dez 042011
 
Por Luigi Rotelli

Recentemente assisti dois filmes que se passam na região de Toscana: “Sob o Sol de Toscana” (Under the Tuscan Sun, 2003), da diretora e roteirista Audrey Wells, com Diane Lane; e “Cartas para Julieta” (Letters to Juliet, 2010), de Gary Winick, com Amanda Seyfried. Ambos diretores americanos com um histórico de filmes sem grande expressão.

Sob o Sol de Toscana não funcionou. A fotografia é linda, as locações gloriosas, mas as cenas são forçadas, os italianos que aparecem são estereótipos da visão bufa que os americanos têm dos italianos, o roteiro é fraco e a coisa que mais se nota é que não há a menor química entre os atores. Quase ninguém trabalhou bem no filme, o que deve ser um problema de direção. A título de curiosidade, há algumas rápidas aparições silenciosas de Mario Monicelli (1915/2010)  já velhinho, autor e diretor de algumas obras primas do cinema italiano (aparece colocando flores em uma estátua da virgem maria); e quem se salva um pouquinho é o ator Vincent Riotta, mais comedido, no papel de um corretor de imóveis.

Já “Cartas para Julieta”, segundo uma crítica que havia lido no Estadão “…é uma comédia romântica água com açúcar, despretensiosa, ideal para quem busca se distrair com algo leve. (…) O fraco e previsível roteiro não chega a incomodar e dá até pra se emocionar com a pureza de sentimentos dos personagens.” O crítico admite meio envergonhadamente que gostou do filme. Um crítico de cinema gostar de uma comédia romântica americana água com açúcar realmente não pega bem então ele precisa uma mea-culpa. Mas, no fundo, a impressão é que ele adorou o filme.

Como eu não sou crítico eu posso dizer sem culpa que o filme é uma delícia e eu me diverti do começo ao fim.

Amanda Seyfried

A previsibilidade não é um defeito. É uma bobagem alguém caracterizar se uma obra é ruim ou boa por ser previsível ou não. Senão, você nunca poderia rever um filme várias vezes porque você já sabe a história, tudo já é previsível mesmo. Aliás, se a força de um filme reside somente na imprevisibilidade, no elemento surpresa, ele será um filme ruim, porque você irá assistir uma só vez e depois não vai ter mais graça.

Cinema é uma obra de complexa harmonia entre roteiro, produção, direção, atuações, fotografia, música, maquiagem, figurino, edição, direção de arte e os efeitos de som. A força de um filme está na interação destes elementos. Se alguém reduz a um só, então é sinal de que não conseguiu enxergar todo o resto.

Cartas para Julieta é uma curiosa amostra de como, às vezes, a ficção se mistura com a realidade: uma obra ficcional baseada no fato real de que turistas do mundo inteiro vão a Verona e escrevem cartas para a famosa personagem fictícia de Shakespeare pedindo conselhos para resolver seus problemas amorosos.

O “fraco roteiro” é uma metalinguagem do que ocorre conosco na situação de espectadores de um filme ou leitores de um livro, que por algumas horas nos mantém em um estado suspenso em que a fantasia se mistura à realidade. E a fantasia permanece quando a estória acaba. A estória de Romeu e Julieta tem mais de 400 anos e as pessoas vão até hoje a Verona escrever cartas para a Julieta debaixo do balcão incrivelmente materializado pela ficção. Olha aonde chega a fantasia!

Essa associação de ficção com realidade acontece novamente, de forma sutil, com a escolha da atriz Vanessa Redgrave e Franco Nero, que viveram na vida real uma situação que se passa no filme, história que vou contar mais adiante no texto.

Para essa história fantástica, um time de bons atores foi escolhido: Amanda Seyfried (que além de linda é uma ótima atriz), Vanessa Redgrave (a grande atriz britânica, aos 78 anos, sempre maravilhosa), o mexicano Gael Garcia Bernal (de “Diários de Motocicleta, do Walter Salles”), o australiano Christopher Egan que faz o papel do neto que acompanha a avó (Redgrave) à Itália e a atriz italiana Luisa Ranieri, quem recolhe as cartas para Julieta que turistas do mundo inteiro deixam no muro em Verona, debaixo do balcão onde “aconteceu” a famosa cena de Romeu e Julieta.

Vanessa Redgrave e Christopher Egan

Gael Garcia Bernal faz o papel de um chef de cozinha que está montando seu próprio restaurante.

E a bela Luisa Ranieri

As cenas da Itália são um deleite do começo ao fim. E o filme, quase um road movie (assim chamado o gênero de filmes que se passam na estrada), passeia por paisagens e cidades da Toscana com uma fotografia maravilhosa.

A uma certa altura, quando a viagem estava chegando ao final, meu pensamento resistia em deixar aquela fantasia, eu estava viajando junto. Pouco importa que a gente saiba em alguns momentos o que vai acontecer em seguida; você sabe e é tão gostoso que você quer continuar vendo de novo e de novo, como uma criança que pede para repetir a história. Vivemos desde criança na ficção. Nosso mundo vem da nossa imaginação.

A premissa principal do filme, em si, é fantástica: a história ficcional do amor impossível de Romeu e Julieta ainda acende a imaginação das pessoas no mundo inteiro, mais de 400 anos depois. As mocinhas chorosas que deixam as cartas pedindo conselhos para Julieta aparecem aos montes em Verona, vindas de todas as partes do mundo.

A inteligência do filme está ainda em outros elementos que estão fora do roteiro. Como é o caso da história da personagem Claire, a elegante avó, viúva, que viaja da Inglaterra para a Itália 50 anos depois para tentar reencontrar um grande amor vivido na juventude, Lorenzo Bartolini. Ocorre que há dezenas de Lorenzo Bartolinis na Itália, mas quem ela busca, com a ajuda de Sophie (Amanda Seyfried), é o personagem vivido pelo ator Franco Nero.

A escolha destes dois grandes atores do cinema é uma emocionante homenagem do diretor a uma história real de um ardente caso de amor, seguido de uma longa separação e um reencontro décadas depois na velhice, uma coincidência fortuita entre a arte e a vida e, no filme, como na vida, justamente de uma britânica com um italiano.

Franco Nero e Vanessa Redgrave em uma cena do filme que se passa em uma casa lindíssima na Toscana

Vanessa Redgrave, uma deusa do cinema, excelente atriz já desde o princípio de sua carreira na Royal Shakespeare Company, vem de uma família de atores britânicos e uma longa e produtiva filmografia (para citar apenas alguns, Blow up, de Michelangelo Antonioni e Howards End, de James Ivory). Ela se divorciou do diretor Tony Richardson em 1967, quando ele a deixou com duas filhas pequenas para ficar com a atriz Jeanne Moreau.

Redgrave em uma cena de Blow-up, de Antonioni

Naquele mesmo ano, Redgrave conheceu o ator italiano Franco Nero (o famoso cowboy de olhos azuis de Django, 1966) enquanto filmavam Camelot, nos papéis de Guinevere e Lancelot. O romance se prolongou na vida real e produziu um filho, Carlo Gabriel Nero, nascido em 1969. Mas acabou ali e desde então eles ficaram décadas sem se falar. De 1971 a 1986 Redgrave teve um longo relacionamento com o Timothy Dalton (outro excelente ator e um “007”).

Vanessa Redgrave e Franco Nero em cenda do filme “Un tranquillo posto di Campagna”, de 1968

Franco Nero tem também uma longa e produtiva carreira como ator, tendo sido descoberto por John Huston e trabalhado com ótimos diretores europeus, como Luis Buñuel, Rainer Werner Fassbinder, Claude Chabrol e Marco Bellocchio.

Franco Nero como Django, famoso Spaghetti-Western de 1966

Redgrave e Nero na vida real reencontraram-se na velhice, mais de três décadas depois e finalmente se casaram em 2006, em uma cerimônia familiar, e o filho deles, Carlo, foi quem colocou as alianças. E, é digno de se notar, os dois envelheceram muito bonitos.

Foto do casal fora das telas de cinema

A casa de Julieta com o famoso balcão saiu da ficção para a realidade na década de 30, por obra de um imaginativo senhor apaixonado pela história de Shakespeare.  A varanda é parte de um edifício do século 14 que foi outrora a casa da família Cappello, cujo nome teria inspirado possivelmente os Capuletos da peça de Shakespeare. Ela foi construída na década de 30 e tornou-se um ponto de atração turística. Mocinhas do mundo inteiro, com problemas amorosos, escrevem cartas pedindo conselhos a Julieta e deixam no muro. A comuna de Verona mantém desde aquela época um grupo de funcionárias para recolher e responder todas as cartas.

E tem ainda as deliciosas cenas de degustação de Victor (Gael Garcia Bernal), que quase não acredita nos aromas e sabores que ele experimenta na Toscana.

Somente as paisagens da Itália, a bela arquitetura das casas, jardins e as cidades que aparecem já valem o filme, que se inicia em Verona, região de Veneto, bem ao norte mas depois foi quase inteiramente filmado na Toscana, em locações próximas a Siena e a Montalcino, onde se faz o famoso vinho Brunello. Alias, o filme é uma declaração de amor à Toscana, a beleza de seus vinhedos, suas cidades, os sabores e é claro, aos vinhos, que são uma presença constante nas cenas. Aconselho a ver, ou rever, em Bluray, tomando um bom vinho da Toscana. Diversão garantida. E no final, mesmo se você não gostar do filme, o vinho terá valido a pena.

 

Curiosidades históricas:

Redgrave, além de grande atriz, era ativista política e financiou um documentário “The Palestinian”, em 1977, em apoio à causa palestina. Quando foi nomeada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante em 1978, no filme Julia, no papel de uma mulher assassinada pelos nazistas, membros da Liga de Defesa Judaica (JDL), liderada pelo rabino Meir Kahane, fizeram piquetes na cerimônia do Oscar e queimaram retratos para protestar contra Redgrave.

Vanessa Redgrave e Tariq Ali durante a guerra do Vietnã

As duas filhas de Redgrave com Richardson, Natasha Richardson e Joely Richardson, também se tornaram respeitáveis atrizes.

Vanessa Redgrave, Joely Richardson e Natasha Richardson

Natasha Richardson, Vanessa Redgrave e Joely Richardson no ano 2000

Natasha, que era esposa de Liam Neeson, faleceu em março de 2009, em um acidente de ski, apenas dois meses antes de Vanessa começar a filmar Cartas para Julieta. Estava distintamente sofrida. Em 2010 ela perdeu um irmão e uma irmã, Corin e Lynn, ambos atores também. A revista TIME escreveu: “Em meio a essa turbulência pessoal, o mais recente filme Redgrave é um romântico momento de trégua”.

Vanessa Redgrave com a filha Natasha

Carlo Gabriel Nero, filho de Redgrave e Nero é hoje diretor de cinema.

Redgrave com o filho, Carlo Gabriel Nero

Vanessa Redgrave é filha de Sir Michael Redgrave. Laurence Olivier anunciou seu nascimento para o público em uma apresentação de Hamlet no teatro, quando disse que Laertes (interpretado por Sir Michael) tinha tido uma filha.

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  11 Comentários para “Cinema com Vinho: Cartas para Julieta”

Comentários (11)
  1. Sera que consigo saber os locais onde foram gravadas as cenas de Cartas para Julieta?

    Gostaria de saber o nome das ruas e as localidades exatas onde as principais cenas fora feitas.

    Quero ir para a Italia e ver o local real de onde foram feitas as cenas deste filme delicioso, que ja assisti mais de 30 vezes.

    Abraços

    Lucio

  2. áGUA COM AÇUCAR. ADOREI. JÁ REVI VÁRIAS VEZES.. ALÉM DA HISTÓRIA ROMÂNTICA, OS LUGARES SÃO FANTÁSTICOS. EM MAIO PRÓXIMO VIAJAREI PARA A TOSCANA E COM CERTEZA IREI ME DELEITAR COM ESTES LUGARES.

  3. Fiquei emocionada com a estoria agua com açucar, porem linda, estou indo a Toscana para viver e sentir as delicias do lugar. Perfeito!!

  4. eu adoro muito musicas classicas nao inpota de q pais desde q sege boa eu aqui ainda nao tive ao portunidade de asistir alguma ate o momento epero conseguir ate o momento eaquardo

  5. Existem outros dois filmes realizados na Toscana:
    ‘Chá com Mussolini’ também com Vanessa Redgrave e Judi Dench
    e ‘Beleza Roubada’, de Bernardo Bertolucci com Liv Tyler.
    estes já são considerados cult.

    Imagino que tanto filmes de Ingmar Bergman, Godard, Truffaut,
    como muitos outros diretores europeus e orientais que são ontológicos,
    tidos como imensamente respeitáveis, mas… que alguns mais recentes,
    merecem igualmente nosso apreço porque cada um deles
    têm a intenção mesmo de mostrar o cotidiano, o óbvio, para que observemos
    bem as criticas neles contidas, é questão de agudeza do olhar,
    ou melhor, olhar e ver!
    Estereótipos fazem parte de culturas distintas,
    e são para evidenciar a alguns espectadores que estão adentrando
    no conhecimento da arte cinematográfica e… também
    porque o espectador precisa de ‘leveza’ vez em quando, claro, isto exclui,
    trabalhos mal elaborados, mas não podemos julgar que ‘o simples’
    é para ser olvidado por nós mortais! afinal está intrínseco também
    em nossas vivências, (no mínimo em nossas observações),
    podemos observar a partir do zênit ao nadir! explica tudo.

    • Outro dia revi “Chá com Mussolini”. Um filme agradável e interessante. Ele só peca realmente em algumas cenas muito escuras, que a gente mal consegue distinguir os personagens. As vezes durante longos segundos mal dá para ver os olhos. Já Beleza Roubada eu assisti faz tempo, me lembro do personagem de Jeremy Irons à beira da morte, apaixonado pela bela Liv Tyler. Boa lembrança, vou rever esse filme.

  6. Que lixo de filme, isso não é cinema é novela, mais clichê impossível

    • As pessoas tem diferentes percepções sobre um filme. Algumas vezes o problema está no filme, outras vezes nos olhos de quem vê.

    • Nestes tempos de tanta violência, precisamos de alimentar nossa alma, e nosso coração de bons sentimentos. Usufruir de momentos com a família, ou com a pessoa amada, assistindo um filme tão bom quanto “Cartas para Julieta” é um privilégio. Entendo que para conseguirmos apreciar esse tipo de filme temos que estar com o coração aberto. Recomendo o filme, mas para quem realmente está com o coração aberto para entender os bons sentimentos como o amor, a gratidão, o desapego, e tantos outros que a humanidade precisa cultivar.

  7. eu acho a estoria linda

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