uma interpretação confusa.

Com a deposição do rei Frances em 1848, o quadro volta ao mercado de arte e é leiloado em Londres em 1853. Em um extenso lote foi arrematado pelo rico americano Walter P. Chrysler, Jr. Dessa forma, uma mesma obra acompanhou diferentes desdobramentos históricos da Europa ocidental nos últimos quatro séculos e esta hoje exposta em Norfolk, Virginia no The Chrysler Museum of Art. Do apogeu ao declínio do poder do império espanhol, da exuberância contra-reformista à reação iluminista contra o poderio religioso, da ascensão à queda do reinado Francês, até as veleidades de gosto na arte ocidental e por fim a mudança do eixo econômico da Europa para a America com o sucesso da indústria automotiva americana a tinta sobre a tela conta muito mais que apenas a história misteriosa de uma visão celestial no século XII. Para quem consegue dispensar a atenção necessária, essa pintura conta um pouco a respeito da própria humanidade. Essa é parte do encanto da História da Arte!

*Daniela Viana Leal é arquiteta e historiadora da arte.

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  4 Comentários para “Obra e trajetória – A visão de Santo Antonio de Pádua”

Comentários (4)
  1. que legal para fazer trabalho de catequse

  2. otimo maior

  3. Muitas vezes a história que envolve uma obra de arte é tão fascinante ou mais que a própria obra. Valeu a explicação. Obrigado,

    Renato

  4. Adorei as explicações e me senti enriquecida com a oportunidade de rever certos detalhes.

    Valeu.

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