abr 102011
 
Por Luigi Rotelli

Na aula 3 mostrei que colocar o tema principal fora de centro é uma maneira de tornar a foto mais dinâmica e interessante. Na aula 4, vimos uma técnica famosa, usada por pintores, escultores e arquitetos desde a época da construção das pirâmides do Egito: a proporção áurea.

A aula agora é sobre a diretriz de composição mais conhecida na fotografia. É tão utilizada que é chamada de “regra”: A Regra dos Terços, em inglês The Rule of Thirds e as vezes erroneamente  chamada de “golden ratio“, em confusão com a proporção áurea que, como vimos na aula passada, é diferente da proporção dos terços.

Na realidade trata-se de uma corruptela, uma simplificação da proporção áurea para tornar mais prática sua aplicação em campo. O que não significa que seja ruim. A bela foto abaixo é um exemplo perfeito de aplicação da proporção dos terços:

Foto: Anguskirk (licença CC)

A proporção dos terços é feita imaginando-se duas linhas horizontais e duas linhas verticais dividindo a foto em 3 partes iguais, tanto na horizontal quanto na vertical. Compondo os elementos visuais próximos dessas linhas imaginárias ou de seus pontos de interseção produz o que chamamos de balanço dinâmico. Ou seja, em lugar de um balanço estático, monótono, centralizado, a composição fora de centro traz uma certa dinâmica à foto. E usando uma das duas técnicas, a razão áurea ou a razão dos terços, essa dinâmica fora de centro fica balanceada, harmônica.

Na foto acima, a linha do horizonte está próxima do terço inferior e as pessoas foram posicionadas em um ponto de interseção entre as linhas do terço vertical e horizontal. Há espaço na frente das pessoas para elas caminharem, o que é uma acepção tradicional na fotografia quando o assunto está fora de centro. Se as pessoas estivessem na mesma interseção, mas em direção contrária, talvez o efeito causasse um desequilíbrio não resolvido (isso não é uma regra, porém, pois outros elementos da fotografia podem compensar e resolver este desequilíbrio).

As linhas horizontais servem para dividir volumes de forma harmônica. É possível ver claramente isso na foto abaixo. As montanhas estão entre duas camadas de nuvens. O fotógrafo compôs colocando a camada mais baixa de nuvens no terço inferior.

Crepúsculo no Monte Everest. Foto: Jeff Davids

Analisando a foto com a grade percebemos os volumes simétricos nos terços horizontais (1/3 nuvem abaixo e acima do terço das montanhas). Mas há também um balanço entre terços verticais: observe os volumes formados pelas montanhas; duas altas no terço esquerdo em balanço com a duas altas no terço direito e as mais baixas no terço central.

Em uma foto de paisagem as linhas imaginárias que dividem os terços horizontais servem como guias para situar o horizonte e podem ser usadas como linhas de ênfase. Conforme posicionamos o horizonte na linha do terço inferior ou superior, colocamos a ênfase no céu ou na terra. O horizonte no terço inferior enfatiza mais o céu:

Aurora Boreal na Islândia. Foto: Olgeir Andresson

E quando colocamos o horizonte na linha de cima, no terço superior, enfatizamos o que está acontecendo na terra, abaixo da linha do horizonte. No caso da foto abaixo, a ênfase está nas tartarugas se rastejando na areia para a desova e a linha do horizonte é virtual, está onde começa a neblina ao fundo:

Tartarugas marinhas à noite. Foto: Jose Manzanilla

Observe na foto acima que há uma outra consequência quando colocamos o horizonte no terço superior que não acontece quando o horizonte está no terço inferior. É que em razão do ângulo (a câmera está apontada para o chão deixando apenas um terço de céu), a perspectiva aumenta enormemente a sensação de distância do primeiro plano, mais próximo ao fotógrafo, até o último plano, no horizonte. E esse efeito é especialmente visível em uma foto hiperfocal (quando regulamos o obturador para a foto ficar em foco desde o ponto mais próximo até o infinito) usando uma lente grande angular. E pode ficar ainda mais interessante quando colocamos o horizonte mais alto, acima do terço (vide exemplos na aula 3).

Enquanto as linhas horizontais são rotineiramente utilizadas para horizontes, as linhas verticais são usadas principalmente quando há um assunto principal na foto, sejam pessoas, animais, plantas ou objetos. Nesse caso, posicionamos o assunto ao longo de uma ou das duas linhas dos terços verticais. No exemplo abaixo, do grande Ansel Adams, um dos maiores fotógrafos de natureza da história, o tronco da árvore de folhas claras maior está na linha do terço vertical esquerdo e a menor está na linha do terço vertical direito:

Foto: Ansel Adams

Mais abaixo, uma combinação das duas situações. O terço é aplicado tanto na linha horizontal (horizonte), quanto na vertical (assunto). O horizonte entre pedra e água está exatamente na linha do terço inferior e a mamãe ursa (assunto principal, com os filhotinhos) está na linha do terço direito.

Ursos polares. Foto: Paul Nicklen

A interseção dessas linhas resulta também em 4 pontos focais excelentes para posicionar a face ou os olhos da pessoa mais próxima, animais, insetos, flores ou um objeto qualquer que represente interesse na foto. Não precisa ser exatamente em cima, não há esse rigor. Aplique a proporção dos terços com flexibilidade.

Nessa belíssima foto, há vários elementos importantes: a luz, o rosto do pescador, os pássaros cormorões no barco (ele usa os pássaros para pescar) e as montanhas ao fundo. O fotógrafo posicionou esses elementos próximos aos pontos de interseção e o horizonte entre água e montanha próximo ao terço inferior:

Pescador na China. Foto: Chris McLennan

A composição dessa foto é belíssima, e a luz espetacular. Uma foto genial.

Usar a proporção dos terços é uma salvaguarda de baixo risco. O resultado é quase sempre agradável, harmônico, correto e por isso é muito adotada pelos fotógrafos, mas é um equívoco falar em “Regra dos Terços”. Como veremos mais para frente, há muitas outras técnicas de composição, algumas realmente espetaculares. E você usar apenas uma técnica como regra em todas as situações em detrimento de tantas outras é francamente absurdo. As técnicas de composição servem como orientação apenas e devem ser estudadas para que você saiba usar esse conhecimento na hora certa.

Voltando ao tema, ao descentralizar pessoas é preciso atentar para a expressão do corpo e a direção dos olhos. Se você coloca uma pessoa do lado direito com o corpo voltado para a direita ou simplesmente olhando para a direita a foto provavelmente não irá funcionar. Há várias excessões, dependendo de outros elementos da foto, mas o desequilíbrio dificilmente será resolvido e toda o interesse da foto ficará somente de um lado. Aqui neste exemplo o fotógrafo Anton Corbijn colocou a modelo no terço direito, mas olhando para o lado oposto, equilibrando o vazio do outro lado:

A atriz Liv Tyler em foto de Anton Corbijn

A foto funciona maravilhosamente. Essa outra foto abaixo, do mesmo fotógrafo, é muito interessante. A atriz está no terço esquerdo e todo o seu corpo está voltado para o mesmo lado, causando uma tensão, um desequilíbrio na foto que só é resolvido porque ela está olhando para trás.Veja:

Liv Tyler. Foto de Anton Corbijn

Essa tensão resolvida pelo simples olhar é fantástica. Esse cara é um craque. Além de fotógrafo, Anton Corbijn agora é também diretor de cinema. Dirigiu George Clooney no filme “Um homem misterioso” (The American, 2010). Aproveitei para colocar esta cena do filme que segue a proporção dos terços:

Cena do filme "The American", de Anton Corbijn.

Assim, ao colocar uma pessoa fora de centro, é importante atentar para a postura do corpo e dos olhos. A foto tende a funcionar melhor quando o assunto (a pessoa, o animal) está voltado para dentro da foto; se não o corpo, pelo menos os olhos. Ao  fotografar um animal correndo para a direita, por exemplo, a boa prática recomenda colocá-lo na linha do terço esquerdo de forma a dar espaço na frente para ele correr e a foto terá um bom resultado. Mas não há essa obrigação. Há outros elementos na foto que podem contrabalançar. Em um panning, técnica que você acompanha o movimento do animal enquanto faz uma exposição relativamente mais lenta que a velocidade do bicho, o resultado fica ótimo mesmo sem deixar espaço à frente, pois as próprias linhas de movimento do fundo borrado dão equilíbrio à composição (veremos isso oportunamente, em aula futura).

Para finalizar esta aula, o quadro abaixo mostra a diferença entre a proporção áurea e a dos terços:

As linhas pontilhadas representam a proporção áurea e as linhas contínuas representam a proporção os terços.

A razão áurea é raramente utilizada, mas a proporção dos terços é tão popular que no intuito de facilitar a composição algumas câmeras já tem essas linhas no visor. E no photoshop, a ferramenta de corte (crop) tem a opção de grade com terços.

Se você está iniciando na fotografia, deve tentar usar bastante essas duas proporções fora de centro e quando estiver bem treinado poderá adotá-las com mais critério e desprezá-las em vários casos para obter resultados mais interessantes ou mais dramáticos, como vimos nos vários exemplos da aula 3.

Descentralizar o tema traz um equilíbrio dinâmico em oposição ao estatismo monótono e enfadonho do tema centralizado. Todavia, por mais estranho que pareça, algumas vezes centralizar o tema pode produzir um resultado muito mais interessante e trazer uma sensação de equilíbrio e graça à composição. Próxima aula será sobre quando centralizar o assunto na foto, ou seja, vou colocar essa “regra” do terço no seu devido lugar – apenas mais uma técnica de composição como tantas outras!

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  13 Comentários para “Curso de Fotografia: Aula 5 – A Proporção dos Terços”

Comentários (12) Pingbacks (1)
  1. A foto do pescador chines quase que captura o próprio movimento.

  2. PARABÉNS PELAS EXPLICAÇÕES……

  3. Em poucas páginas proporcionou um verdadeiro mini curso de fotografia.
    Obrigado e parabéns!

  4. Nossa!!!!! Simplesmente Maravilhoso suas explicações e fotossss…Continue com as aulas, pois todos esperam anciosos, e eu tbémmmm….

    Felicidades pra ti e parabénssss

  5. Aguardo ancioso a proxima eula, parabens pelo conteúdo e iniciativa.

  6. Soube da pagina hoje e adorei, espero que continue. Conteudo de qualidade e gratuito, ja esta nos meus favoritos. Parabens pela iniciativa.

  7. Aí Luigi,
    Como sempre superando e surpreendendo!
    Mal posso esperar pela próxima aula!
    Um abraço,
    Emerson

  8. Lindo, maravilhoso, espetacular e qq outro sinônimo. Parabens mais uma vez.

  9. Desde quando comecei a me interessar pela fotografia, a uns 2 ou 3 anos ouço falar da tal ‘regra’ dos terços. Mas bem explicado e exemplificado como aqui, nunca tinha visto. Parabéns!

  10. Vou começar a praticar e depois, se ficar bom eu vou te mandar os resultados.
    Estou gostando muito do curso.

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