abr 262011
 
Por Luigi

Eu fiquei muito, mas muito impressionado de ouvir o CD “Wild is the wind” daquela que é considerada a nova diva do jazz. No encarte do CD encontrei o texto de Neil Tesser, um jornalista que há 30 anos escreve sobre jazz em Chicago. Como ele conhece como ninguém sobre o que está falando, resolvi traduzir o texto e, enquanto você lê o que ele escreveu, ligue o som para ouvir essa incrível cantora.

Com o passar dos anos, a palavra “diva” ganhou uma reputação bastante ruim. Originalmente veio do Latim divus, significando “divina”; razão pela qual, no universo da ópera italiana, tornou-se o termo padrão para cantoras de extraordinária habilidade. Mas com o tempo, algumas daquelas artistas ganharam mais renome pela personalidade exigente – ousamos dizer arrogância irracional? – que afeta muitas das pessoas brilhantes em todos os setores da vida. No final, “diva” passou a descrever pessoas que exibem tal comportamento até mesmo sem o benefício do talento; no processo, a palavra depreciou-se e passou a ser sinônimo de mesquinha, mal humorada e rabugenta e raramente um comprimento, sua veneração inicial quase esquecida.

Neste longamente aguardado álbum, Dee Alexander faz sua parte para recuperar a palavra da triste ruína na qual ela caiu.

Dee Alexander é uma diva do jazz na grandiosa e antiga acepção do termo; o fato que ela não demonstra nem um pouquinho de mau comportamento faz seus triunfos artísticos ainda mais interessantes (para registro, ela trabalha duro e sem reclamar, o que lhe valeu respeito e admiração por toda a comunidade musical em sua cidade natal, Chicago). Ela canta sem esforço, com um senso rítmico tão certeiro que ela pode se demorar em rodeios sem perder seu caminho. Ela aplica esta habilidade e facilidade para controlar a modulação, com o alvo marcado no centro de qualquer nota que ela escolha. Ela tem um poderoso instrumento de longo alcance – rouco mas não sem fôlego, doce mas não açucarado – e ela adorna-o com vibratos, floreados e qualquer outra maldita coisa que ela escolha, certa de que ela fará tudo funcionar. Ela não tem que sussurrar para cantar suave e ela não precisa gritar para ter o comando da sala. Ela canta com extravagância mas sem empáfia, e se você não acha isso digno de nota, tente nomear três outras que podem realizar o mesmo ardil.

Sua habilidade de fazer improvisos avulta, especialmente quando ela imita uma trompa. Alexander faz uma imitação de matar do trompete e do trombone, descendo ao nível dos grunhidos e máculas idiossincráticas do instrumento; neste álbum ela adiciona o violino ao seu repertório e pode também fazer uma impressão crível de um didgeridoo* (mas isso é uma outra história). Em tais momentos – quando ela abandona até mesmo as pretensões de linguagem verbal oferecidas pela técnica usado pelos cantores de jazz de cantar usando sílabas sem sentido – ela entra em um reino do pensamento musical puro que a maioria das cantoras apenas vislumbram. Suas predecessoras incluem Ella Fitzgerald, certamente.

Mas muito mais adequado, na maneira como ela canta e embebe o canto em emoção, Dee Alexander usa o manto de Dee Dee Bridgewater, que recebeu-o de Dinah Washington, que compartilhou com Sarah Vaughan – cujo apelido, afinal, era “A Divina”.

Neil Tesser, Chicago, IL.

*Nota do tradutor: Didgeridoo é um instrumento de sopro dos aborígenes australianos.

Abaixo, alguns vídeos que eu selecionei para você ver que ele não exagerou nem um pouco nas comparações. Os vídeos são de uma apresentação no Citibank Hall, em São Paulo, em 2010. Os vídeos estão em definição razoável para serem vistos em tela cheia ( há um botão no canto inferior direito de cada vídeo para expandir em tela cheia).

Dee Alexander & Evolution Ensemble.

Dee Alexander – vocal
Ernie Adams – percussão
Tomeka Reid – cello
James Sanders – violino
Janius Paul – contrabaixo

Underwater

Truth

Spring Things

Lilly’s Piano

C. U. on the other side

Sketches

 

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  5 Comentários para “Dee Alexander, a nova diva do jazz”

Comentários (5)
  1. É tudo bom. A voz o ritmo o swing e … muito bem acompanhada.

  2. simplesmente fantastico, voz forte segura um lucho

  3. Oi Luis,
    a internet aqui é tão ruim que não consigo assistir aos vídeos. Assim que estiver em solo mineiro , assistirei a todos, certamente.
    Um beijo saudoso para você.

  4. Prezado Luigi, seu site está cada vez mais. Uma constante desoberta através de suas seleções.

  5. Olhe só, a minha associação quando outro dia fui apresentada à Dee Alexander não foi com Ella Fitzgerald, mas a voz grave e a entonação que lembra um canto gospel me remeteram à Nina Simone. Muito vibrante, as músicas com ela ficam “graves”. Gostei muito.

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