fev 042012
 

 

Foto tirada com dupla exposição em câmera, trocando de grande angular para teleobjetiva sem girar o filme, com compensação ajustada para paisagem e lua . Título: Island Moon © Peter Scott Eide
Texto de Luigi Rotelli
Fotos de Peter Scott Eide ©

A natureza impressiona os olhos com uma infinita quantidade de cores e uma intrínseca variedade de formas de troncos, folhas, flores, insetos, pássaros, animais, pedras, rios, montanhas. A variedade e as cores entretêm os nossos olhos.

Mas o mundo real é visto por nós em quatro dimensões e cinco sentidos: a visão complementada pelos cheiros da terra, da chuva, das flores, os sabores das frutas, o barulho da água, de folhas no vento e dos pássaros, a sensação de frio e calor, de tocar o vento, a água envolvendo todo o corpo. Quando fixamos essa impressão em duas dimensões apenas, a imensa variedade permanece, mas desprovida do tempo, da profundidade e das sensações.

E quando nossos olhos, abastecidos pela abundância de cores e formas, se fartam com tanta diversidade, encontramos alívio e conforto com um certo grau de regularidade e uniformidade. É essa compreensão que um bom fotógrafo tem ao compor as três dimensões com o tempo e registrar a luz.

Serpente © Peter Scott Eide

A estética, a reflexão a respeito da beleza sensível e do fenômeno artístico, solicita um delicado balanço entre princípios antagônicos de uniformidade e diversidade, entre a simplicidade e a complexidade de padrões e texturas, entre dimensões e proporções. Há uma tênue linha que divide o bom gosto do mau gosto, dimensões apropriadas ou exageradas, proporções delicadas ou grosseiras, a apurada simplicidade e o excesso de variação.

É difícil encontrar esse equilíbrio. Em todas as artes, na arquitetura e na decoração, na escultura e na pintura, na música e na fotografia, o exato balanço entre complexidade e a simplicidade e a exata relação entre dimensões é que faz a diferença entre o belo e o feio, entre o delicado e o tosco, entre o elegante e o vulgar. É uma linha muito tênue e não é difícil atravessá-la. Somente a sabedoria, o conhecimento e o olhar cuidadoso conseguem alcançar um ponto de equilíbrio, unindo árduo trabalho ao talento inato, como ocorre à maioria dos grandes artistas.

Paisagens extremas – o gelo semelhante a estalactite na borda do lago, o céu dramático em fluxo e o gelo quebrado no lago. Wild World © Peter Scott Eide

Por dez anos ele fotografou o Lago Superior, na divisa entre os Estados Unidos e o Canadá,  na solitude do inverno. Ao comprar o seu livro, “Edge of Forever, images of Lake Superior” fiquei absolutamente impressionado.

Quero apresentar a vocês o fotógrafo americano Peter Scott Eide, que abstraiu das cores para que nossos olhos pudessem encontrar a beleza das formas e texturas, o exato balanço entre a uniformade e a diversidade e o equilibrio tonal perfeito. Vocês verão aqui um material de rara beleza, como a simplicidade de um capim transformado em obra de arte pela maestria do fotógrafo em registrar a perfeita gradação de luz. O pedaço de tronco que parece uma serpente, a árvore milenar retorcida, o contraste entre a neve lisa e o tronco rugoso, a água sinuosa que serpeia até o lago, o céu tempestuoso, as curvas da margem, o contraste entre a calma e a tensão… cada foto uma obra de arte.

O sublime minimalismo dessa foto, com uma luz absolutamente perfeita. Winter Solitude © Peter Scott Eide

As fotos registram a vastidão do espaço do imenso lago que tem 560Km de extensão e 257Km de largura, um mar de água doce. Registram a vastidão do tempo: da remota origem daquelas rochas que remontam a bilhões de anos ao lago relativamente recente, de apenas 10.000 anos, formado pelo degelo do último período glacial, até os confins do tempo futuro. Essa sensação é recorrente nas fotos. Uma sensação de infinitude.

Assim como o tempo infinito, a beleza é atemporal, impressão que perdura na luz fenomenal sobre as formas em intrigante harmonia com o inverno inóspito. Ele fotografou tudo usando filme negativo e câmeras de médio formato Contax e Mamiya, lentes Zeiss e Mamiya e tripé e cabeça de tripé Bogen.

Spirit Tree © Peter Scott Eide

Resultado de inúmeras excursões em temperaturas extremas em uma paisagem exótica na solidão do inverno; trabalho árduo, carregando um pesado equipamento, ele registrou tanto o instante luminoso como o fluxo do tempo, em uma composição cuidadosa de formas e texturas. E tornou as fotos em uma obra de arte de beleza que transcende o tempo, que descansa os olhos.

Eu sugiro ver a galeria em tela cheia, ouvindo o Prelúdio da Suite nº 5  de Bach para Violoncelo Solo. Essa suite em escala menor tem uma estrutura harmônica muito bonita, fornecendo um ponto de tensão após o outro mas com a dose certa de resolução. Há nas fotos pontos de tensão similares: o céu dramático, o gelo encrispado, o lago revolto, o tronco que se lança ao infinito. Mas há também a resolução dessa tensão com a neve lisa, a longa gradação de tons e os longos tempos de exposição usados para registrar o fluxo da água e das nuvens. Ouça o Prelúdio na bela interpretação de Yo Yo Ma. Acho que tem tudo a ver com as fotos.

 

Edge of Forever – Images of  Lake Superior

Peter Scott Eide

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É outra experiência visualizar essa galeria em tela cheia. Sugiro clicar em FULLSCREEN ↗

São fotos para se colocar na parede da sala, no mesmo status de uma pintura, pois a beleza não extenua, resultado cuidadoso de um olhar estético. Peter Scott Eide é, em minha opinião, um dos grandes fotógrafos de nosso tempo, sucessor legítimo de Ansel Adams. Por sinal, ele usou dos ensinamentos do mestre, fotografando tudo com fotometria pontual, usando o método criado por Adams chamado de “Zone System” (Sistema de Zonas), que nós vamos tratar em alguns capítulos de nosso curso de fotografia, quando estivermos a falar de luz.

O Livro

Essa galeria é uma pequena amostra do livro. São 92 fotos grandes em 128 páginas, um verdadeiro tratado de composição de inestimável valor artístico. Você pode comprar diretamente do site dele, ao custo de U$50 +frete, o que sai bem mais em conta que comprar um bom livro de fotografia no Brasil. A importação é livre de impostos pois livro no Brasil tem imunidade constitucional.

Site de Peter:  www.peterscotteide.com

© Fotos de Peter Scott Eide - É expressamente vedado copiar, fazer links ou usar as fotos para qualquer fim sem o consentimento do autor.

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  7 Comentários para “Peter Scott Eide – Edge of Forever”

Comentários (6) Pingbacks (1)
  1. Um galho seco tornado serpente. Um outro, congelado, faz o negativo de um relâmpago multi-ramificado. Uma rocha deixa sair de suas entranhas, não sem dores, o espírito do tempo na forma de uma árvore…

    A arte é uma forma de deslocar alguma certeza que tivéssemos.

  2. Você continua se superando e sua sensibilidade crescendo
    PENA QUE O SOM NÃO APARECE. VC SABE S RAZÃO?
    ABS
    LA

    • Olá Luis Alfredo,
      Testei em dois computadores e está funcionando. Normalmente isso só acontece em empresas e instituições públicas que fazem bloqueio de streaming, mas não em computadores de casa. Pode ter sido algum problema temporário que não identifiquei.

  3. Luis querido não me canço de dizer que você é um grande artista a nos encantar. Estou certo de que vcoê faz bem ao mundo levando arte de qualidade às pessoas. Abraços de saudades!

  4. Fotos densas, profundamente sensitivas. Realmente transmetem o clima frio e temos quase a sensação de estar no local. Fiquei curiosa pra ver como ele usa da fotografia para transmitir outras impressões. Vou la no site dele.

  5. Sensacional !! Fotos, texto e musica… Parabéns !!

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