mar 162012
 
Trecho do Poema Morte e Vida Severina

João Cabral de Melo com sua neta Dandara

 

Este é um trecho do poema “Morte e Vida Severina” que trata da revelação da vida, quando Severino, depois de uma longa jornada de sofrimento, já desistindo de viver, presencia o nascimento de uma criança:

 

…FALAM OS VIZINHOS, AMIGOS, PESSOAS QUE

VIERAM COM PRESENTES, ETC

 

— De sua formosura
já venho dizer:
é um menino magro,
de muito peso não é,
mas tem o peso de homem,
de obra de ventre de mulher.

 

— De sua formosura
deixai-me que diga:
é uma criança pálida,
é uma criança franzina,
mas tem a marca de homem,
marca de humana oficina.

 

— Sua formosura
deixai-me que cante:
é um menino guenzo
como todos os desses mangues,
mas a máquina de homem
já bate nele, incessante.

 

— Sua formosura
eis aqui descrita:
é uma criança pequena,
enclenque e setemesinha,
mas as mãos que criam coisas
nas suas já se adivinha.

 

— De sua formosura
deixai-me que diga:
é belo como o coqueiro
que vence a areia marinha.

 

— De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como o avelós
contra o Agreste de cinza.

 

— De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como a palmatória
na caatinga sem saliva.

 

— De sua formosura
deixai-me que diga:
é tão belo como um sim
numa sala negativa.

 

— é tão belo como a soca
que o canavial multiplica.

 

— Belo porque é uma porta
abrindo-se em mais saídas.

 

— Belo como a última onda
que o fim do mar sempre adia.

 

— é tão belo como as ondas
em sua adição infinita.

 

— Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.

 

— Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.

 

— Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.

 

— Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.

 

— E belo porque o novo
todo o velho contagia.

 

— Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.

 

— Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.

 

— Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.

 

 

O CARPINA FALA COM O RETIRANTE QUE
ESTEVE DE FORA,
SEM TOMAR PARTE DE NADA

 

 

— Severino, retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.

 

E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.

João Cabral de Melo Neto

O poema é longo e intenso, como este trecho. Não cabe na tela de um computador. Melhor ler em livro, sentado em uma poltrona, apreciando cada frase.

João Cabral de Melo Neto foi um extraordinário poeta e diplomata de carreira. Na época da foto com sua neta Dandara era Embaixador do Brasil no Senegal.

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  5 Comentários para “João Cabral de Melo Neto: A Revelação da Vida”

Comentários (5)
  1. maravilhoso

  2. “A vida nova é que infecciona a miséria!” Não conheço nada melhor para dizer sobre esperança. Evoé!

  3. Belo porque defende com (frágeis) palavras a vida severina – que então vira poesia.

  4. Muito bonito o poema, numa primeira leitura é difícil absorver sua profundidade, é preciso ler mais que uma vez. Tem razão de ser a sugestão de ler em livro sentado numa poltrona. Valeu

  5. Esta peça me tocou muito na época dos meus 18 anos, e hoje é precioso reler aqui verso tão otimista, humano e transcendental. Obrigada pelo seu site.

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