dez 182011
 
Por Luigi Rotelli

Em 2007, o jornal Washington Post fez uma experiência para testar a capacidade de reação do público à beleza: convidou um dos maiores virtuoses do mundo, o violinista Joshua Bell, com o seu Stradivarius de 1713 avaliado em 3,5 milhões de dólares, para tocar no metrô, na estação L`Enfant Plaza no centro de Washington, no início da manhã, no horário de pico.
Respeitado no mundo inteiro, considerado o maior violinista americano da atualidade, os concertos com Joshua Bell são disputados, com ingressos acima de cem dólares. Entretanto, na estação de Metro foi praticamente ignorado pela esmagadora maioria das mais de mil pessoas que passaram à sua frente durante esse período de tempo.

A excepção foram as crianças, que, inevitavelmente, e perante a oposição do pai ou da mãe, queriam parar para escutar Bell, algo que, diz o jornal, pode indicar que todos nascemos com poesia e esta é depois, lentamente, sufocada dentro de todos nós.

A experiência suscita a questão: as pessoas estão ficando indiferentes ao belo, ou é apenas a arte fora de contexto?

Joshua Bell – Tema do filme Il Postino

Ouvi Joshua Bell a primeira vez no CD “Bernstein- The West Side Story Suite”. Acostumado a ouvir CDs de audiófilo extremamente bem gravados, tive um dos maiores impactos auditivos até hoje. A dinâmica que Joshua Bell impôs entre pianíssimos e fortes, entre o mais baixo e o mais alto registro alcançados pelo violino, o médio cheio do Stradivarius e o agudo como um fio delicado, que alcançava o limiar superior da audição humana, a execução impecável e a qualidade excepcional da gravação foi uma das mais arrebatadoras experiências sonoras que eu já tive.

Assistir um vídeo na internet é, em si, uma experiência de arte fora de contexto. O som do computador é sempre muito ruim (comparado a um equipamento de alta fidelidade), a tela de computador é pequena, a resolução de áudio e vídeo tem uma compressão muito forte e provavelmente o ambiente não é apropriado para uma audição, com muitos ruídos em volta. Não faz juz a um virtouso do violino tocando um Stradivarius. É diferente de ouvir ao vivo em uma sala de concerto, ou ouvir como eu ouvi ele a primeira vez, em um CD Player tão bom que funciona como um telescópio Hubble, tamanha a miríade de detalhes que ele consegue tirar dos bits e bytes encriptados no disco, ligado em amplificadores e caixas high end (termo usado no meio audiófilo para equipamentos de máxima qualidade).

A internet serve para conhecer o músico para que depois, comprando os CDs, DVDs e Blurays originais, com um equipamento de som e imagem de alta qualidade, se possa ter uma experiência mais completa. Mas ainda assim, é possível reconhecer o belo. Veja esse próximo vídeo, gravado para o lançamento de um recente CD de Joshua Bell, com uma das mais belas interpretações que já ouvi das Quatro Estações, nome como são conhecidos os primeiros quatro concertos para violino do Il cimento dell’armonia e dell’inventione de Antonio Vivaldi.

Joshua Bell – As quatro estações - “Verão” III. Presto

Gene Weingarten, jornalista do Washington Post, analisou a experiência com Joshua Bell no metrô no artigo  “Pearls before Breakfast”. Foi tão bem escrito que ganhou o Prêmio Pulitzer em 2008.  É um longo artigo do qual eu selecionei algumas partes. Entre um trecho e outro, coloquei vídeos de Joshua Bell  ilustrando. Vale a pena ler:

Pearls before Breakfast
Texto de Gene Weingarten

Ele desceu do metrô na estação L’Enfant Plaza e encostou-se numa parede ao lado de uma cesta de lixo. Por quase todos os critérios, era um sujeito que não chamava a atenção: um homem branco, mais ou menos jovem, vestindo jeans, camiseta de manga comprida e boné do time de beisebol Washington Nationals. De uma caixa, ele tirou o violino. Deixando a caixa aberta no chão, na frente dos pés, teve o cuidado de plantar ali algumas notas de 1 dólar, e várias moedas, para atrair mais dinheiro. Girou o corpo, para ficar de frente para o fluxo dos pedestres e começou a tocar.

Eram 7h51 da manhã, da sexta-feira, 12 de janeiro, hora do rush matinal. Ao longo dos 43 minutos seguintes, enquanto o violinista executava seis peças clássicas, 1.097 pessoas passaram à sua frente. Quase todos estavam a caminho do trabalho que, no caso da grande maioria, era um emprego público. A L’Enfant Plaza fica no núcleo da área de Washington ocupada pela administração federal, e ali transitam burocratas de nível médio, com os seus títulos um tanto indeterminados e estranhamente intercambiáveis: analista de projeto, gerente de iniciativa, programador de orçamento, especialista, consultor, supervisor.

Cada um dos passantes precisava fazer uma escolha rápida, uma escolha habitual para os usuários do transporte coletivo em qualquer área urbana, onde artistas de rua fazem parte da paisagem: parar e escutar? Acelerar o passo com uma mistura de culpa e irritação, incomodado com a inesperada demanda feita ao seu tempo e dinheiro? Jogar 1 dólar na caixa aberta, só por educação? E a sua decisão muda, se o músico for muito ruim? E se for muito bom? Temos tempo para a beleza? Não devíamos ter? Qual é a matemática moral desse momento?

Naquela sexta-feira de janeiro, essas questões particulares seriam respondidas de maneira incomumente pública. Ninguém sabia, mas aquele tocador de violino, de pé junto à parede nua, na galeria subterrânea de acesso à estação do metrô, perto do alto da escada rolante, era um dos melhores instrumentistas eruditos do mundo, executando algumas das mais elegantes peças musicais jamais escritas, num dos violinos mais valiosos jamais fabricados por mãos humanas. A apresentação foi encomendada pelo Washington Post como uma experiência em matéria de contexto, percepção e prioridade – além de servir para uma avaliação inapelável do gosto do público: num cenário banal e numa hora inconveniente, a beleza conseguiria transcender?

O instrumentista não executou melodias populares cuja familiaridade, por si mesma, bastasse para atrair o interesse dos passantes. O teste era outro. Apresentou obras-primas que resistiram aos séculos apenas pelo seu brilho, música sublime condizente com a imponência das catedrais e das grandes salas de concerto.

A acústica se mostrou surpreendentemente favorável. Embora a galeria tenha sido construída com fins utilitários, para servir como área de passagem entre a escada rolante do metrô e as calçadas do lado de fora, de alguma forma ela conseguia capturar o som do violino, para espalhá-lo redondo, rico em ressonâncias. Muito já se disse sobre a semelhança entre o violino e a voz humana. Nas mãos de mestre daquele instrumentista, ele soluçava, ria e cantava – sublime, lamentoso, importuno, adorador, volúvel, implacável, brincalhão, apaixonado, alegre, triunfal, suntuoso.

E então, o que vocês acham que aconteceu?

Fizemos esta pergunta a Leonard Slatkin, diretor musical da National Symphony Orchestra. O que ele achava que ocorreria, hipoteticamente, se um dos maiores violinistas do mundo começasse a tocar incógnito para uma platéia de mais ou menos mil passantes, na hora do rush?

“Vamos supor”, respondeu Slatkin, “que ele não seja reconhecido, e que todo mundo ache que ele é mesmo só um músico de rua… Ainda assim, se ele for realmente muito bom, não vai passar despercebido. Juntaria um público maior na Europa, é verdade, mas… está bem, das mil pessoas, o meu palpite é de que umas 35 ou 40 reconheceriam a qualidade do que estavam escutando. E que, talvez, de 75 a 100 parassem para passar mais algum tempo ouvindo.”

Quer dizer que iria juntar gente?

“Ah, claro.”

E quanto dinheiro ele conseguiria recolher?

“Uns 150 dólares.”

Obrigado, maestro. Mas na verdade não estamos falando de um caso hipotético. Aconteceu realmente.

“E os meus palpites, passaram perto? E quem era o músico?”

Joshua Bell.

“Não!!!”

Ex-menino prodígio, aos 39 anos Joshua Bell é um virtuose internacionalmente consagrado. Três dias antes de se apresentar na estação do metrô, Bell enchera o majestoso Symphony Hall de Boston, onde assentos apenas razoáveis foram vendidos por 100 dólares. Duas semanas mais tarde, no Music Center de Strathmore, em North Bethesda, ele tocaria para uma platéia lotada e dominada por tamanho respeito pela sua arte que sufocava a tosse até nas pausas entre os movimentos. Mas naquela sexta-feira de janeiro, Joshua Bell era apenas mais um pedinte, competindo pela atenção de passantes apressados, a caminho do trabalho.

A idéia tinha sido apresentada a Bell pela primeira vez pouco antes do Natal, em torno de um café numa lanchonete da área do Capitólio. Natural de Nova York, ele estava em Washington para se apresentar na Biblioteca do Congresso e visitar os cofres da biblioteca, a fim de examinar um tesouro fora do comum: um violino do século xviii que pertencera ao virtuose e compositor austríaco Fritz Kreisler. Os curadores convidaram Bell a tocar aquele violino; e o som ainda estava ótimo.”

Joshua Bell playing Fritz Kreisler’s Liebesleid and Liebesfreud. (Love’s Sorrow and Love’s Joy)

… Era Bell quem tocava na trilha sonora do filme O Violino Vermelho, de 1998. (E também aparecia em pessoa, tocando para uma Greta Scacchi nua.) Quando o compositor John Corigliano recebeu o Oscar de Melhor Trilha Sonora Original para o filme, agradeceu a Bell que, disse ele, “toca como um deus”.

Quando perguntamos a Bell se ele aceitava tocar na hora do rush, vestindo roupas comuns, ele perguntou: “Como um dublê?”. Bem, sim. Um dublê.

Um fato biográfico intrigante acerca de Bell é que ele recebeu as suas primeiras aulas de música aos 4 anos de idade, em Bloomington, Indiana. Seus pais, ambos psicólogos, decidiram que algum aprendizado formal podia ser uma boa idéia depois de verem que a criança tinha prendido elásticos de borracha aos puxadores das gavetas da cômoda e vinha replicando melodias clássicas de ouvido, empurrando e puxando as gavetas para mudar as notas.”

… Bell sempre se apresenta com o mesmo instrumento, e desistiu de usar algum outro na ocasião. Chamado de Gibson ex-Huberman, foi feito à mão, em 1713, por Antonio Stradivari, durante o “período de ouro” do mestre italiano, perto do final da sua carreira. Foi, quando Stradivari teve acesso aos melhores cortes de madeira de espruce, bordo e salgueiro, e quando sua técnica fora refinada à perfeição.

Joshua Bell. Foto de Timothy White

… Como o instrumento do filme O Violino Vermelho, o de Bell tem um passado de mistério e peripécias. Foi roubado duas vezes do seu ilustre proprietário anterior, o virtuose polonês Bronislaw Huberman. A primeira vez, em 1919, desapareceu do quarto de hotel de Huberman, em Viena, mas foi devolvido pouco depois. Da segunda vez, quase vinte anos depois, foi furtado do seu camarim no Carnegie Hall. E ele nunca tornou a ver o violino. Foi só em 1985 que o ladrão – um violinista menor de Nova York – confessou o roubo à mulher no leito de morte, e apresentou o instrumento.Bell comprou o violino poucos anos atrás. Precisou vender o Stradivari que já possuía e obter boa parte do resto do dinheiro por meio de um empréstimo.Dizem que o preço foi 3,5 milhões de dólares.

Joshua Bell no Concerto de Gala do Prêmio Nobel de 2010

Tchaikovsky, Concerto for violin and orchestra in D major, Op. 35
First movement, Allegro moderato
Joshua Bell, violin - Sakari Oramo, conductor - Royal Stockholm Philharmonic Orchestra

… Naquela sexta-feira, as pessoas que faziam fila na loteria para tentar ganhar alguma coisa iam tirar a sorte grande – uma entrada gratuita e de primeira fila para o concerto de um dos músicos mais famosos do mundo.Mas só se eles tivessem condições de se dar conta disso.

Bell decidiu começar a apresentação com a Chaconne da Partita No. 2 em Ré Menor de Johann Sebastian Bach. Para ele, a Chaconne não é só “umas das músicas mais lindas jamais escritas, mas uma das maiores obras humanas. É uma peça de grande força espiritual, poderosa do ponto de vista emocional e estruturalmente perfeita. Além disso, foi escrita para violino solo, de maneira que não vou apelar com alguma transcrição feita nas coxas”.

E Bell não disse, mas a Chaconne de Bach também é tida como uma das peças para violino mais difíceis de dominar. Muitos tentam; poucos conseguem. É exaustivamente longa – catorze minutos – e consiste inteiramente de uma única progressão musical sucinta, repetida em dezenas de variações, de maneira a criar uma arquitetura sonora de complexidade assustadora. Composta em torno de 1720, às vésperas do Iluminismo europeu, é considerada uma celebração do alcance das possibilidades humanas.

Pois foi com a Chaconne que Bell começou.

E sem dúvida estava falando sério quando prometeu não sacrificar em nada o seu desempenho. Tocou com entusiasmo acrobático, inclinando o corpo para acompanhar a música e erguendo-se nas pontas dos pés nas notas mais altas. O som era quase sinfônico, espalhando-se por todas os cantos da feia galeria enquanto os pedestres não paravam de transitar.

Três minutos transcorreram antes que alguma coisa acontecesse. Sessenta e três pessoas já tinham passado quando, finalmente, registrou-se a primeira reação. Um homem de meia-idade alterou suas passadas por uma fração de segundo, virando a cabeça para dar-se conta de que parecia haver ali um sujeito tocando música. É verdade que não parou de andar, mas já foi alguma coisa.

Meio minuto mais tarde, Bell recebeu sua primeira doação. Uma mulher jogou 1 dólar na caixa e seguiu seu caminho, apressada. A apresentação já durava seis minutos quando alguém realmente parou e encostou na parede, para ouvir.

Mas as coisas nunca chegaram a ficar muito melhores. Nos quase três quartos de hora que Joshua Bell tocou, sete pessoas pararam o que estavam fazendo para ficar por perto e acompanhar a música por, pelo menos, um minuto. Vinte e sete deram dinheiro,- totalizando 32 dólares e trocados. O que nos deixa com 1 070 pessoas que passaram por ali às pressas, sem perceber nada, muitas a apenas 1 metro do músico, poucas nem sequer virando o rosto para olhar.

Toda a experiência foi gravada em vídeo, por uma câmera oculta. Acelerada, a fita se transforma num desses filmes mudos de atualidade da época da I Guerra Mundial. As pessoas passam correndo aos saltos ou aos arrancos, com copos de café nas mãos, telefones celulares no ouvido, crachás sacudindo na barriga, uma sinistra dança macabra em honra da indiferença, da inércia e da pressa cinzenta e enlouquecida da modernidade.

Mesmo nesse ritmo acelerado, porém, os movimentos do violinista continuam fluidos e graciosos, e ele parece tão diferente do seu público – invisível, inaudível, sobrenatural – que você se surpreende pensando que na verdade ele não estava lá. Era um fantasma. E é só então que você percebe. Era ele o único real. Os outros é que eram os fantasmas.

Pearls Before Breakfast – o vídeo resumido da experiência do Washington Post

… Se um músico extraordinário toca músicas extraordinárias mas ninguém escuta… será que ele é mesmo extraordinário?

Eis um debate epistemológico bem antigo – mais antigo, na verdade, que o koan sobre a queda da árvore na floresta (se uma árvore cai na floresta e não há ninguém para ouvir, ela produz algum som?). Platão já falava dele, assim como filósofos de dois milênios depois. O que é a beleza? Será um fato mensurável (Gottfried Leibniz), meramente uma opinião (David Hume) ou um pouco de ambos, matizado pelo estado de espírito imediato do observador (Immanuel Kant)?

Vamos ficar com Kant, porque ele está obviamente certo, e porque ele nos leva quase diretamente a Joshua Bell, sentado num restaurante de hotel, tomando seu café-da-manhã, tentando descobrir, com um seco senso de humor, que diabos tinha acontecido naquela saída do metrô.

Joshua Bell e Awadagin Pratt tocam “Tzigane”, de Maurice Ravel
White House Evening of Classical Music em novembro de 2009

 

“Quando você toca para um público pagante”, explica Bell, “você já foi validado. E nem me passa pela cabeça que eu precise ser aceito. Eu já fui aceito. Mas ali, o que me passava pela cabeça era: “E se eles não gostarem de mim? E se ficarem irritados com a minha presença?”.

Em suma, Bell era uma obra de arte sem moldura. O que, conforme veremos, pode ter muito a ver com o que aconteceu – ou, mais precisamente, deixou de acontecer – nesse dia 12 de janeiro.

Pelas mãos de Mark Leithauser já passaram mais obras-primas de arte do que pelas mãos de qualquer rei, papa ou membro da família Medici. Curador-chefe da National Gallery, é ele quem supervisiona o emolduramento dos quadros. Leithauser acha que tem alguma idéia do que aconteceu naquela estação de metrô.

“Digamos que eu pegasse uma das nossas obras-primas mais abstratas, por exemplo, um Ellsworth Kelly, tirasse da moldura, descesse com ele os 52 degraus que as pessoas costumam subir para chegar à National Gallery, e o levasse até um restaurante. É um quadro que vale 5 milhões de dólares. E o restaurante é um desses onde se encontram obras de arte originais à venda, pintadas por algum jovem muito produtivo da Escola de Corcoran. E digamos que eu pendurasse o Kelly na parede e pedisse 150 dólares por ele. Ninguém iria reparar. Um curador de arte, talvez, poderia bater com os olhos no quadro e dizer: ‘Olhe só, aquele quadro parece um pouco com as coisas de Ellsworth Kelly. Passe o sal, por favor’”.

O que Leithauser quer dizer é que não devemos nos apressar em rotular os passantes do metrô de insensíveis sem sofisticação. O contexto é sempre importante.

Kant diz a mesma coisa. Ele levava a beleza a sério. Na Crítica da Faculdade do Juízo, Kant afirma que a capacidade de apreciar a beleza está relacionada à nossa capacidade de formular juízos morais. Ele fazia uma advertência. Paul Guyer, da Universidade da Pensilvânia, um dos mais proeminentes estudiosos de Kant dos Estados Unidos, afirma que o filósofo alemão do século XVIII sentia que, para apreciar devidamente a beleza, as condições em que ela era vista precisavam ser as melhores possíveis.

“E as melhores condições possíveis”, observa Guyer, “não ocorrem a caminho do trabalho, pensando no relatório que precisa ser apresentado ao chefe, talvez com os sapatos apertados.”

Para entender o que aconteceu, precisamos voltar a fita e assisti-la de novo. desde o começo, desde o primeiro momento em que o arco de Bell encostou nas cordas.

Um sujeito branco, calças cáqui, casaco de couro, pasta. Trinta e poucos anos. John David Mortensen está na última etapa da sua viagem diária de ônibus-e-metrô para o trabalho. Está subindo a escada rolante. É uma subida demorada – um minuto e quinze segundos se você ficar parado no mesmo degrau. Assim, como a maioria das outras pessoas que passa por Bell nesse dia, Mortensen já ouvira um bom trecho de música antes de vislumbrar o instrumentista pela primeira vez. Como a maioria deles, percebe que a música soa muito bem. Mas como muito poucos deles, quando chega ao alto, não passa às pressas como se Bell fosse um obstáculo incômodo a evitar. Mortensen é a primeira pessoa a parar – o sujeito da marca dos seis minutos.

E não que não tivesse mais nada a fazer. Mortensen é diretor de projeto de um programa internacional do Departamento de Energia e, naquele dia, precisava participar de um exercício mensal de orçamento, que não é a parte mais estimulante do seu trabalho. “Você passa em revista as despesas do mês anterior”, diz ele, “prevê os gastos do mês seguinte.”

No vídeo, dá para ver Mortensen saindo da escada rolante e olhando em volta. Ele localiza o violinista, pára, começa a se afastar, mas é atraído de volta. Verifica a hora no celular – está três minutos adiantado para o trabalho – e se encosta numa parede para escutar.

Mortensen não conhece nada de música clássica; o máximo a que chega é rock clássico. Mas o que ouviu tem alguma coisa de que gosta muito.

Na verdade, ele chega ao alto da escada no momento em que Bell começa a segunda parte da Chaconne. (“É o ponto”, diz Bell, “em que ela passa de um tom menor, mais triste, para um tom maior. O que transmite um sentimento religioso, de exaltação.”) O arco do violinista começa a dançar; a música fica acelerada, alegre, teatral, grandiosa.

Mortensen não entende nada de tons menores ou maiores: “Não sei o que era”, diz ele, “mas eu me senti em paz.”

E assim, pela primeira vez na sua vida, Mortensen pára para ouvir um músico de rua. Fica ali os três minutos de que dispunha, enquanto 94 pessoas passam apressadas. Pela primeira vez na vida, sem saber direito o que tinha acontecido, mas sentindo que tinha sido especial, John David Mortensen dá dinheiro a um músico de rua.

Joshua Bell e Sharon Isbin tocam Cantabile, de Niccolò Paganini,  no “White House Evening of Classical Music” em novembro de 2009

O poeta Billy Collins certa vez observou com humor que todos os bebês nascem conhecendo poesia, porque a batida do coração da mãe forma um iambo (unidade rítmica do poema, formado por uma sílaba átona e uma sílaba tônica). E então, disse Collins, a vida começa a sufocar aos poucos a poesia que havia em nós. O que também pode se aplicar à música.

Não há um padrão étnico ou demográfico que possa diferenciar as pessoas que ficaram para ouvir Bell, ou as que deram dinheiro, da vasta maioria que seguiu o seu caminho apressado, sem tomar conhecimento do músico. Há brancos, negros e asiáticos, jovens e velhos, homens e mulheres, representados nos três grupos. Só existe um grupo demográfico cujo comportamento foi sempre consistente. Toda vez que uma criança passava, tentava parar para assistir. E, toda vez, o pai ou a mãe não deixava.

Joshua Bell toca Noturno  em Dó menor, de Frédéric Chopin


Havia também Calvin Myint. Myint trabalha para a Administração de Serviços Gerais. Chegou ao alto da escada rolante, virou à direita e enveredou direto por uma porta que dava na rua. Algumas horas mais tarde, não tinha a menor lembrança de que houvesse um músico tocando em qualquer lugar por onde passou.”Onde ele estava, em relação a mim?””Pouco mais de 1 metro de distância.”

“Ah.”

Myint não tem qualquer problema de audição. Mas estava com fones enfiados nas orelhas. Ouvindo o seu iPod.

Para muitos de nós, a explosão da tecnologia, em vez de expandir, limitou de forma perversa nossa exposição a novas experiências. Cada vez mais, quem nos dá as notícias são fontes que pensam como já pensávamos. Com os iPods, ouvimos o que já conhecíamos; somos nós que programamos a lista do que vamos ouvir.

A canção que Calvin Myint estava ouvindo era Just Like Heaven, do conjunto de rock inglês The Cure. A canção, na verdade, é maravilhosa. Seu significado é um pouco opaco, e podem-se encontrar na internet muitíssimas tentativas esforçadas de desconstruí-la. Algumas são bem exageradas, mas outras são pertinentes. A canção fala de uma trágica desconexão emocional. Um homem encontrou a mulher dos seus sonhos mas não consegue exprimir a profundidade dos seus sentimentos antes de ela ir embora. A canção fala da incapacidade de vermos a beleza claramente exposta diante dos nossos olhos.

Joshua Bell e Frankie Moreno – Eleanor Rigby dos Beatles


“Que é essa vida se, com tanto a fazer, Não temos tempo para parar e ver?” – do poema Leisure, de W. H. Davies.Se não podemos tirar algum tempo das nossas vidas para parar um momento e escutar um dos melhores músicos do planeta tocando algumas das mais belas peças musicais que já foram escritas; se o impulso da vida moderna nos domina a tal ponto que ficamos cegos e surdos para uma coisa dessas – o que mais não estaremos perdendo?Eis o que quis dizer o poeta galês W. H. Davies em 1911, quando publicou os versos acima, que o tornaram famoso. A idéia era simples, até mesmo primitiva, mas de algum modo ninguém nunca a formulara antes com a mesma clareza. Claro, Davies tinha uma vantagem – uma vantagem perceptiva. Ele não era comerciante nem trabalhador braçal nem burocrata nem consultor nem analista de sistemas nem advogado trabalhista nem gerente de programa. Ele era um vagabundo.

Digamos que Kant tenha razão. Vamos aceitar que, depois de olhar o que aconteceu em 12 de janeiro, não possamos emitir qualquer juízo quanto à sofisticação das pessoas ou à sua capacidade de apreciar a beleza. Mas e a sua capacidade de apreciar a vida?

Somos ocupados. Os americanos em geral vivem ocupados desde pelo menos 1831, quando um jovem sociólogo francês chamado Alexis de Tocqueville visitou os Estados Unidos e ficou impressionado, espantado e um tanto desanimado por saber o quanto as pessoas daqui eram movidas pelo trabalho duro e a acumulação de riqueza.

E as coisas não mudaram muito. Assista ao DVD de Koyaanisqatsi, o filme vanguardista sem palavras de 1982, brilhante e assustador, sobre a velocidade frenética da vida moderna. Com o apoio da música minimalista de Philip Glass, o diretor Godfrey Reggio usa trechos de filme em que mostra os americanos cuidando dos seus afazeres diários, mas acelera a ação até o ponto em que eles passam a lembrar máquinas de linha de montagem, robôs marchando com passos marcados rumo a lugar nenhum. E agora assista ao vídeo da L’Enfant Plaza, em fast forward. A trilha sonora de Philip Glass se encaixa perfeitamente.

“Koyaanisqatsi” é uma palavra hopi, e significa “vida desequilibrada”.

O herói cultural do dia chegou a L’Enfant Plaza com bastante atraso, na figura nada impressionante de um certo John Picarello, um homem baixo de cabeça calva.

Picarello chegou ao alto da escada rolante logo depois que Bell começara seu número final, uma reprise da Chaconne. No vídeo, pode-se ver Picarello parar completamente, localizar a fonte da música e então se dirigir para o lado oposto da galeria. Ele assume posição ao lado da banca de engraxate, em frente à fila da loteria, e não moverá um músculo pelos nove minutos seguintes.

Como todos os passantes entrevistados para este artigo, Picarello foi abordado por um repórter logo depois de deixar a estação, e lhe pediram o número do seu telefone. Como em todos os casos, disseram-lhe que era para um artigo sobre os transportes coletivos. Quando lhe telefonamos mais tarde naquele mesmo dia, a primeira pergunta que fizemos foi se alguma coisa fora do comum tinha lhe acontecido a caminho do trabalho. Das mais de quarenta pessoas contatadas, Picarello foi o único a mencionar de imediato o violinista.

“Havia um músico tocando no alto da escada rolante na L’Enfant Plaza.”

“E o senhor nunca tinha visto um músico ali?”

“Não como este.”

“Como assim?”

“Era um violinista soberbo. Nunca ouvi ninguém daquele calibre. Era tecnicamente perfeito, com um fraseado muito bom. E também estava tocando um bom violino, com um som cheio e rico. Eu me afastei um pouco para ficar ouvindo. Não quis invadir o espaço dele.”

“É mesmo?”

“É. Foi uma experiência fora do comum. Foi um presente, um modo maravilhoso, incrível, de começar o dia.”

Picarello conhece música clássica. É admirador de Joshua Bell, mas não o reconheceu. Não tinha visto nenhuma foto recente do músico e, além disso, ficou quase o tempo todo bem longe. Mas sabia que quem estava tocando não era um músico qualquer. No vídeo, dá para ver Picarello olhando em volta de vez em quando, totalmente desconcertado.

Quando Picarello era jovem, em Nova York, estudou seriamente violino, com a intenção de tornar-se concertista. Mas acabou desistindo aos 18 anos, quando concluiu que nunca chegaria a ser bom o bastante para valer o esforço. Às vezes você precisa fazer a escolha mais prudente. E ele escolheu outra linha de trabalho. É supervisor nos Correios. E não toca mais muito violino.

Quando foi embora, conta Picarello, “deixei humildemente 5 dólares”. E foi mesmo humilde, o que dá para ver claramente no vídeo. Picarello se aproxima, mal olhando para Bell, e deixa cair a nota na caixa. Depois, como que encabulado, afasta-se a passo rápido do homem que no passado desejara ser.

Joshua Bell, Renaud Capuçon and Daniel Harding perform Ysaÿe

O disco mais recente de Joshua Bell, The Voice of the Violin (“A Voz do Violino”), recebeu a costumeira aclamação da crítica. (“Uma urgência delicada.” “Uma intimidade de mestre.” “Invariavelmente extraordinário.” “Um apogeu musical.” “… fará seu coração disparar e chorar ao mesmo tempo.”). No mês de abril, Bell recebeu o prêmio Avery Fisher, consagrando o pedinte da L’Enfant Plaza como o melhor instrumentista de música clássica dos Estados Unidos.

 

Eu não sei quanto a vocês, mas eu tenho absoluta certeza que, ainda que não o conhecesse, eu teria parado e ficado até quando pudesse. Como disse um amigo meu que também adora música, teria sido atraído pelo som do violino como naqueles desenhos animados em que os personagens saem flutuando atrás de algum cheiro. Por muito menos já deixei passar 2 estações ouvindo uma acordeonista dentro do metrô.

Leia mais sobre Joshua Bell no site oficial www.joshuabell.com

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  12 Comentários para “Joshua Bell – Pérolas pela manhã”

Comentários (12)
  1. Esse texto é expressando o que sinto pela música, você pode olhar?
    http://rascunhonopapel.blogspot.com.br/2012/12/music-is-love.html

  2. Nossa, parabéns pelo seu trabalho =)
    Gostei muito mesmo… ‘ Será que você poderia dar uma olhada nesse blog aqui e avaliar, ele esta começando agora: http://vidasnamusicaerudita.blogspot.com.br/
    se quiser dar uma olhadinha no meu também, eu agradeço, http://rascunhonopapel.blogspot.com.br/ o meu são apenas textos, que como a música são sentimentos, mas cada um tem uma forma de demonstra-los, uns tocando, outros pintando e outros escrevendo’ Parabéns, seu trabalho é ótimo.

    P.S: os dois blogs são recentes, não tem muito tempo de uso mas garanto que o conteúdo é bom para uma menina de 17 anos e para um menino de 18.

  3. Simplismente maravilhoso,,, depois dessa materia comprei meu violino e vamo a luta….

  4. Parabens pela materia. Eu adoro Joshua Bell e realmente o texto e os videos foram muito bem selecionados.
    Gostaria que constinuassem saindo na Internet mais videos das apresentacoes mais recentes. Se tiver, continue anexando, por favor.
    Um abraco.
    Patricia

  5. os videos sao muito boms, o cara se espressa muito bem comforme a musica, é uma mistura de ideia com sentimento q rola junto a musica, eu sou um apaixonado por musica
    e o q ele faz ai, pra mim nao é soh uma musica qualquer, é uma forma de expressao valiosissima de pensamento. tah de parabens !

  6. Ótimo, adorei a história, parabéns!

  7. Artista sensacional, fantástico!!! Matéria maravilhosa. Com certeza não serei mais a mesma depois desssa matéria!!! Parabéns!!!!

    • Obrigado Fernanda. Do lado de cá, só sei quantas pessoas estão visitando, mas não sei se estão gostando. O comentário é um retorno de que tudo está bem e que todo o trabalho está valendo a pena.

  8. Matéria e experiência simplesmente fantásticas. Faz-nos refletir sobre a nossa própria conduta e prioridades na vida, e o quanto estamos nos tornando insensíveis para as belas coisas da vida. Parabéns!

  9. muito bonito

  10. muito bacana barabens

  11. Fantastico optar por fazer esta apresentacao, eh uma experiencia cujo resultado realmente faz pensar… Gostei!!!

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