jun 182012
 
Dica de Marco Rapeli

O filme “Habemus Papam” está em cartaz  há algum tempo, embora não seja lá tarefa das mais fáceis encontrar um cinema que o esteja passando. O filme conta a história, basicamente de um Papa eleito, e sua dificuldade em assumir o cargo. A trama se desenrola pelo Vaticano e por Roma, o que inclui um “passeio” longo do novo papa à capital italiana, o que obviamente deixa o Vaticano de cabelo em pé.

Em “Habemus”, vemos a instituição religiosa católica em crise, em uma espécie de inversão heroica. De uma forma irônica e em um humor refinado, o filme se inicia mostrando a apuração de votos para a escolha de um novo papa, onde todos ali presentes, candidatos ao cargo máximo pontífice, desejavam não ser escolhidos – e os pensamentos eram transmitidos em voz alta, em uma espécie de cânone. Fumaça branca saindo, é motivo de comemoração quase unânime, exceto para o próprio novo papa que então assustado e com receio da grande responsabilidade a assumir, não consegue dar o célebre discurso, e todo o vaticano fica à mercê do Santo Padre e sua recuperação.

A psicanálise, representada pelo personagem de Nanni Moretti – também diretor do filme, tenta ajudar o papa, porém uma crítica também é feita à mesma, em vários momentos – por exemplo, ao enfatizar o ceticismo da Igreja com o método psicanalítico, ou no momento em que, proibido de tocar em diversos assuntos com o papa, em uma terapia assistida por inúmeros cardeais, o psicanalista é questionado sobre sua fé, e responde ser ateu. A dualidade Igreja x Psicanálise é colocada à mesa como em nenhum livro ou filme.

Cena do filme com Nanni Moretti (psicanalista) e Michel Piccoli (o Papa)

O novo papa vai à cidade para fazer análise com algum profissional que desconheça a sua posição recém-adquirida. Sua analista agora é a ex-mulher do primeiro terapeuta, que a define como “viciada em déficit de aceitação”. Após algumas recordações sobre traumas e momentos significativos de sua infância, o “diagnóstico” proferido foi aquele mesmo previsível, o tal déficit de aceitação.

Cena do filme com a atriz Margherita Buy, que faz o papel da psicanalista.

Como o papa responde a uma pergunta básica de sua terapeuta – qual era a sua profissão, faz toda a mecânica do filme. “Sou ator, sempre gostei de ser ator, desde criança sonhava com as turnês, as viagens para diferentes cidades… Mas agora estou um pouco cansado”. Para o contexto, o personagem não estaria mentindo. Pesada ou não, é a crítica que o filme sugere: o teatro da Igreja Católica, os rituais centenários pelos quais o papa, por exemplo tem que encenar, os papeis dos cardeais, chefes de estado – que devem ser interpretados à risca, e o próprio Vaticano, colocado como uma cidade cenográfica.

Importante ressaltar que tal crítica não propõe apologia a nenhuma posição religiosa ou científica – pelo contrário, o filme é em tom de comédia e a linguagem transmite descontração.

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  3 Comentários para “Habemus Papam, de Nanni Moretti”

Comentários (3)
  1. Eu não encontrei com um filme tão maravilhoso. O filme vai apelar para aqueles que são ainda muito tempo estava em Roma. Os italianos são um povo muito complexa, e neste filme, este fato é mostrado na íntegra. Outro grande filme Nanni Moretti é “Mia Madre” ( https://filmesonline.video/503-mia-madre-2015.html )

  2. Comédia que retrata, com extremo refinamento, o drama maior da natureza humana: resolver tudo de forma hipócrita, gerando insatisfação, sofrimento, desespero, agonia,
    Nanni Moretti é um gênio!

  3. grande Nanni…ti porto nel mio cuore…

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