abr 192011
 
Trecho do Romanceiro da Inconfidência (1953)

Não posso mover meus passos
Por esse atroz labirinto
De esquecimento e cegueira
Em que amores e ódios vão:
- pois sinto bater os sinos,
percebo o roçar das rezas,
vejo o arrepio da morte,
à voz da condenação;
- avisto a negra masmorra
e a sombra do carcereiro
que transita sobre angústias,
com chaves no coração;
- descubro as altas madeiras
do excessivo cadafalso
e, por muros e janelas,
o pasmo da multidão.

Batem patas de cavalos.
Suam soldados imóveis.
Na frente dos oratórios,
que vale mais a oração?
Vale a voz do Brigadeiro
sobre o povo e sobre a tropa,
louvando a augusta Rainha,
– já louca e fora do trono –
na sua Proclamação.

Ó meio-dia confuso,
ó vinte-e-um de abril sinistro,
que intrigas de ouro e de sonho
houve em tua formação?
Quem condena, julga e pune?
Quem é culpado e inocente?
Na mesma cova do tempo
Cai o castigo e o perdão.
Morre a tinta das sentenças
e o sangue dos enforcados …
- liras, espadas e cruzes
pura cinza agora são.
Na mesma cova, as palavras,
e o secreto pensamento,
as coroas e os machados,
mentiras e verdade estão.

Aqui, além, pelo mundo,
ossos, nomes, letras, poeira…
Onde, os rostos? onde, as almas?
Nem os herdeiros recordam
rastro nenhum pelo chão.

Ó grandes muros sem eco,
presídios de sal e treva
onde os homens padeceram
sua vasta solidão…

Não choraremos o que houve,
nem os que chorar queremos:
contra rocas de ignorância
rebenta nossa aflição.

Choraremos esse mistério,
esse esquema sobre-humano,
a força, o jogo, o acidente
da indizível conjunção
que ordena vidas e mundos
em pólos inexoráveis
de ruína e de exaltação.

Ó silenciosas vertentes
por onde se precipitam
inexplicáveis torrentes,
por eterna escuridão!

Cecília Meireles

 

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  9 Comentários para “Cecília Meireles: Romanceiro da Inconfidência (trecho)”

Comentários (9)
  1. Alguem pode informar-me como posso adquirir o “Romanceiro da Inconfidência” de Cecília Meireles?
    M. Obrigado
    Helder Almeida – Lisboa

  2. quem sao os poderosos

  3. Nasci em Mariana e morei em Ouro Preto. Vi as tropas guiadas pelo sincerro da madrinha, Fogo sair no rompão de suas ferraduras, Subi e desci ladeirs centenarias – calçadas de pés-de-moleques e cambaxirras barrocas tecerem os seus ninhos em suas comeeiras seculares, “” NINGUÉM, NUNCA FOI CRIANÇA – EM SUAS RUAS DE DESENCANTO “” Branca Maria de Paula !!

  4. Mineiro que sou e que muitas vezes passei pelas ruas centenárias de Ouro Preto, seja a pé, a cavalo ou no meu carro, tenho saudade do tempo que ali vivi. O que gostaria mesmo é de passar uma noite inteira sentado numa rua qualquer dessa cidade. Não sei se a coragem bastasse quando o sino de uma igreja batesse meia noite. Quem sabe se dos morros e das casas hoje abandonadas sairiam almas dos inconfidentes, dos alferes e de mortos ilustres sem saber onde estão ?

  5. eu te amo cecilia minha mãe tem o nome iguausinho ao seu e sou a sua fan numero 1 que Deus te abençoe beijoooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooos

  6. lindo e muito romantico..parabens cecilia eu sou a sua fán numero 1 minha mae tem o nome iguausinho ao seu,beijos

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