out 052012
 

Mario Vargas Llosa. Foto: Daniele Devoti

Por Sérgio Mayr

Livro: O Sonho do Celta (“El Sueño Del Celta”)
Autor: Mario Vargas Llosa
Ano: 2010
Tradução: Paulina Wacht e Ari Roitman – Editora Alfaguara, 2011

Esta obra de Mario Vargas Llosa, prêmio Nobel de literatura de 2010, fundamentada em exaustiva pesquisa histórica, articula em reflexões ensaísticas, narrações, descrições e diálogos a história real de Roger Casement, um irlandês dotado de pronunciados humanismo e noção de justiça que, a serviço do Império Britânico, como cônsul, testemunhara, no final do século XIX e no início do século XX, fatos estarrecedores no Congo e na Amazônia Peruana e, por fim, foi protagonista de parte do processo de independência da República da Irlanda.

Llosa utiliza a técnica que domina muito bem, de trânsito fluido no tempo, com ritmo e fôlego que capturam firmemente a atenção do leitor desde a primeira página: forma e conteúdo amalgamados de maneira magistral por um mestre da narrativa contemporânea. A criação literária lastreada em fatos reais é recorrente na obra de Llosa: “A Guerra do Fim do Mundo”, “A Festa do Bode”, “O Paraíso na Esquina”, entre outros livros notáveis.

Roger Casement, nascido em 1864 em um subúrbio de Dublin, desde cedo, embora de formação anglicana por causa do pai, teve relevante influência do catolicismo da mãe, que instilara no filho a centelha do nacionalismo irlandês.

Uma foto rara de Roger Casement

O Estado Independente do Congo foi uma dádiva ofertada pelas grandes potências, em 1885, ao rei da Bélgica, Leopoldo II, monarca com verniz de humanista, dedicado aparentemente a uma missão civilizatória da África, mas com interesses vis, inconfessáveis. Foi nesse país, no último quartel do século XIX, que Casement fez parte de algumas expedições, tendo trabalhado para o notório jornalista e explorador galês Henry Morton Stanley, figura cruel e inspiradora de uma sombria, mas magnífica novela do futuro escritor Joseph Conrad, “O Coração das Trevas”, de 1902 (base para a obra-prima cinematográfica de Francis Ford Coppola, “Apocalypse Now”).

Conrad, na época um jovem marujo polonês anônimo conhecido pelos colegas como Konrad Korzeniowski, inglês naturalizado, ainda sem as desilusões produzidas pelo que observaria de mais sinistro na região, singrava o rio Congo junto com Casement em algumas excursões bastante esclarecedoras acerca do colonialismo belga.

O colonialismo belga no Congo. Fotografado por Roger Casement

Primeiramente a soldo de empresas concessionárias encarregadas da exploração dos recursos naturais do país, notadamente a borracha; em missões religiosas; e, posteriormente, como cônsul da Grã-Bretanha na cidade de Boma desde 1900; Casement flagrou a sordidez do esforço “civilizatório” europeu no país africano: as companhias seringalistas ostentavam completa soberania e formavam milícias, sendo os nativos explorados de modo desumano ao trabalhar arduamente mediante paga aviltante ou nenhuma e compelidos a cumprir metas de produção praticamente inatingíveis.

As atrocidades no Congo. Foto: Roger Casement

No mister falsamente civilizatório em um núcleo dito “selvagem”, os colonos europeus, na verdade, trouxeram a barbárie a grupos étnicos com costumes e tradições não compreendidos pela dita “civilização”. Das observações de Casement resultou um “Relatório sobre o Congo”, encomendado pelo “Foreign Office” britânico, com consequências diplomáticas importantes, deletérias aos interesses colonialistas do Império Belga e perturbadoras para a opinião pública ocidental.

Mãos cortadas. Foto original do arquivo de Roger Casement

Julio César Arana del Águila, ou simplesmente Julio C. Arana, era o poderoso e festejado proprietário da Peruvian Amazon Company, principal companhia seringueira que explorava a atividade no início do século XX na extensa região de selva densa e cerrada do Putumayo ao norte do Peru, cobiçada pela Colômbia. Como havia participação acionária britânica na empresa e muitas denúncias publicadas pela imprensa britânica de violações dos direitos humanos de populações nativas, Casement foi encarregado pelo “Foreign Office”, depois do êxito do relatório sobre as atrocidades no Congo, de uma investigação minuciosa na referida região como líder de uma comissão especialmente constituída para tal fim.

Vista do Rio de Janeiro. Foto de Roger Casement.

Vista de uma casa em praia próxima a Santos, SP. Foto: Roger Casement

Depois de uma temporada na Irlanda para reavivar os vínculos emocionais, mitológicos até, com essa terra de características únicas, e de quatro anos passados no Brasil na faina consular, principalmente no Pará e no Rio de Janeiro, em 1910 Casement chegou a Iquitos, principal cidade da Amazônia Peruana, localizada às margens da bacia amazônica peruana, onde ocorre o encontro das águas dos rios Nanay e Amazonas, já caudaloso, porém mais a montante ainda denominado Rio Marañón. No calor úmido, equatorial, quase insuportável, da cidade, Casement logo percebeu a hostilidade dos próceres locais, mancomunados em um genuíno código de silêncio, sendo a companhia sob inspeção o esteio econômico da cidade e de uma vasta região circunjacente, embora demograficamente rarefeita.

Roger Casement com indígenas em Putumayo, região da amazônia peruana.

Não demorou muito para Casement tomar ciência dos castigos terríveis infligidos, pela falta de cumprimento das duras cotas de produção das bolas de látex, aos indígenas pelos sanguinários feitores do empreendimento seringalista que abastecia de borracha boa parte do mundo ocidental industrializado. Um autêntico “déjà vu” para o irlandês: no caso, em lugar dos nativos congoleses aliciados de outrora, os indígenas, homens e mulheres em condições de trabalho, eram violentamente arrebatados de suas tribos – huitotos, ocaimas, muinanes, nonuyas, andoques, rezígaros e borás – em expedições floresta adentro conhecidas como “correrias”. Boatos sobre a ignomínia precederam e foram confirmados por depoimentos de testemunhas oculares em diferentes estações da companhia visitadas por Casement na região do Putumayo.

Meninas em aldeia de Putumayo. Foto de Roger Casement.

Sim, Casement fez questão de ver tudo pessoalmente e trabalhava à noite incansavelmente, a despeito de condições de saúde não propícias e da pusilanimidade dos membros da comissão de investigação, no relatório que revelaria ao mundo um verdadeiro genocídio na selva amazônica peruana. Graças à coragem e à sagacidade de Casement, alguns meses depois de iniciada a expedição, o contundente relatório pôde chegar ao destino necessário, via bacia amazônica brasileira e Manaus: um golpe no império de Arana e na zona de conforto de fleumáticos e alienados cavalheiros britânicos, os acionistas do empreendimento.

Indígenas que trabalham na extração de látex em Putumayo. Fotos: Roger Casement

O livro termina como começa, com o celta relegado ao ostracismo em Pentonville Prison, Londres, em agosto de 1916, encarcerado por traição à pátria inglesa por conta da participação ativa no malogrado Levante de Páscoa ocorrido alguns meses antes em Dublin, com a respectiva homossexualidade explorada torpemente pelas autoridades e pela imprensa, relembrando as aventuras nos trópicos e o infatigável trabalho contra as barbaridades perpetradas pelo ser humano etnocêntrico e voltado, em qualquer época, à ganância cruel e incondicional, e sonhando com a elusiva liberdade irlandesa. Mediante tratado celebrado, o Estado Livre Irlandês – República da Irlanda ou Eire – sobreveio, enfim, em 1922. Os condados da Irlanda do Norte optaram por permanecer no Reino Unido.

Sir Roger Casement chegando na corte em Bow Street para seu julgamento em 1916.

Na prisão, Casement recebeu uma carta de Julio C. Arana, em um inglês muito mal redigido, em que este, entre outras coisas, o exortava “a ser justo, confessando ante um tribunal humano as suas culpas, só conhecidas pela Justiça Divina, em relação à sua atuação no Putumayo”. Arana, o inescrupuloso barão da borracha, foi senador no Peru entre 1922 e 1926 e, nascido em 1864, mesmo ano do nascimento de Casement, morreria somente em 1952. Casement faleceu em 1916, com apenas 51 anos.

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