ago 292011
 

Texto de José Ferreira
Fotos de Luigi Rotelli

Ao nos defrontarmos com uma obra de arte, podemos percebê-la em diversos níveis, desde uma visão mais geral até inúmeros e sutis detalhes. A sexta sinfonia de Beethoven ou o La Guilette de Renoir permitem novas descobertas toda vez que a admiramos. É como percorrer uma espiral sem fim, progressivamente mais particular e fascinante.

Veneza, uma das maiores obras de arte já construída pelo homem, é um gigantesco exemplo de como, ao analisar detalhes cada vez menores, descobrimos uma obra dentro da outra, dentro da outra e dentro da outra. Pode-se chegar a um nível tão minúsculo, que somente seria revelado por um microscópio artístico, como nos fractais da matemática que quanto mais ampliados, mais detalhes revelam.

Quando se chega à estação de trem, a visão inicial da cidade provoca um choque daqueles de marcar a vida para sempre: o Grande Canal, inusitada avenida que troca o piso de asfalto pela água, as cores ocre e terracota das construções, o contraste entre o azul do céu e o dourado dos palácios, as igrejas, as pontes, os barcos e gôndolas cruzando em todas as direções. A sensação é de um mergulho em um universo mágico e irreal. Todos os lugares parecem intrigantes, misteriosos.

A percepção “macro” da cidade se torna ainda mais estonteante com a chegada à praça São Marcos – a mais bela do mundo. A catedral é um verdadeiro espanto. Sua fachada de afrescos, colunas, estátuas e cavalos de bronze é de uma riqueza ímpar. Além do mais, ela é cercada pela gigantesca torre do campanário de uma lado e da torre do relógio do outro. O piso de São Marcos é desenhado por longas fitas simétricas que, apesar de antigo, tem um aspecto inacreditavelmente moderno. O outro lado do canal é a visão mais bonita da cidade. Está aí um dos lugares mais fantásticos da Terra.

Detalhe dos mosaicos na entrada da Basílica de São Marcos

Parte da grandiosa fachada da Basílica de São Marcos

Passada a surpresa inicial, um olhar mais aprofundado da cidade e de suas maravilhas se torna então possível. As clássicas visitas de um dia nunca serão suficientes para isso. Vejamos alguns exemplos, pinçados entre os muitos existentes: a fachada interna do palácio dos Doges.

O edifício prima pela monumental riqueza de seus salões, construídos para intimidar quem o visitasse. Porém, em seu pátio interno, na entrada do prédio, onde as pessoas cruzam apressadas, descobre-se todo um universo de belezas em suas paredes. Ali estão enormes painéis monocromáticos de mármore branco, nos quais estátuas, brasões e símbolos se alternam numa textura mágica e misteriosa, porém com algo de discreto. É necessário um segundo olhar para se notar a presença dos mesmos. Quantos artistas trabalharam ali? Quanto tempo levaram para talhar aquelas preciosidades tão à mostra e ao mesmo tempo tão escondidas? Somente essas obras merecem uma visita exclusiva, por horas a fio.

Contrastando com sua fachada externa mais casta, o interior do edifício é de uma riqueza exuberante. Na Sala do Senado, a maior de todas, uma semana de contemplação é necessária para esgotar os detalhes das pinturas e ornamentos. Os tintorettos, carpaccios e tizianos competem por nossa atenção, o que não é fácil, frente à enorme quantidade de quadros e afrescos monumentais.

Os pisos de Veneza constituem um outro conjunto de obras primas, atraindo irremediavelmente o olhar para o chão. Na catedral de São Marcos existe uma quantidade enorme de mosaicos, cada qual mais interessante. Ali, em mais de sessenta padrões diferentes, estão retratados pavões, rinocerontes, flores e inusitados desenhos abstratos que desafiam a imaginação. A combinação das cores, a qualidade dos desenhos, o ineditismo dos temas são de dar inveja a um pintor impressionista.

Outro exemplo dos fractais das artes é uma esquina qualquer de Veneza: por ela passa um estreito canal guarnecido por um parapeito de mármore. Sobre este canal existe uma ponte construída com imensos blocos de mármore de outra cor, por sua vez emoldurado por um terceiro tipo de pedra. Olhando-se para cima observa-se casas de três ou quatro andares de cor terracota. As paredes desgastadas pelo tempo são enobrecidas por molduras de mármore que tem a magia de transformar a fachada em mais uma obra de arte. As janelas são formadas por uma série de vidros redondos e justapostos e seus formatos são sempre muito variados. Os corrimões e as grades de proteção são esculpidas em bronze e são peças únicas. Parecem não existir duas iguais em toda a cidade. Somente os metais de Veneza formam, por si só, um verdadeiro museu temático.

Veneza, a “cidade com a maior concentração de coisas lindas do mundo”, é também uma escola para desenvolver esta visão fractal das coisas. Ela ensina a refletir sobre as pequenas maravilhas que nos rodeiam e que passam despercebidas pela pressa do olhar.

Cubo de fotos de Veneza

Sugiro ver a galeria abaixo ouvindo essa música do conhecido compositor veneziano Antonio Vivaldi (1678-1741) chamada “La Tempesta di Mare”:


Concerto em Fá para Flauta e Orquestra
Op. 10 nº 1 RV 433
I Musici – Severino Gazzelloni (flauta)

Para ver a galeria em tela cheia, clique nesse quadradinho do canto inferior direito      

 

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  16 Comentários para “Os Fractais de Veneza”

Comentários (16)
  1. Achei muito lindo e gostei muito de saber um pouco da estória de Veneza

  2. Não poderia deixar de falar algo sobre essa maravilha que é Veneza. Viajei para lá em Maio/2013 e muitas recordações me veêm à lembrança dessa viagem maravilhosa. Fiquei fascinado pelas belezas incontáveis ali existentes; quer sejam, artísticas, culturais, gastronômicas, etc, e o povo italiano é muito alegre e nos trataram muito bem, fazendo-se ou tentando entender uma comunicação com quem não fala a língua local. Muito lindo esse cubo de fotos e me deixou com saudades da viagem. Viajei por outras cidades também, mas Veneza era a que eu queria conhecer e não acreditei quando estava entrando à ela pelo grande Canal. Até lágrimas rolaram de meus olhos e fascinado por tão grande beleza, chorei, meio escondido dos outros, mas chorei, também porque, desde criança, no auge das músicas italianas (década de 60), eu curtia muito e disse que um dia eu faria uma viagem à Itália. Até de gôndola pelos canais, viajei, sim, porque foi uma viajem fantástica. Consegui meu sonho. Parabéns por essa beleza que é a Itália e por essa colocação das fotos muito lindas para deleite de nós que aqui os curtimos. Parabéns, novamente. Abraços…

  3. Olá
    Fiquei encantado com a imagens. É um lugar pra ser “explorado” e ser “visto” com “olhos, coração e alma”….É indescritível, fascinante. Obras de arte espalhada a céu aberto, em cada canto, sacada, maçaneta…É difícil aber para onde olhar. Lindo!
    Saudações Afetuosas!

    • Olá
      Fiquei encantado com as imagens. É um lugar pra ser “explorado” e “visto” com “olhos, coração e alma”….É indescritível, fascinante. Obras de arte espalhadas a céu aberto, em cada canto, sacada, maçaneta…É difícil saber para onde olhar. Lindo!
      Saudações Afetuosas!

  4. Venezia, patetica, unica… Dolce ricordo di 2009, quando tive o prazer de conhecer a parte histórica e suas ilhas…. Indimenticabile…. E as fotos tao bem traduzem as belezas senza fine…

  5. Realmente Venezia é de uma beleza imensuràvel, patética, única…. Sembra un dipinto a area aperta…sogno, no, é la pura verità. O primeiro impacto é andar em uma embarcaçáo para conhecer a parte histórica de Venezia e de suas ilhas, Para mim foi derradeiro, e acordei do sogno bem acordada, de olhos abertos e estupefatsos de ver tudo que eu sonhava ver um dia….

  6. Adorei!! Que bom que posso conhecer pessoas assim, obrigada meu Deus pela vida!!
    Estou levando minha querida mãe, em seus 80 anos, conhecer a tão sonhada Veneza, vou andar por lá ouvindo suas doces dicas e Vivaldi!! Obrigada pelo site, felicidades pra voçê; quero receber sempre suas novidades e poder acompanhar. Abraços

  7. Percebo que aprenderei muito lendo este site! A partir de agora será minha página inicial. Obrigado aos responsáveis por este belo serviço aos que apreciam as boas coisas da vida! Para os que como eu, estão aprendendo a apreciar, isso é um verdadeiro banquete cultural! Obrigado!!!

  8. Muito emocionante o texto sobre Veneza e sobre a vida. Vou prestar mais atenção nas coisas que me rodeiam, parabéns!

  9. Artigo e fotos são uma belíssima homenagem a Veneza. Os fractais explicam lindamente o olhar infinito diante dessa ourivesaria italiana, São Marcos, entre outras tantas e lindas praças da Itália, tem o inusitado de suas perspectivas. Sob as sombras das marquises em qualquer tempo ou luz, lá estão essas fachadas a volta díspares e harmônicas: o palácio, as torres, a catedral e o movimentado e majestoso Canal. Adorei a seleção dos detalhes, um grande presente do Entreculturas. Grazie!

  10. Que prazer imenso viajar pelo seu site.

  11. Há um quadro psiquiátrico descrito sobre o impacto estético que turistas tem em lugares como Veneza. Eu tive um deslumbramento na Praça san Marco, me lembrei da Katherine Hepburn no filme que conheci junto com a Heloisa (adorei que vc lembrou, Helô!). Ela diz: “don’t change a thing”, aludindo à perfeição, esta mesma que o José aludiu no texto. Mas o meu maior impacto, insuperável , foi o da basílica (gostei muito de revê-la nas fotos). Eu chorei copiosamente e à cada lugar que eu olhava, eu sabia que estava diante de uma maravilha.Num mundo de nossas imperfeições, parece inacreditável ver algo que resiste ao tempo como obra de arte acabada, perfeita. E ainda trazendo as marcas do tempo, as pedras gastas das calçadas, a pátina das madeiras, os desenhos da umidade das casas e até a fumaça das lareiras no palácio dos Doges compõe a complexidade de uma paisagem viva,uma cidade-museu. Afinal, obrigada pelo texto e fotos.

  12. Belissima materia, me senti de volta a esse lugar maravilhoso, as fotos sao um arraso, parabens……

  13. A descrição ficou perfeita com as fotos. Estão de parabéns Luigi e José.
    Ao ler o artigo e ver as fotos, fiquei com saudade de um fiilme, pouco conhecido, do diretor David Lean que retrata Veneza com a mesma paixão que voces, ou nós, enxergamos. O filme, com o título “Summertime”, e em portugues “Quando o coração floresce”, tem no elenco Katherine Hepburn e Rossano Brassi . É um filme delicado que conta a história de uma solteirona americana que vai de férias a Veneza e armada de uma camera filmadora registra a fascinante cidade .Lá, ela experimenta o amor e a paixão pela primeira vez.
    Vale a pena a música “Summertime in Venice”, e vale também a sugestão de ouvir a música enquanto se ve este artigo.

  14. Veneza é umas das cidades que mais me emocionaram na vida. O Zé Ferreira traduziu de maneira exemplar um pouco dos sentimentos que podemos experimentar ao conhecer esta belíssima cidade. O texto harmonizou perfeitamente com as lindas fotos do LO. Parabéns a vocês !!!

  15. Sábio texto que descreve, com paixão, todo o lado artístico e cultural desta fantástica cidade que muitos se encantam, mas onde poucos tem o privilégio e tempo suficiente para descobrir os tantos Fractais de Veneza. Parabéns pelo texto e pelas maravilhosas fotos.
    Luis Eduardo

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