jun 202011
 
Por Luigi Rotelli

Slava era como os amigos chamavam Mstislav Rostropovich (1927-2007), unanimemente considerado o maior violoncelista do século XX. Ele nasceu no Azerbaijão em 1927, mas a família mudou-se para Moscou quando ele ainda era pequeno.

Rostropovich foi iniciado no piano aos 4 anos de idade com sua mãe Sofiya Nikolaevna Fedotova, uma talentosa pianista. Aos 8 anos foi para Paris para começar a estudar violoncelo com seu pai, Leopold Rostropovich, também um renomado violoncelista, aluno de Pablo Casals.

Com a morte prematura do pai, entrou aos 16 anos para o conservatório de Moscou e teve como professores compositores célebres como Serguei Prokofiev (1891-1953) e Dmitri Shostakovich (1906-1975), com quem manteve uma profunda amizade.

Viveu uma longa e extraordinária carreira, querido por todos os grandes músicos e compositores contemporâneos: “Quando ouvimos ele tocar, nós estamos na presença de uma personalidade artística profundamente fascinante. Ele abre para nós um universo sem limites através de uma performance que transborda com vida e brilha com a mais rica das cores. Ele cativa-nos completamente ao oferecer-nos o prazer do contato com a arte em sua forma mais suprema.” (Dmitri Shostakovich)

Foi também um grande maestro e trabalhou com os grandes virtuosos do mundo da música, como Maxim Vengerov, Vladimir Horowitz e Martha Algerich apenas para citar alguns. Um de seus grandes legados foi ter expandido consideravelmente o repertório de violoncelo. Em 2007, por ocasião de sua morte, um colunista do New York Times, Michael White, escreveu: “Uma reclamação constante dos violoncelistas era de que eles não tinham nenhum concerto de Beethoven ou Brahms para si, e nenhum Mozart de forma alguma, enquanto pianistas e violinistas tinham tantos. Rostropovich pediu e insistiu com compositores de distinção para escrever para ele. Prokofiev, Shostakovich, Britten, Lutoslawski, Bernstein, Penderecki, Schnittke e Walton (a lista é grande) deram a ele o equivalente a um catálogo quase completo de música para violoncelo do século XX. Rostropovich estreou 224 novas obras, de compositores grandes e pequenos.

Yo Yo Ma, outro grande violoncelista contemporâneo, completou: “E isso significa que nós violoncelistas devemos a ele talvez 40 por cento do nosso repertório atual, o que para mim é o maior legado de todos.

Somente em 1991, com 64 anos de idade, depois de gravar uma extensa discografia das principais obras para violoncelo, é que Rostropovich sentiu que finalmente tinha sabedoria suficiente para gravar a obra que ele considerava a maior glória da literatura do instrumento, as seis Suites de Bach para violoncelo solo.

Uma interpretação única, polida ao longo de mais de 50 anos, pois desde adolescente ele já tocava sem partitura as suítes de Bach.

Ele escolheu pessoalmente o local, a Basílica Sainte-Madeleine, em Vézelay, França, em função da acústica e da simplicidade de sua arquitetura românica, que ele considerava perfeita para a música de Bach. Os dois DVDs resultantes desse projeto são uma obra de arte indispensável na prateleira dos amantes da música clássica. Antes de cada suíte há um capítulo de cerca de 15 a 20 minutos cada em que ele se senta ao piano para analisar a suíte que irá tocar em seguida. A beleza e profundidade dessas análises e o conhecimento da música de Bach é sem precedentes. Essas introduções, por si só, já valeriam o DVD, ainda que não tivessem juntas as suites completas de Bach na mais perfeita interpretação já realizada com seu Duport Stradivarius de 1711, um dos mais valiosos violoncelos existente, adquirido por ele em 1974. Aqui, uma amostra do DVD, com a Suíte nº 1 para Violoncelo de Bach.

Bach – Cello Suite nº 1 in G Major – BWV 1007

Para o violoncelista Mischa Maisky, que foi seu aluno durante muitos anos, mais do que um grande violoncelista, ele foi um grande mestre: “Ele nos ensinou a lembrar que o violoncelo, ou qualquer outro instrumento, significa somente aquilo que está implícito na palavra: um instrumento para alcançar o objetivo último da música, não o contrário. Músicos estão sob tal pressão para fazerem sucesso – tocar mais alto, mais rápido, mais brilhante – que a música se torna uma maneira de mostrar como você toca maravilhosamente. Isso, para Rostropovich, era errado. O que importa é generosidade de espírito, abrir o seu coração. E o espírito dele era tão grande, seu coração tão aberto, é isso que ele nos deu em suas aulas.” Jacqueline du Pré também foi sua aluna em 1966.

A próximo concerto pertence a outro DVD que tem os dois concertos de Haydn para violoncelo, além do Concerto para Piano nº11 de Haydn. A qualidade de áudio e vídeo deste DVD é ótima e eu recomendo sua compra:

Haydn Cello Concerto nº 2 em Ré Maior – 3º mov

O próximo vídeo é uma performance considerada clássica do Concerto de Violoncelo de Dvořák.

A história deste concerto é interessante e ilustra o modo como os compositores consideravam o violoncelo em segundo plano. Segundo li no encarte do DVD o violoncelista americano Hanus Wihan, amigo de Dvorak, insistiu durante longo tempo para Dvořák escrever um concerto para violoncelo, mas ele sempre se recusou afirmando que o violoncelo era um bom instrumento orquestral mas totalmente insuficiente para um concerto solo.

Foi somente dois anos depois, em 1894, quando ele teve a oportunidade de ouvir um concerto de violoncelo de um professor do conservatório que ele dirigia,Victor Herbert, é que ele finalmente se convenceu de que poderia fazer um também.  E se inspirou no mesmo registro do 2º movimento, sí menor, para escrever o concerto inteiro entre novembro de 1894 e fevereiro de 1895. No movimento mais lento observa-se uma citação de seu canto “Lass mich allein” (op. 82) que era o favorito de Josephine Kaunitzová, o grande amor de sua vida 30 anos antes, que o rejeitou e ele acabou se casando com a irmã mais nova dela. Em maio de 1895, apenas 3 meses depois de terminar o concerto, Josephine morreu e Dvořák reformulou a conclusão do concerto para torná-lo uma homenagem à ela. Aquele canto que ela gostava ressurge então na nova coda através da flauta, clarineta e violinos, pouco antes da súbita mudança de temperamento que marca a conclusão da obra.  Dvořák observou em notas expressas que o final deveria diminuir gradativamente… “como um suspiro… então há um crescendo e as últimas medidas são assumidas pela orquestra, terminando tempestuosamente. Aquela era a minha ideia, e dela eu não posso voltar atrás.”

Seu amigo e mentor Johannes Brahms, revisou as provas da partitura do concerto para ele e a conhecia profundamente. Relatos de amigos dão conta de que Brahms teria dito impressionado: “Se eu soubesse que era possível compor tal concerto para o violoncelo, eu mesmo teria tentado fazê-lo.”  E minutos antes de ouvir o concerto com a Filarmônica de Vienna, Brahms disse a um amigo: “Hoje você vai ouvir uma peça verdadeira, uma peça de macho!”

Em 21 de agosto de 1968 Rostropovich tocou com a Soviet State Symphony Orchestra em Londres. O programa tinha como destaque precisamente esse Concerto de Violoncelo de Antonín Dvořák, cuja nacionalidade era tcheca e foi exatamente neste mesmo dia que os russos invadiram a Tchecoslováquia para por um fim à primavera de Praga, movimento liberalizante conduzido por Alexander Dubcek. Rostropovich lutava por uma arte sem fronteiras, a favor da liberdade de expressão e democracia e dizem que ele chorou muito enquanto tocava o concerto. Esta performance abaixo é de outra apresentação, com a Orquestra Filarmônica de Londres, com o maestro Carlo Maria Giulini e faz parte de um DVD de Rostropovich (vide capa abaixo) junto com o Concerto de Violoncelo nº 1 de Camille Saint Saëns.

Dvorak Cello Concerto in B minor op. 104

 

Rostropovich tocando em frente ao muro de Berlim, logo após a queda. Foto: Reuters.

No início dos anos 70, Rostropovich entrou em choque com o Kremlin. Ele abrigou em sua casa durante 4 anos o escritor dissidente Alexander Solzhenitsyn e também escreveu uma carta que foi vetada na União Soviética mas circulou no ocidente, protestando contra o tratamento ao autor e na qual discordava fortemente dos burocratas que escolhiam o que deveria ou não ser publicado. Isso lhe custou caro, pois teve seu direitos cassados e sua esposa, a soprano Galina Vishnevskaya, perdeu seu emprego na ópera de Bolshoi. Anos depois, a permissão do casal para viajar em turnês foi restabelecida com um visto de dois anos. Ele e a esposa se exilaram nos EUA e Rostropovich tornou-se diretor da National Symphony Orchestra em Washington de 1977 até 1994. Sua cidadania soviética foi cassada em 1978 e somente restabelecida em 1990, pelo Presidente Mikhail Gorbachev, a quem ele apoiou firmemente.

Discografia essencial

 

Se você quiser simplificar aí vai uma grande dica: há um box set com a gravação completa da EMI, com 26 CDs e 2 DVDs (aqueles das 6 Suites de Bach) por uma verdadeira pechincha. Eu paguei U$69,00. Dos 26 CDs, 13 são do período russo, antes de 1974. Todos os principais concertos e sonatas de violoncelo – Bach, Brahms, Dvořák, Beethoven, Strauss, Haydn, Schumann, Saint Saëns – e as obras do século XX – Villa Lobos, Stravinsky, Britten, Respighi, Astor Piazolla, Glazunov, Prokofiev e Shostakovich, entre vários outras obras para violoncelo, boa partes das quais foram produzidas para Rostropovich e estreadas por ele. Uma preciosidade e é a obra quase completa dele como violoncelista. Depois há outros como maestro, entre os quais alguns imperdíveis com o violinista Maxim Vengerov, e alguns CDs e DVDs que foram gravados pela Sony Classical e pela Deutsche Gramophone.

Oitenta anos de uma vida plena

Em 2007, ele completou 80 anos de idade. A festa de seu aniversário foi em grande estilo, no Kremlin, organizada pelo Presidente Vladimir Putin, seu grande admirador. Na ocasião, já bastante fragilizado por um câncer no intestino, ao lado de sua esposa, Galina Vishnyevsakaya, ele disse: “Eu me sinto o homem mais feliz do mundo”. Apenas 1 mês depois, o mundo deu adeus ao lendário “Slava” Rostropovich. Ele foi enterrado ao lado de seus professores, Shostakovich e Prokofiev.

 

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