abr 032012
 

“Há uma coisa importante a dizer sobre poesia: você não precisa saber muito sobre ela para que ela tenha valor e significado em sua vida ou na vida de sua comunidade.” Seamus Heaney, Friends of Classics, 13 de janeiro de 2004

Cavar

Entre o dedo e o dedão a caneta
Parruda pousa; como arma pega.

Sob minha janela, um som raspante e claro
Quando a pá penetra a crosta de cascalho:
Meu pai, cavando. Olho para baixo.

Até seu dorso reteso entre os canteiros
Encurvar-se, brotarem vinte anos atrás
Dobrando-se em cadência nos batatais
Onde estava cavando.

Seamus Heaney em uma turfeira em Bellaghy usando o casaco de seu pai, chapéu e bengala. (Bobbie Hanvey Photographic Archives, John J. Burns Library, Boston College)

A chanca aninhada no rebordo, o cabo
Alçado contra o joelho interno com firmeza.
Ele extirpava talos altos, fincava o fio luzidio
Para espalhar batatas novas que colhíamos
Adorando a fresca dureza nas mãos.

Por Deus, o velho sabia usar uma pá.
Tal qual o velho dele.

Meu avô cortou mais turfa num dia
Do que qualquer outro homem no pântano de Toner.
Uma vez levei leite numa garrafa
Mal rolhada com papel. Ele aprumou-se
Para bebê-lo, e em seguida pôs-se a
Talhar e fatiar com precisão, lançando
Torrões nos ombros, indo mais embaixo atrás
Da turfa boa. Cavando.

O cheiro frio de barro de batata, o chape e o trape
De turfa empapada, os curtos cortes de um fio
Nas raízes vivas despertam em minha cabeça.
Mas pá não tenho para seguir homens como eles.

Entre o dedo e o dedão a caneta
Parruda pousa.
Vou cavar com ela.

Seamus Heaney (1939 -)

In: Poemas
Tradução, introdução e notas de José A. Arantes
São Paulo, Companhia das Letras, 1998, p. 31-2

Seamus Heaney é um poeta e escritor da Irlanda do Norte, laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1995. A Academia Sueca proclamou seus trabalhos como  “de beleza lírica e profundidade ética, que exalta os milagres do cotidiano e do passado vivo. ” O vídeo abaixo é baseado em uma produção da BBC, com o próprio Seamus recitando o poema. Acompanhe:

Digging

Between my finger and my thumb
The squat pen rests; snug as a gun.

Under my window, a clean rasping sound
When the spade sinks into gravelly ground:
My father, digging. I look down

Till his straining rump among the flowerbeds
Bends low, comes up twenty years away
Stooping in rhythm through potato drills
Where he was digging.

The coarse boot nestled on the lug, the shaft
Against the inside knee was levered firmly.
He rooted out tall tops, buried the bright edge deep
To scatter new potatoes that we picked,
Loving their cool hardness in our hands.

By God, the old man could handle a spade.
Just like his old man.

My grandfather cut more turf in a day
Than any other man on Toner’s bog.
Once I carried him milk in a bottle
Corked sloppily with paper. He straightened up
To drink it, then fell to right away
Nicking and slicing neatly, heaving sods
Over his shoulder, going down and down
For the good turf. Digging.

The cold smell of potato mould, the squelch and slap
Of soggy peat, the curt cuts of an edge
Through living roots awaken in my head.
But I’ve no spade to follow men like them.

Between my finger and my thumb
The squat pen rests.
I’ll dig with it.

Seamus Heaney, “Digging” from Death of a Naturalist. Copyright  1969 by Seamus Heaney. Reprinted with the permission of Farrar, Straus & Giroux, LLC.

 

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  Um Comentário para “Seamus Heaney: Cavar (Digging)”

Comentários (1)
  1. Puxa, a apresentação ficou uma beleza!

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