jul 012011
 

PRECISÕES

Agradam-me as portas que gemem,
As dobradiças queixosas,
As tábuas do piso que cedem e rangem
Essas letras de ferro devoradas pela ferrugem
O limo e seu verdor, a ruína do diáfano.

Nada está a salvo da vida
Porque é vida
A que cava, quebra e escurece.
Vida a umidade,
Os fungos que florescem
nos altos ângulos passivos,
vida a que rói, vida o que fere,
vida esse alento cego e sujo
que se filtra na madeira e a desfaz,
em sua pele e a seca,
na pétala e a consome.

Santiago Kovadloff

Tradução de Adriana Rapeli

 

PRECISIONES

Me gustan las puertas que gimen
Los goznes quejumbrosos
Las tablas del piso que ceden e cruyen
Esas letras de hierro devoradas por la herrumbre
El mojo y su verdor, la ruina de lo diáfano

Nada está a salvo de la vida
Porque es vida
La que cava, quiebra y oscurece,
Vida la humedad
Los hongos que florecen
En los altos angulos passivos
Vida ese aliento ciego y sucio
Que se filtra en la madera y la deshace, en tu piel y la seca
En el petallo y lo agota.

Santiago Kovadloff

 

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  4 Comentários para “Santiago Kovadloff: Precisões”

Comentários (4)
  1. Simplesmente maravilhosa e densa como certos momentos da vida.

  2. Edival, seu comentário foi muito enxuto, “preciso” demais. Senti falta de mais impressões – que costumam ser preciosas.

    • O poema de Santiago Kovadloff, ao me levar para Manoel de Barros, abriu-me uma porta para o infinito. Talvez o que escrevi não deixou claro este movimento, mas realmente acredito (e procuro sempre) o poeta que nos escancara estas imprecisões. Seu poema ilumina esta mistura: é o poema molhado pelos orgasmos da vida.

  3. Me tocam estas precisões dentro da imprecisão da vida! Vou rever Manoel de Barros.

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