jul 022011
 
Por Sérgio Mayr

O autor, Cláudio Magris. Foto: Danilo De Marco

Claudio Magris, nascido em 1939 na cidade de Trieste, é o escritor e germanista italiano, ex-senador da República Italiana (1994/1996), autor desta obra e de outras como “Microcosmos” e “Às Cegas”, e frequentemente cogitado para o Prêmio Nobel.

Companhia das Letras, 2008

Trieste, com um porto estratégico para os Aliados na 2ª Guerra Mundial, que já seria, em si, motivo de uma longa narrativa, constitui um enclave italiano desde 1918 e outrora fazia parte do Império Austro-Húngaro. A cidade já foi objeto de disputa entre a Itália e a antiga Iugoslávia, tendo sido estabelecida pela ONU em 1947 a região da cidade durante algum tempo como “Território Livre de Trieste”. Cidade natal do escritor Ítalo Svevo, de “A Consciência de Zeno”, e palco de uma importante fase na formação literária de James Joyce nos albores do Século XX (este foi professor de inglês daquele).

Como classificar a obra ora comentada ? Não é um romance na acepção comum. Trata-se de um relato de viagem, com forte conteúdo ensaístico, digressões históricas, políticas, literárias, filosóficas, enfim, culturais, e subjetivas, em que permeia uma profusa intertextualidade: um romance contemporâneo, que engloba várias vertentes da produção literária, em relação ao qual a compulsão do ser humano em categorizar ou compartimentalizar inequivocamente os produtos culturais absolutamente tende ao fracasso total. A elaboração de uma resenha convencional desta obra é tarefa árdua, quiçá impossível.

O autor-viajante-narrador-historiador-linguista-pensador-fabulador deambula, com alguns companheiros de jornada nunca mais do que superficialmente mencionados, pelas inúmeras cidades situadas ao longo do rio Danúbio, muitas de grande importância histórica, desde a nascente, no coração da Europa, até a foz, no mar Negro.

Esta escultura marca a nascente do Rio Danúbio. A real convergência do Breg e Brigach que formam o Danúbio está um pouco distante dali, mas um príncipe a queria em seu jardim. Foto: F. Delventhal

São estas algumas linhas iniciais do relato altamente digressivo: “Aqui nasce o braço principal do Danúbio, diz a placa colocada junto à nascente do Breg. Apesar dessa declaração lapidar, o debate plurissecular sobre as fontes do Danúbio ainda está aceso e é até responsável por vibrantes contendas entre as cidades de Furtwangen e Donaueschingen”. As duas pequenas cidades estão situadas na Floresta Negra, na Alemanha, e distam 35 quilômetros uma da outra. Oficialmente, as nascentes do importante curso d’água, que se estende por cerca de 2.888 quilômetros em uma bacia de 817 mil quilômetros quadrados com 200 bilhões de metros cúbicos de água, encontram-se em Donaueschingen, mas a controvérsia remonta à época do historiador grego Heródoto e perdura. Paralelos sempre foram estabelecidos com o rio Nilo: assim como em relação a este, expedições para medição e para identificação das nascentes não foram escassas.

A cidade de Donaueschingen tem o nome devido à convergência entre os rios Breg e Brigach, os dois afluentes que são a fonte do Danúbio (em alemão, Donau). Foto: Rocco Sbarra

Há a lenda, estimulada por alguns geômetras de outrora, pela qual a “divindade fluvial” tem como fonte uma simples torneira em uma casa muito antiga na primeira cidade antes referida, a montante de um prado encharcado e de alguns riachos. O autor não dá muito crédito aos vetustos boatos e especula, em tom de chiste, sobre o que aconteceria com cidades a jusante como Bratislava, Budapeste e Belgrado se a torneira fosse repentinamente fechada. O narrador, enfim, desmistifica o disparate e constata pessoalmente a inexistência da torneira no local indicado na tradição popular. A despeito disso, um dos companheiros de viagem, Amedeo, um engenheiro, cujo relatório é consultado pelo autor na exploração, é partidário da tese de que a nascente do Danúbio seria na cidade de Furtwangen, o que, se verdadeiro, adicionaria 48,5 quilômetros à extensão do portentoso rio.

Vista do outono na nascente do Danúbio. Foto: F. Delventhal

No trajeto, seguindo o curso do rio, há o castelo Sigmaringen, na pequena cidade homônima, onde os colaboracionistas do governo de Vichy, às vésperas do desastre total, se refugiaram em 1944, incluído o escritor Louis-Ferdinand Céline, reacionário que escarnecia de quem falasse em democracia, mas autor de algumas obras-primas da literatura como “Viagem ao Fim da Noite” e “Morte a Crédito”.

Schloss Sigmaringen. Foto: Salsaloco

Várias cidades alemãs em sequência, com o destaque de algumas. Ulm, a primeira capital do Danúbio, núcleo da velha Alemanha baseada no direito consuetudinário ou direito comum, que “encarna o imobilismo do privilégio contra a justiça igualitária, outras vezes reivindica as liberdades individuais contra o nivelamento totalitário – por exemplo, contra o centralismo nazista”, ostenta a catedral com a torre mais alta do mundo, com a construção iniciada em 1377 e concluída somente em 1890, e foi palco, em outubro de 1944, dos solenes funerais do marechal-de-campo Rommel, forçado pelos nazistas ao suicídio depois da conspiração malsucedida de julho daquele ano.

A cidade de Ulm. Foto: Marco M.

Regensburg, sede, a partir de 1663, da Dieta permanente (espécie de assembleia política) do Sacro Império Romano, já em plena decadência, e último destino de Kepler, tendo sido transformada a casa em que este falecera em 1630 em um museu epônimo.

Regensburg – reflexos de inverno no Danúbio. Foto: Martin aka Maha

Passagem por Regensburg. Foto: Der Bobbel

Rio Danúbio em Regensburg. Foto: Tom Haymes

Catedral de Regensburg. Foto: MoMaBi

Passau, já muito próxima à fronteira com a Áustria, na qual há a confluência de três rios, o pequeno Ilz, o grande Inn e o Danúbio, e observa poeticamente o narrador que a partir daí “o viajante sente que o correr do rio é desejo de mar, saudade da felicidade marinha”.

Passau. Foto: Michael Dawes

Passau em outra vista. Foto: Michael Dawes

Linz, a capital da Áustria Superior, com uma paisagem dominada pelas colinas, por bosques, pelas cúpulas em forma de cebola das igrejas e pelo rio que a atravessa, e marcada por uma melancolia requintada nas neves de inverno. A cidade da preferência de Hitler, que tencionava transformá-la em uma metrópole monumental danubiana com construções faraônicas a ser concebida pelo arquiteto Albert Speer e em uma espécie de refúgio para a velhice depois da consolidação de um Reich milenar; atualmente a capital industrial do país, com uma ordem doméstica mais modesta, porém mais misteriosa, poupada dos projetos grandiloquentes e vulgares do ditador alemão. Mais adiante, o “Lager” Mauthausen, o campo de extermínio, cujos fios de fumaça emanados dos fornos crematórios podiam ser divisados das embarcações que percorriam o rio à época: um dos marcos da ignomínia humana e do horror que somente livros como “É Isto um Homem?”, de Primo Levi, podem ser capazes de reproduzir em prosa.

Foto: Linz Tourismus

Foto: Linz Tourismus

Em Kierling, uma pequena aldeia logo depois da cidade de Tulln e adjacente a Klosterneuburg, há uma casa de dois andares ainda preservada em que, em um dos modestos aposentos, faleceu Franz Kafka em junho de 1924 de uma insuficiência cardíaca vinculada à tuberculose contraída em 1917 da qual viera se tratar no local que funcionava então como sanatório.

Viena, finalmente! A capital do Império Austro-Húngaro, do Imperador Franz Josef e da Imperatriz Elisabeth, a arredia Sissi, esfacelado com o fim da 1ª Guerra Mundial. Um ponto central da aventura, em que o Danúbio não é azul, ao contrário dos versos da notória valsa de Strauss, mas é louro, mais precisamente de um amarelo barrento.

Viena. Foto: Benedetta Anghileri

Igreja de São Pedro em Viena. Foto: Johann Stefan Kleistrer

O Café Central, em cujas mesas rabiscaram vadios anônimos e famosos. A casa de Ludwig Wittgenstein, o célebre filósofo da linguagem, com projeto arquitetônico arrojado. A tragédia de Mayerling: a morte misteriosa do arquiduque Rodolfo de Habsburgo e da jovem Maria Vetsera, em um pavilhão de caça em janeiro de 1889, que estimulou durante um século o “culto heróico-sentimental pelo suicídio de amor”.

Café Central em Viena. Foto: Ulrike Loehr

Em 1683, os turcos haviam chegado às portas de Viena, num dos momentos mais cruciais do confronto entre Ocidente e Oriente; porém, uma vez derrotado por Carlos de Lorena e pelo polonês Jan Sobieski o poderoso exército do Grão-Vizir Kara Mustafá, este ofereceu a cabeça aos inimigos em nome de Alá, em Belgrado, sendo que, dezenas de anos mais tarde a cabeça-troféu seria transportada para o local onde hodiernamente se encontra, o Museu Histórico de Viena, cidade que, com efeito, acabou sendo invadida pelos turcos, mas com estes não como soldados inimigos e sim como mão de obra barata. Ambos os impérios, o Austro-Húngaro e o Otomano, outrora contendores constantes, eram duas potências nos estertores, em processo irreversível de necrose, quando o projétil do atirador sérvio atingiu o arquiduque Franz Ferdinand nas ruas de Sarajevo em junho de 1914, evento desencadeador do primeiro conflito mundial do século passado e formador de uma nova ordem geopolítica.

Belvedere. Foto: Thomas Lieser

Vienna Schönbrunn Palace. Foto: Michael Dawes

A casa e o consultório, em Berggasse, 19, onde Freud inaugurou a última das ciências oriundas da Filosofia ao estudar a ambivalência do comportamento humano, interpretar os sonhos e diagnosticar o mal-estar da civilização; a casa (1913) do insigne romancista Joseph Roth, austríaco de extração judaica, autor da prodigiosa saga “Marcha de Radetzky”; a Viena, enfim, de uma Áustria de encantos inspiradores e de legados indeléveis, contudo, segundo o notável escritor austríaco e misantropo Thomas Bernhard, de “O Náufrago”, falecido prematuramente, um país brutal e ignorante, em que viceja a omissão pelos crimes da época do nazismo e subjaz um ressentimento antissemita latente. Há o mito austríaco do fiel servidor do seu senhor, pelo qual “o servidor é fiel, mas o senhor frequentemente o trai”.

Outono em Viena. Foto: Mr. Werner

Bratislava, tão perto da Áustria, antigo posto avançado dos romanos no Danúbio, cidade do alquimista Paracelso e onde começam os Cárpatos, as notórias cordilheiras da Europa Oriental. Conhecida no passado pelos artesãos e colecionadores de relógios, foi a capital do reino da Hungria até a invasão pelos turcos em 1526. A produção de vinhos brancos, uma especialidade tradicional. A Eslováquia é pródiga em castelos e torres, mas habitados antigamente por senhores feudais húngaros; aos eslovacos cabiam os casebres de madeira, palha e esterco.

Castelo de Bratislava. Foto: Miroslav Petrasko

Compasso dourado na rua de Bratislava tem inscrito as direções das principais capitais europeias e respectivas distâncias. Foto: Gilderic

Cena noturna de rua em Bratislava. Foto: Gilderic

A moderna ponte Apollo em Bratislava. Foto: Miroslav Petrasko

Budapeste é a cidade mais bela do Danúbio, que, caudaloso, a rasga ao meio em Buda e Pest. A paisagem dessa cidade magnífica remete ao sentimento da arte: uma mistura de ocaso e futuro, sendo a música de Béla Bartók o exemplo ideal que deve ser suscitado. A arquitetura é eclética, mas a opulência de uma época imperial ainda dá o tom. As pontes colossais emulam a célebre capital do rio Sena. A ilha Margarida (Margit) e as ruínas de um monastério dominicano.

Budapeste – Parlamento Húngaro. Foto: Szatmar666 (Flickr)

Budapeste, Hungria. Foto: Heinz Albers

A cidade do filósofo György Lukács e de sua grande biblioteca às margens do Danúbio. “O gigantismo metropolitano se reveste desta graça do bom tempo antigo, que parece permitir uma familiaridade provinciana e se oferece como moldura da alegria de viver, com suas avenidas à margem do rio e os extensos bulevares, nos quais a vida parece correr alegre e gloriosa, com o pulsar de uma sólida e despreocupada saúde”, nas palavras sempre precisas, porém poéticas do autor.

Ruas de Budapeste. Foto: Paolo Margari

Vista de Budapeste. Foto: Attila Magyar

Budapeste Chain Bridge. Foto: Webmink

O último imperador Habsburgo, Carlos, em 1921, tentou prorrogar aquele espírito de grandiosidade austro-húngara ao recolocar a coroa de santo Estevão na cabeça, mas não por tempo suficiente para perturbar uma partida de futebol, pois os tempos já eram outros e os ingleses o escoltaram, juntamente com a imperatriz, para um exílio permanente na ilha da Madeira. Mais ao sul, Mohács, um campo de batalha antigo cujas esculturas de madeira fincadas no solo sugerem detalhes de como os turcos de Solimão, o Magnífico, arrasaram o Reino da Hungria em 1527, extirpado do mapa durante alguns séculos. Em homenagem ao que as esculturas revelam, enquanto os pingentes metálicos da cabeça da estátua de Solimão, o Magnífico, tilintam ao vento, o companheiro de viagem, Amedeo, tira um violino do estojo e começa a executar canções ciganas.

Escultura representando o realismo socialista. Foto: Toni Kaarttinen

O rio continental então atravessa sinuosamente a atual Sérvia, antiga Iugoslávia, na região de Vojvodina, de relativa autonomia nos tempos do marechal Tito e em que convivem 24 grupos étnicos diferentes; tangencia Belgrado e alcança a região do Banato, que abrange parte da Sérvia e da Romênia. O Banato é um cadinho de povos caracterizado por uma superposição de soberanias e de jurisdições, palco de antigas escaramuças habsbúrgicas e turcas, e, mais tarde, húngaras, sérvias e romenas, em que, incentivada no século XVIII, foi predominante a colonização alemã por camponeses obstinados e operosos oriundos da Suábia (região de Ulm) que transformavam áreas pantanosas em terra fértil. Entre 1944 e 1945, entretanto, houve a emigração forçada dos germânicos, inclusive a deportação para campos de trabalhos forçados, e, atualmente, a presença alemã se restringe a uma minoria quase insignificante na Romênia, da qual desponta a romancista Herta Müller, recentemente agraciada com o prêmio Nobel.

Percurso do Rio Danúbio desde a Alemanha até o Mar Negro

Em Bela Crkva, cidadezinha encravada na fronteira com a Romênia e apinhada de igrejas católicas, protestantes e ortodoxas de rito russo, grego e romeno e cujo nome significa “igreja branca”, a longeva moradora vovó Anka, plena de vitalidade, conhecedora de muitas línguas, conta histórias saborosas e discorre para o visitante sobre uma infinidade de peculiaridades da região, incluída a incessante, mas pitoresca, cizânia entre alemães e sérvios, acentuada durante a 1ª Guerra Mundial. A anfitriã, quase nonagenária, capitaneia com disposição invejável uma excursão pelo Banato romeno, sub-região da Transilvânia, célebre por Vlad Tepes, príncipe da Valáquia, o verdadeiro conde Drácula, de Sighisoara, o empalador de inimigos, e mais ainda pelo conde Drácula ficcional, de Bistrita, do romance do irlandês Bram Stoker.

Duas garotas seguindo a pé para a cidade de Zahana, na Romênia. Foto: Domiketu

E o Danúbio segue para o leste exatamente na fronteira entre a Romênia e a Bulgária e, nesse curso, enfeixa diversas cidades como em um rosário de contas. A Bulgária é um dos países mais ignorados do Leste Europeu, sempre vinculada a conspirações mirabolantes e genocídios inexistentes e desmentidos, mas os habitantes fazem questão de exibir hospitalidade e de oferecer a “rakia”, uma formidável aguardente. O país abriga mais de 700 mil búlgaros islamizados. Em Ruse, há a casa da infância do grande escritor Elias Canetti, autor de “Auto-de-Fé”, mencionada na monumental autobiografia em três volumes, obra determinante para a escolha do Comitê do Nobel em 1981.

Bucareste não se encontra rigorosamente às margens do rio de longo percurso, é um pouco ao norte, porém merece o desvio da visita. A Paris dos Balcãs: uma cidade de multidões, bazares, grandes espaços abertos, áreas verdes e bulevares que desembocam em lagos distantes, apesar de construções em estilo soviético dos anos 50.

Bucareste. Foto: Gaspar Serrano

 

Igreja Stavropoleos – Bucareste, Romênia. Foto: Gaspar Serrano

Então, a partir da cidade búlgara de Silistra, ávido pelo destino marítimo, o Danúbio empreende a derradeira jornada Romênia adentro, em trajetória ascendente depois da longa descida desde a Alemanha.

A embarcação na qual se encontra o narrador, como em uma marcha fúnebre, adentra lentamente a área do delta do grande rio da Europa, e segue à semelhança de um tronco à deriva em um labirinto de afluentes, esteiros e riachos que se multiplicam cada vez mais estreitos e se dispersam, como num organismo agonizante, mas em meio a manifestações de vida continuamente regenerativa e exuberante, com a terra e a água em um jogo dinâmico de interpenetração: garças reais, esturjões, javalis e mergulhões, freixos e caniços, juncos, centenas de espécies de peixes e de pássaros. Um espetáculo poético-sensorial da natureza, com sons e aromas que se desprendem das linhas impressas nas páginas de papel: uma árvore arrebatada do solo apodrece na água, um abutre ataca em voo rasante um pato, o bater das asas dos pelicanos e uma moça tira a sandálias e deixa as pernas balançarem fora de um barco. É a terra dos lipovenos, pescadores de barbas longas oriundos da Rússia no século XVIII por razões religiosas, com os respectivos barcos negros às margens à guisa de animais em repouso, além das casas de madeira, barro e palha, cemitérios de cruzes azuis e as escolas em que as crianças chegam de canoa.

Áreas alagadas do Danúbio. Foto: Vienna Randonneur

 

Delta do Danúbio. Foto: Bogdan Ioan Stanciu

São três os braços principais oficiais do rio que se desfaz agonicamente em uma miríade de artérias antes de se entregar ao mar: o de Chilia, que se estende por território atualmente ucraniano em 45 bocas, com dois terços da água e dos detritos do Danúbio; o de Sulina, na Romênia, central, que avança retilineamente até o mar, de forma amplamente navegável, em virtude do canal construído entre 1880 e 1902; o de Sfîntu Gheorghe, mais ao sul, em um percurso grandemente tortuoso responsável pela extensão oficial do majestoso curso d’água. A rigor, há um quarto braço, o canal Dunavat, que se bifurca do terceiro braço mencionado, retrocede para sudoeste e desemboca no grande lago Razin, também em território romeno.

Delta do Rio Danúbio, no Mar Negro

Sulina é o epítome da desolação, do abandono, como se cenas de um filme tivessem sido registradas por uma câmera e, depois, a equipe tivesse deixado para trás cenários, figurinos e decorações de que não mais necessitavam. Uma cidade portuária que teve uma época de esplendor, pois assentada estrategicamente em rotas importantes. Na paisagem, algumas casas turcas, o farol erigido com as taxas cobradas dos navios, dunas, charcos, estaleiros ociosos e sem manutenção, entulhos de construção. Gaivotas em manobras aéreas. O mar ao fundo, de água turva e oleosa, um odor pungente de petróleo, o ar sufocante. O acesso à foz propriamente dita somente sob a vigilância estrita da Capitania dos Portos. O mar Negro. Adiante, a Ásia.

Foz do Danúbio em Sulina. Foto: Simina Lazar

O livro em escrutínio, obra mais famosa e elogiada de Magris, não é de leitura fácil ou ligeira, pois demanda dedicação exclusiva e concentração plena; não cabe entre as mãos, acima da poltrona, enquanto o locutor de algum telejornal noturno enumera os acontecimentos do dia, banais ou não, ou então sob o ruído insuportavelmente histérico dos comerciais absolutamente não criativos de algumas lojas de departamentos. O autor não poupa o leitor da erudição de literato, historiador e linguista, por vezes de forma excessiva.

Todavia, superados alguns empecilhos, o que resta é uma obra de sofisticada estrutura narrativa que deve ser desfrutada aos poucos, sem açodamento, até a beleza em estado puro do desfecho da jornada, com um vasto rol de informações culturais e geográficas que cativa a atenção do leitor e o impulsiona na excepcional empreitada por um virtual curso fluido de espaço-tempo (uma dimensão em que inúmeros eventos históricos assíncronos se sobrepõem no mesmo espaço) até o delta no mar Negro. Nos lapidares termos do próprio Magris em um trecho da narrativa, sobre como deve operar “a literatura”: “(…) a verdadeira literatura não é aquela que bajula o leitor, confirmando-o nos preconceitos e nas suas seguranças, mas sim aquela que o persegue e o coloca em dificuldades, que o obriga a refazer as contas com o seu mundo e com as suas certezas”.

Viagem pelo Danúbio. Foto: Douglas Sprott

 

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  6 Comentários para “Danúbio”

Comentários (6)
  1. Amei a historia do rio Danúbio, Donau, para os alemães! Quando estive na Alemanha fiquei apixonada pelo Danúbio e as didades medievais que ele banha. Lindas fotos com as paisagens maravilhosas.E, o romance Crônica de pedra.
    Obrigada Zilda Meu facebook Zilda Ferreira.Gostaria de ser agraciada com as postagens .Meu email: zixolly12@gmail,com

  2. Gostei muito de ver seus comentários.Meu pai nasceu na Alemanha em Floresta Negra,seu nome Karl Müller , e seu pai Guilherme Henrique Müller .Gostaria muito de saber,se a possibilidade de pelo nome achar algum parente.Se você conhecer alguém por favor me envie noticia.Obrigada, Claudet

    • Desculpem o atraso, Claudet e Vivian … o blog anda meio parado, pois seu organizador está envolvido em outros projetos … eu, como leitor contumaz da verdadeira literatura, exercitei algumas resenhas de forma diletante, mas com grande abnegação e paixão, a despeito de falhas… esperamos reativar o blog brevemente, ou seja, prover mais conteúdo, pois o prazer inigualável da boa leitura deve ser compartilhado e estimulado incessantemente.
      Tenho ascendência austríaca, pois Mayr é um sobrenome comum lá, e também na Bavária. Mas, não tenho contato com ninguém na região, ou uma maneira de entrar em contato com parentes … deve haver alguma maneira: facebook ?

      Obrigado pelo valioso feedback … Abraços!

  3. Que achado o seu blog… Estive em Budapeste e Viena esse ano e lendo o que vc escreveu me fez viajar ate la de novo, sendo Budapeste a cidade mais linda realmente…
    Parabens por todo o blog!

  4. Eu não tenho a menor dúvida de que ENTRECULTURAS é o melhor blog,site ou qualquer outro nome que se queira dar a estas tão magnificas páginas, com seus textos impecáveis e suas fotos magistrais.
    Obrigado Entreculturas

    • Obrigado, Antenor. Estamos realmente empenhados em tentar fazer o melhor que podemos e é muito gratificante saber que as pessoas estão gostando.
      Valeu demais.
      Abraços, Luigi

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