mar 212011
 
Por Sérgio Mayr

Filme: EM BUSCA DA VIDA (“Sanxia Haoren”/”Still Life”) - Diretor: Jia Zhang-ke País: China - Ano: 2006 - Elenco: Han Sanming, Zhao Tao.

A câmera se desloca vagarosamente, ao som da bela e discreta trilha sonora de Lim Giong, dentro de um barco em que se encontram chineses conversando, fumando, rindo, jogando cartas. Então, na extremidade descoberta da embarcação deparamos com o passageiro Han Sanming (mesmo nome do ator) observando a paisagem, de semblante melancólico, enquanto que o nosso olhar é o da câmera, a partir do interior do barco, e o panorama divisado pela personagem nos é sonegado. Corte. Estamos com a personagem à margem do rio Yangtzé e este pede informações aos passantes. O cenário é de ruína, em ambas as margens, com muitas construções em demolição, encostas com deslizamentos a despeito das estruturas para contenção, o ruído constante e onipresente dos motores e das buzinas das embarcações singrando o rio nos dois sentidos, o alarido das pessoas indo e vindo, um tom de urgência e fatalismo na movimentação dessas pessoas, dramas humanos sendo entrevistos pela nossa janela privilegiada para esse mundo arrasado: a lente cinematográfica, em planos-sequência de aguda beleza plástica, com a fotografia caracterizada pelo que se costuma chamar de “iluminação ou luz estourada”.

Um hiper-realismo hipnótico permeia este filme, como nos melhores exemplares da cinematografia iraniana, numa atmosfera peculiar que somente é rompida, deliberadamente, por algumas cenas surrealistas, incluída a sequência final, de beleza poética ímpar. A lentidão desta obra quase documental, mas rica em metáforas, pode fazer com que muitos a associem a um determinado tipo de cinema de arte eivado de maneirismos, sendo que os fãs impacientes das montagens cinematográficas frenéticas poderão não apreciar. Entretanto, não há clichês de nenhum tipo, não há lugares-comuns, e a câmera do cineasta não é generosa com closes e planos e contraplanos, ou seja, se duas ou mais pessoas conversam, ela não se alterna entre os interlocutores, mas explora o cenário detalhadamente e nos apresenta as minúcias dos objetos e das edificações ao redor.

A câmera parece ter total autonomia. A atividade das pessoas é de certa forma apressurada, pois alguma coisa está em radical transformação, a cidade não vai mais existir; todavia, a câmera nos impõe a lentidão para que testemunhemos tudo de forma ampla. Há, contudo, uma depuração completa na investigação do objeto cognoscível, com muito rigor formal. Nenhuma imagem é redundante, nenhum quadro é banal, nada é prescindível; tudo é essencial. A obra, no estilo da filmagem parcimoniosa em movimentos, nos transmite toda a emoção visceralmente agregada à devastação e ao desamparo: uma obra especial, adequada a uma fruição em tela grande.

A cidade é Jengjie, próxima das famosas Três Gargantas do rio Yangtzé (Changjiang) e da barragem de mesmo nome que está sendo concluída mais a jusante. Duas etapas de inundação da represa já haviam sido executadas, uma terceira e última etapa da inundação, iminente, deverá elevar o nível d’água a 156,7 metros. O aspecto anterior dos imponentes desfiladeiros fluviais pode ser contemplado em uma nota de “yuan”, a moeda chinesa, exibida por um dos interlocutores de Han.

Cena do filme mostra a ponte sobre o rio após 2ª etapa de inundação.

E aqui, uma foto de 1991 da mesma ponte, antes da construção da hidroelétrica. Foto: Kurt Groetsch (sob licença CC)

As construções da maior parte da cidade estão sendo demolidas a marretadas, minuto a minuto; as pessoas serão relocadas para uma área próxima e mais elevada, ou para lugares mais distantes. Muitas pessoas, com as moradias já submersas, residem em embarcações cargueiras. Os prédios a ser transformados em entulho são marcados com sinais em tinta branca. Os grupos de demolição labutam sem cessar, o som dos golpes das marretas e picaretas é ubíquo. Uma equipe de arqueólogos esquadrinha, açodadamente, um sítio arqueológico que revela inúmeros objetos milenares: uma cidade de dois mil anos de história, com tesouros ainda ignotos, inundada em dois anos: resume, com melancolia, o líder dos arqueólogos. Há a prostituição. Desolação, celulares e video-games. Contrastes.

Han Sanming, trabalhador nas perigosas e insalubres minas de carvão da cidade de origem, Shanxi, mostra as fotos da esposa e da filha das quais não tem notícias há dezesseis anos. Um mototaxista indica o local em que residiam, agora inundado, na margem oposta do rio, e o auxilia na busca pela família: vão ao comitê estatal de realojamento e Han acaba se integrando a uma das equipes de demolição.

Corte. Sheng Hong (Zhao Tao), enfermeira, também proveniente de Shanxi, empreende busca pelo marido que não vê há dois anos e que, como engenheiro, trabalhava numa fábrica agora desativada e ora participa da construção da obra colossal e do projeto de relocação da população.

O título original, assim como o título em língua inglesa, “Still Life”, nos remete ao que conhecemos como natureza morta. Mas é uma natureza morta de objetos e de pessoas sob o escrutínio permanente da câmera. O vazio, a incomunicabilidade e o enquadramento do espaço trazem à mente a obra do saudoso cineasta italiano Michelangelo Antonioni. A “narrativa” é dividida em partes, com subtítulos como “cigarros”, “chá” e “balas”, objetos prosaicos oferecidos pelos interlocutores das duas personagens principais, como que para subverter a perturbadora incomunicabilidade.

A China possui mais de 1.500 rios, sendo o rio Yangtzé o terceiro maior do mundo, com 6.300 km de extensão e tem grande importância para o transporte fluvial entre o oeste e o leste desse país continental. A respectiva bacia hidrográfica abrange 1.089.000 km2.

Rio Yangtzé ou Chang Jiang. Foto: Lanfranch (sob licença CC)

Gargantas. Foto: Kevin Fai (sob licença CC)

Primeira da Três Gargantas. Foto: Keith Marshall (sob licença CC)

O complexo hidroelétrico das Três Gargantas, com eclusa, um projeto acalentado desde a época de Mao Tsé-Tung, é o maior do planeta, com 26 turbinas e uma capacidade de 18.200 MW, e somente foi concluído em 30 de outubro de 2008, sendo prevista uma ampliação para 32 turbinas e uma potência de 22.500 MW.

Bela imagem em preto e branco da hidroelétrica de Três Gargantas mostrando a imensidão da barragem. Foto: Edward Jung (sob licença CC)

Vista da barragem. Foto: Edward Jung (sob licença CC)

Um país, dois sistemas divergentes: político e econômico. O desenvolvimento em detrimento de um microcosmo ecológico. Mais de 1 milhão e 300 mil pessoas foram transferidas. Fonte energética limpa, em comparação com as poluidoras usinas termoelétricas à base de carvão. Porém, houve transformações ecológicas importantes na região, o desaparecimento de sítios arqueológicos e culturais valiosos e há o risco constante de deslizamentos nas encostas da represa em que a navegação é incessante. A inundação para a formação da represa e a conclusão da imensa barragem foram registradas também em um documentário pelo cineasta.

Eclusa da Represa de Três Gargantas. Foto: Foxxyz (Flickr, sob licença CC)

Vista do complexo de eclusas. Foto: Kevin (Flickr, sob licença CC)

 

O diretor é Jia Zhang-ke, atualmente com 40 anos, e foi laureado por esta obra-prima minimalista com o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2006. Influenciado por Antonioni e Hou Hsiao-hsien, sua obra se situa entre o intimismo de Wong Kar-Wai e o cinema épico de Zhang Yimou e Chen Kaige. Na China, seus primeiros filmes foram proibidos, mas é muito prestigiado no exterior. A filmografia: “Pickpocket”, 1997; “Plataforma”, 2000; “Prazeres Desconhecidos”, 2002; “O Mundo”, 2004; “24 City”, 2008; e o recente documentário “Memórias de Xangai”.

Abaixo, uma belíssima galeria de fotos em preto e branco de um fotógrafo chinês, Zhu Handong *, feitas na região de Três Gargantas entre 2007 e 2009 (clique em Fullscreen para uma visualização em tela cheia):

Zhu_Handong

Galeria do fotógrafo chinês Zhu Handong sobre a represa de Três Gargantas na China.

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*todas as fotos sob licença Creative Commons: atribuição, uso não comercial, sem modificação

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