jul 022012
 
Texto: Gustavo Junqueira
Fotos: Luiz Guimarães, Haroldo Junqueira e Gustavo Junqueira

De volta do Chile e sentado em frente ao computador enquanto digito essas linhas, tento lembrar e sentir o que se passou no último dia 09 de janeiro desde as primeiras horas da manhã. Estávamos em seis no refúgio Tejos, a 5.800 metros de altitude – eu, Haroldo e Luiz, os integrantes da expedição carinhosamente batizada de início como os “Ogros da Salada”, e mais três chilenos, sendo um deles o nosso incansável guia Mario Sepúlveda. Cochilamos sem conforto ou reposição de energias dentro dos sacos de dormir até às 3 horas da madrugada quando iniciamos os preparativos finais para o ataque ao cume do Ojos del Salado, 1.100 metros acima por encostas nevadas.

O temido frio de -25 graus, temperado por ventos que poderiam fazer a sensação térmica alcançar -40 graus, felizmente não se concretizou. Ufa! Nossa expedição enfrentaria um tempo mais ameno, por volta dos -15 graus. Pero si, pero no, vesti três camadas de calças, sendo a última com membrana de goretex; mais quatro camadas para proteger a parte de cima do corpo, sendo uma camisa e um casaco de polartec, um colete com pena de ganso e a jaqueta de goretex; nos pés, duas meias e as botas duplas, dignas de astronautas; na cabeça, um gorro, uma balaclava e ainda o capuz da jaqueta de goretex; nas mãos, três camadas de luvas; no rosto, no nariz e nos lábios, cremes protetores contra o vento, sol e assaduras.

Ainda distante: o gigante Ojos del Salado visto durante a aproximação de carro.

O café da manhã foi silencioso e um pouco tenso: chá, bolachas e frutas enlatadas. A dor de cabeça que latejava no topo do crânio há mais de oito horas não cedera com a última aspirina e incomodava. Sinal que minha aclimatação não havia sido suficientemente boa ou longa para tentar escalar o Ojos del Salado com mais tranquilidade. A opção razoável seria abortar a subida, descer para um acampamento 1.600 metros abaixo, descansar um dia e retornar para uma nova tentativa. Mas como desistir naquele momento, às 4:30 horas da madrugada, com todo mundo pronto e as condições meteorológicas aparentemente favoráveis?


Para piorar, tentei ingerir uma nova aspirina que aliviasse a encefalite causada pelo engrossamento do sangue que tentava valentemente, ao ser bombeado pelo coração, levar oxigênio ao cérebro naquela zona de ar rarefeito. O enjoo foi instantâneo e, minutos antes do grupo partir, literalmente “chamei o Hugo” e mandei embora o parco café da manhã ainda no estômago. Sem energia alimentar no organismo, minha missão se complicara mais um pouco diante das prováveis 8 horas de ascensão que tínhamos pela frente, ou melhor, pelo alto. “Paciência! Vou subir esse troço na raça”, disse aquela parte de mim que não queria desistir, o tal Diabinho. O Anjinho, por sua vez, já sugeria: “Calma, vamos adiar esse desafio!”…

O Diabinho “Gustavo” venceu a parada. Coloquei o óculos escuros na bolso e nas costas a mochila contendo, entre outros objetos, câmera fotográfica e de vídeo, uma cadeirinha de escalada, os grampons a serem acoplados nas botas, dois chocolates e os shakes de malto, creatina e BCAA divididos numa garrafinha de plástico e em outra térmica – no fundo, seriam elas a minha esperança de reservas energéticas; e peguei os bastões de caminhada.

Formamos uma fila indiana atrás do guia Mario e começamos a caminhar lentamente por volta das 4:40h, passos cadenciados, lanternas de testa acesas numa madrugada bastante clara, a lua cheia iluminando vales fantasmagóricos e remotos da cordilheira na fronteira entre o Chile e a Argentina, com diversos picos abundantemente nevados.

Todos eles diziam, de forma magnética: “Venham a mim, subam e bebam do mágico elixir que enfeitiça homens e mulheres de todo o mundo em busca do segredo das montanhas”. Nossos olhos e mentes, no entanto, naquele momento, estavam voltados para o Ojos del Salado, e como faríamos para chegar até sua cratera …

No início, após os primeiros minutos de caminhada e aquecimento, a vontade e a disposição física predominavam. Mário, o guia, seguia à frente, impondo um bom ritmo. Eu seguia logo atrás, pensamento positivo, tentando esquecer a dor de cabeça e o enjoo. “Nada te afastará do topo da montanha”, balbuciou o Diabinho; “Calma lá, rapaz, vamos avaliar pois a jornada é longa e penosa”, rebateu o Anjinho.

Em pouco tempo, as passadas sobre pedras dispostas numa trilha irregular e nem tão visível foram substituídas por um caminhar numa neve cada vez mais fofa. A subida tornou-se mais íngreme, forçando o guia a seguir num ziguezague cada vez mais extenso, evitando a ascensão mais direta e cansativa. Antes da primeira hora, quando o dia já ameaçava aparecer, demos a primeira parada para descanso e hidratação.

Tirei um par de luvas para conseguir abrir a jaqueta de goretex, saquei de um bolso interno uma garrafinha que contava com o calor corporal para não congelar seu conteúdo e sorvi metade do shake energético. Aquilo, felizmente, caiu bem no estômago vazio e, em pouco tempo, chegou à corrente sanguínea gerando uma corrente de energia. “Êba, havia esperança!”, pensei minutos depois quando já seguíamos em frente, variando a posição da fila que seguia solitária naquela madrugada em busca do cume do gigante Ojos del Salado.

Os minutos foram se passando, transformando-se em horas. Testemunhamos o dia nascendo naquelas alturas, um espetáculo bucólico e grandioso, os raios solares aos poucos se debruçando sobre picos nevados, faces sombrias e vales inalcançáveis. E nós ali, no meio da cordilheira, pontos ínfimos naquela vastidão, locomovendo-se como tartarugas mancas em direção ao alto, ao céu azul, ao desconhecido. O frio mostrou então sua cara, amortecendo as mãos e dedos escondidos dentro de luvas que prometiam calor. Restou-nos então esfregar, bater e sacudir essas extremidades em busca de circulação, de sangue correndo na ponta do mindinho, do polegar e do indicador.

O sol apareceu de vez e afugentou definitivamente o receio do congelamento. E escancarou a face inóspita que nos levava ao topo da montanha. Para nossos olhos sedentos de cume, parecia que o topo estava logo ali, a menos de 300 metros verticais. Ledo engano! O guia explicou que nem havíamos alcançando a metade e que ainda faltavam 600 metros para cima. Mas como era possível? Tão perto e ao mesmo tempo tão longe! A vitória ainda se encontrava distante e cobraria muito sofrimento para ser saboreada …

Viramos à direita para uma longa travessia. A neve afundava cada vez mais, primeiro até o tornozelo, depois até os joelhos e, por fim, quase até a cintura. Isso nos exigia um grande esforço, principalmente nas pisadas em falso, quando buracos nos levavam a perder o equilíbrio e até mesmo a engatinhar sobre o manto branco. Como estava excessivamente macia, a neve não pedia os grampons que poderiam dar mais firmeza e equilíbrio. Neste ponto, o grupo não seguia mais compacto, mas cada um no seu ritmo possível. Algumas vezes, eram 10 passos e uma parada de alguns segundos para respirar e recuperar o fôlego.

Quase lá

Os minutos continuaram a se passar, e com eles novas horas, paradas e goles no shake energético. Já estávamos subindo há mais de cinco, a cratera parecia tão perto mas nossa progressão não ajudava. Sim, nossa altitude era respeitável, talvez ninguém nas Américas estivesse naquele momento tão alto quanto nós, mas os metros finais se mostravam os mais penosos. E o Diabinho e o Anjinho travavam nova batalha, principalmente quando eu me sentava na neve para descansar, olhar baixo. Já não sabia qual deles me entusiasmava a subir ou descer, a continuar ou desistir.

Ao menos me deleitava com o cenário ao redor, com a magia daquele lugar único, pouco abaixo da cratera do mais alto vulcão do mundo. Enxergava abaixo o Luiz e o chileno Hernan e sentia-me aliviado. Afinal, eles ainda teriam que subir um respeitável trecho que eu já havia sobrepujado. Mas, ao virar os olhos para cima, via o guia Mário, o outro chileno, Sergio, e o Haroldo, e sabia que teria que me esforçar bastante para chegar onde eles estavam. Doces e espinhudos dilemas da montanha!

Mas agora faltava pouco! O espírito não mais se dobraria perante as dificuldades! Era só acreditar, arfada a arfada, passo a passo, o Haroldo logo ali na frente, uns 15 a 20 metros, mas algo como cinco minutos de distância naquelas condições … Um, dois, três e … lá estava, depois de quase sete horas de luta, a cratera, escandalosamente soberana, cortejada por rajadas de vento. Encostei-me num morrinho natural, tirei a mochila e fizemos a tradicional troca de cumprimentos e parabenizações. E que momento do topo do Ojos!

Topo? Na verdade, ainda havia a cratera para atravessar e depois uma subida por uma encosta que levaria ao cume, real, acessível somente com o auxílio de cordas. Ao menos mais uma hora de esforços e boa vontade. Minha cabeça voltou a latejar forte, pressionada pelo esforço no ar rarefeito e pelo curto ciclo de aclimatação. Será que daria para continuar? Enquanto me decidia, resolvi tomar mais uma aspirina para aplacar a dor, mas o resultado foi o mesmo que lá embaixo: um forte enjoo, fortes contrações estomacais e uma verdadeira lavada na cratera do Ojos.

Praticamente nocauteado pelo “UFC Ojos”, me estendi no chão de pedra e neve e repousei por longos minutos. O Luiz, e depois o Hernán, também chegaram para aquela estranha, mas feliz e inesquecível confraternização na cratera. O Haroldo, o Mario e o Sergio seguiram em frente rumo ao cume, mas o Haroldo deu um último suspiro de energia antes da chegada à corda e também retornou. Antes disso, o gigante adormecido deu sinal de sua opulência e poder enviando rajadas consideráveis de vento e neve enquanto nuvens tomavam seu cume.

Por segurança, eu, Luiz e Hernan começamos a descer. O Haroldo ainda amargou quase 40 minutos de espera angustiante na cratera, agora nem tão amistosa assim, enquanto o guia e o Sergio pelejavam para subir e descer do cume. Baixar é muito mais tranqüilo, embora as pernas cansadas volta e meia tropicassem em pedras e buracos indesejáveis. Questão de paciência e empenho, em poucas horas atingimos a segurança do Refúgio Tejos.

Sim, havíamos atingido a tão sonhada cratera do Ojos del Salado, quase a 6.800 metros de altitude, um feito considerável diante dos desafios do tempo, da aclimatação forçada e de outras dificuldades. E o pior, cada mísero minuto daquela epopéia havia valido rigorosamente a pena, não havia arrependimento, somente orgulho. Havia faltado uns desafiadores metrinhos até o cume, mas isso ficaria para uma próxima vez já que a belíssima região ao redor do Ojos já merecera e ainda mereceria nos próximos dias outras memoráveis explorações.

Da esquerda para a direita, Luiz , Haroldo e Gustavo

O Vídeo da Expedição Ojos del Salado

 

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