abr 292013
 

Uma Pequenina Luz

Recitado por Paulo Campos dos Reis, Encenador

 

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla… em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha.

 

Jorge de Sena (1919-1978)
Antologia Poética
Edição de Jorge Fazenda Lourenço
Guimarães Editores
Jorge de Sena foi Poeta, Crítico, Ensaísta, Ficcionista, Dramaturgo, Tradutor e Professor Universitário

 

Outros declamadores:

 Samuel Úria, Músico

Catarina Guerreiro, Atriz

Susana Neves, Artista Plástica

 

Um poema por semana é uma série criada pela Rádio Televisão Portuguesa e foi transmitida durante 75 dias em três inserções diárias. Segundo a RTP: “Cada poema durou uma semana e contou com 75 diseurs, um por dia: homens e mulheres, novos e velhos, portugueses e brasileiros e angolanos e italianos falantes de português. Todos eles declamaram o poema à sua maneira, de forma mais ou menos extensa, mais rápida ou mais lenta, a sorrir e a cantar ou quase a chorar. Todos contribuíram com um pouco de si e mostraram-nos o que estava escrito nas entrelinhas, espalhando sonho e inspiração, que o público caracterizou de “um oásis no deserto”.”

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