ago 182011
 

Por Sérgio Mayr

Trata-se de mais uma bem sucedida adaptação cinematográfica do autor de romances intimistas Kazuo Ishiguro, nascido no Japão em 1954 e radicado na Inglaterra. A adaptação anterior para as telas, “Vestígios do Dia” (“Remains of the Day”), do livro homônimo, é uma joia da sutileza narrativa, com Anthony Hopkins e Emma Thompson em desempenhos memoráveis e a direção detalhista de James Ivory.

Este filme, lançado em 2010, dirigido com precisão por Mark Romanek e com roteiro conciso de Alex Garland, aglutina em 103 minutos de projeção o que há de melhor no romance “Never Let Me Go” de Ishiguro, de 2005, que é caracterizado por uma aguda carga de humanismo. Reputado pela revista americana “Time” como o melhor livro de ficção da última década, a obra tem passagens comoventes, mas a construção da trama extremamente lenta, à semelhança da montagem de um quebra-cabeça, às vezes rende trechos um pouco enfadonhos e o ritmo da narrativa é prejudicado.

É uma distopia, mas não futurista à maneira das mais conhecidas obras de Aldous Huxley e George Orwell, e sim passadista. E aí reside a originalidade da obra literária da qual foi vertida a película cinematográfica. Pode-se até dizer que tenha elementos peculiares de ficção-científica, embora quase subliminares, em virtude do tema abordado, que concerne a um procedimento científico muito alardeado nos nossos dias, todavia ainda incipientemente manejado pelo ser humano. Para ser mais claro, a narrativa focaliza acontecimentos ficcionais do passado que, entretanto, para nós, nesta nossa vida real de agora, têm caráter futurista. É enquadrada uma espécie de realidade alternativa, no passado e não no futuro, dos anos 70 até os anos 90.

A abordagem é bastante sóbria, sem extravagâncias, sem efeitos especiais.

As três personagens principais, Kathy (Carey Mulligan), Tommy (Andrew Garfield) e Ruth (Keira Knightley) são alguns dos jovens internos do colégio de Hailsham, de normas rígidas, porém mais progressista que os demais existentes no país (a Inglaterra). São preparados, com muito cuidado e vigilância, para uma missão a ser cumprida para a sociedade em uma etapa posterior. Não convém antecipar os detalhes, para evitar o que se chama em inglês de “spoiler”. São estimulados a desenvolver a aptidão para as artes plásticas, segundo a tese de que a arte pode revelar a personalidade de cada um. Tommy, nessa época, revela-se uma negação no campo das artes. Regularmente os trabalhos artísticos são expostos na mítica “Galeria”, para a apreciação de uma mulher também mítica, apenas vislumbrada de relance pelos “alunos”: a “Madame”.

O colégio interno fica situado no interior do país, em que as paisagens são bucólicas, idílicas. Os internos são psicologicamente manipulados para as funções de doadores (“donors”) e assistentes (“carers”). Os protagonistas agem como personagens de uma tragédia grega, resignados ao fatídico porvir.

Kathy, prestes a deixar de ser assistente, no começo do filme, rememora a relação entre os três amigos, às vezes passional, conflituosa, desde a época do internato (posteriormente desativado). Uma música é recorrente em suas lembranças: “Never Let Me Go”, de Judy Bridgewater, com uma atmosfera bastante “retrô” (canção e cantora fictícias). Clique no player abaixo para ouvi-la:

Depois de separados por vários anos, cada um no cumprimento do papel na sociedade para o qual foram preparados, o trio se reúne para um passeio com o intuito de observar um comentado barco encalhado nas areias de uma praia: uma belíssima cena. Então, como parte de um comovente desfecho, Kathy e Tommy resolvem, com alguns trabalhos artísticos deste em mãos, visitar “Madame”, no endereço descoberto de forma sorrateira por Kathy, para pedir esclarecimentos sobre a lenda dos adiamentos (“deferrals”) para casais apaixonados, disseminada entre os antigos internos durante anos.

Uma tocante reflexão sobre a condição humana, sobre ética, em que o que é deixado nas entrelinhas é mais importante. Ótimos desempenhos de Mulligan, Garfield (visto recentemente em “A Rede Social”, como o “sócio” brasileiro), Charlotte Rampling e Sally Hawkins. Keira Knightley faz bem a colega invejosa, com uma ponta de perversidade, mas tem uma atuação mais discreta.

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