abr 172011
 
Por Luigi Rotelli

Embora seja comum a crítica especializada referir-se a algum músico da mesma forma que se faz no atletismo – “esse é o maior/melhor violinista do mundo” – no meio musical felizmente não existe um critério objetivo como os 9s58 de Usain Bolt nos 100 metros rasos para definir quem é o melhor. Então não um, mas alguns violinistas são considerados os melhores do mundo. Entre os que estão no topo as diferenças não são demeritórias, são diferenças de estilo a serem celebradas. E, de fato, ouvir uma mesma obra com um e outro intérprete, ambos excepcionalmente talentosos, é um privilégio e não uma disputa para ver quem é o melhor.

Mas a memória coletiva acaba consagrando alguns virtuosos cuja fama ultrapassa as fronteiras do tempo e inscrevem sua marca na história. Paganini era um desses violinistas no século XIX. Jascha Heifetz, no século XX. E o russo Maxim Vengerov já tem lugar garantido entre eles. Não por acaso ele toca seu Stradivarius (c.1723) ex-Kreutzer com o arco legado pelo próprio Heifetz.

Uma característica que sobressai em Vengerov, além do prodigioso talento e uma técnica lapidada com trabalho duro e sacrifício, é o seu bom gosto inato na interpretação, sem excessos, sem maneirismos, sem sentimentalismos adocicados e superficiais. A par disso, ele tem uma grande empatia com o público.

Reparem no sorriso impagável do maestro nessa peça virtuosística com Maxim Vengerov tocando junto com o quarteto de cordas Bassiona Amorosa. É um misto de surpresa e satisfação de ouvir o duelo divertido e de altíssimo nível entre o violino e o contrabaixo.

Maxim Vengerov e Bassiona Amorosa tocando Csárdás, de Vittorio Monti

Nesta outra peça, Vengerov faz um duelo engraçadíssimo com o pianista:

Maxim Vengerov e Igor Uryash - “The Saber Dance” - A. Khachaturian

Vengerov (pronuncia-se em russo com acento em VenGERov) nasceu em Novosibirsk, capital da Sibéria Ocidental, em 1974. Começou a tocar violino aos 4 anos de idade por influência dos pais, ambos músicos, e aos 5 anos já dava recitais com peças de Paganini e Tschaikovsky. Seu pai, Aleksandr, era o primeiro oboísta na Orquestra Filarmônica de Novosibirsk. Sua mãe era diretora de um orfanato, mas também cantora e dirigia o coral do orfanato.

Ele conta que chegava da escola e tinha pouquíssimo tempo para brincar, pois treinava violino à tarde, depois dormia até sua mãe chegar do trabalho à noite, quando então retomava o treinamento de violino até de madrugada. Na Sibéria a temperatura fica boa parte do ano em -40ºC. O aquecimento da casa não funcionava direito, eles viviam com poucos recursos e a temperatura dentro de casa ficava próxima de zero grau. Foi nessas condições duras que ele se desenvolveu com uma impressionante disciplina e concentração.

Aos oito anos, a técnica de Maxim estava já no nível de um violinista profissional e ele memorizava peças inteiras com enorme rapidez, não importa o quão complexas fossem. Com 10 anos ele ganhou o concurso Junior Wieniawski Competition na Polônia. Aos 12 já dava concertos pela Europa e Japão e fazia gravações.

Anos atrás, Edward Seckerson, crítico especializado do jornal “The Independent” de Londres, escreveu assombrado após um concerto de Vengerov: “Paganini, dizem, foi discípulo do Diabo. De que outro modo a sua destreza sobrenatural com o arco poderia ser explicada? E de onde vinham aqueles sons? Não do corpo minúsculo do seu violino, por certo? Eu imagino que alguns ouvintes devem ter feito as mesmas perguntas durante o recital de Maxim Vengerov este ano no Festival de Edimburgo. Para seu ato final (ou era seu próximo truque?), ele escolheu a Dança dos Elfos, de Antonio Bazzini. Seus dedos efetivamente desapareceram na chuva de pizzicatos crepitando em volta do instrumento como se a atmosfera estivesse carregada de eletricidade estática. E então o arco de Vengerov entrou em cena e era como se ele estivesse tirando o som do ar. Na verdade, ele tocava com o arco de Jascha Heifetz, legado pelo grande violinista com a condição de que fosse dado ‘para o cara certo’.” Seckerson escreveu isso em 1994 quando Vengerov tinha então apenas 20 anos de idade e já era um prodígio reconhecido mundialmente. Esta peça abaixo é uma dança do mesmo compositor (Bazzini). É bom para se ter uma noção do que esse crítico viu naquela noite.

Maxim Vengerov – The dance of the Goblins (La ronde des Lutins) de Antonio Bazzini

De lá para cá, passados 17 anos, Vengerov depurou ainda mais seu talento lapidado com valiosas lições de outros dois grandes mestres da história da música: o maestro e violoncelista Mitslav Rostropovich (1927-2007), com quem desenvolveu uma profunda amizade e gravou importantes obras imortalizadas em CD; e o pianista e maestro Daniel Barenboim, atual maestro da Chicago Symphony Orchestra e seu mentor musical. Com ele gravou vários concertos em CDs e DVDs absolutamente memoráveis.

Maxim Vengerov sob a condução de Mitslav Rostropovich

Vengerov conta uma passagem com seu mestre, seu “avô musical” como ele mesmo diz: “Rostropovich ensinou-me a sentir-me responsável pela música. Ele me disse que eu tinha que sacrificar a beleza, a perfeição, pelo espírito. Na grande Passacaglia, ele disse, ‘ouça somente o tema nos baixos: esse som irá ajudá-lo a entender como você deve tocar’. E então eu me concentrei nos baixos e comecei a sentir o desenvolvimento emocional da música. Eu amadureci um pouco mais durante aqueles dias.

Submetido a uma agenda insana de concertos, Vengerov acabou, por um acidente, com uma lesão no ombro em 2007. O tratamento levou meses. Nesse período ele decidiu se iniciar como regente, seguindo os passos de seu mestre Rostropovich, em uma oportunidade para evoluir musicalmente com a visão de conjunto da orquestra. Durante 3 anos ele dedicou-se integralmente à regência.

De volta ao violino em 2011, mas com uma rotina mais saudável – interrompeu, como ele disse, uma “rotina de hamster” correndo no carrossel que já durava quase 30 anos – Vengerov continua sua evolução musical com uma visão renovada. Ele disse que mesmo as peças que ela toca desde criança tem uma nova sensação agora. Este vídeo a seguir é um trecho de um DVD recente, “Living the Dream”, tocando Wieniawski, um compositor polonês e violinista do século XIX – um grande virtuoso, considerado o sucessor de Paganini que eu realmente gosto.  Wieniawski explora o violino com incrível expressão e tem dois concertos considerados extremamente difíceis para violino. Aqui uma amostra, com uma sonata para violino e piano em excelente definição.

Maxim Vengerov toca Henryk Wieniawski “Variations on an original theme Op. 15″ em Moscow.

Vengerov tem mais de 20 CD’ solos e concertos gravados, todos, absolutamente todos, impressionantes. Uma dica: há um Box de 11 CDs de Vengerov pela Warner com os principais concertos de violino. Recomendo, assim como recomendo especialmente o DVD do Concerto de Violino de Sibelius, sob a regência de Daniel Barenboim.

Aguardem que vem muito mais Vengerov por aí. Por enquanto, deixo vocês com este belo prelúdio de Shostakovich:

Dmitri Shostakovich – Prelúdio para Violino e Piano, op.34 – M. VENGEROV e L. ZILBERSTEIN. Transcrito por D. Tsyganov.

Parte 1

Parte 2

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  4 Comentários para “Maxim Vengerov”

Comentários (3) Pingbacks (1)
  1. Vengerov é o cara, consegue expressar ideias como ninguém ao violino, sem falar na sonoridade, expressão, técnica….sou fã também, um dia gostaria de conseguir me expressar tão bem quanto ele ao violino.
    vlw
    esousa

  2. Kara vc toca demais, minha inspiraçaõ é em voce, quero ser seu aluno pra mim ser um profissional..bye bye…

  3. Maxim Maxim
    Eu sou seu fão até a morte me inspiro em você eu serei teu aluno brevemente
    continua mesmo assim
    La ronde des lutins
    bye bye

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